“Corpo-mole”: Ex-presidente da Funai critica demora do governo nas buscas de Bruno e Dom

"Quem ali demonstra atividade a favor dos povos indígenas sempre foi ameaçado", disse ex-presidente da Funai

Foto: Reprodução/TV Cultura

O ex-presidente da Funai, Sydney Possuelo, afirmou que as forças do governo de Jair Bolsonaro fizeram “corpo mole” nas buscas iniciais do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. Possuelo disse acreditar que eles foram vítimas “de uma emboscada” e que apesar da surpresa, “já se previa” que “algo terrível” poderia acontecer.

“Eu acredito que ele [o indigenista, acompanhado do jornalista] foi vítima de uma emboscada. Quem fez, aí é o problema a ser levantado por essas forças que estão ali na região trabalhando. Me parece que eles demoraram um pouco, as forças que atuam ali fizeram um corpo mole inicial, e depois, na medida em que a questão tomou uma forma nacional e internacional, aí então o Estado entrou com um pouco mais de vigor.”

As declarações foram dadas em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda (13). Com grande experiência e conhecimento na região do Vale do Javari, ele explicou que “já se previa” que Bruno, por sua atuação e também conhecimento da área, foi vítima de “algo terrível”. “Porque no trecho que ele fazia, ninguém desaparece assim, no ar, e é bastante conhecido [o trajeto]. Então, já se esperava algo terrível que pudesse ter acontecido ali.”

E as motivações levantadas pelo ex-presidente da Funai foram diretas: “Quem ali demonstra atividade a favor dos povos indígenas sempre foi ameaçado”, disse.

Atualmente, equipes da Funai, da Polícia Federal, do Ministério Público Federal (MPF) e as próprias entidades indígenas, como a Univaja (União das Organizações Indígenas do
Vale do Javari), atuam nas buscas. Possuelo diz ter esperança que agora as respostas venham “rapidamente, em alguns dias mais.”

“Dizem que tem 250 pessoas, fora os povos indígenas, a Univaja está se empenhando muito, junto com equipes que estão ali, de indígenas, se empenhando muito na busca de vestígios, de ver se encontram alguma coisa a respeito. Vamos aguardar, nos resta nesse momento, senão aguardar.”

O ex-presidente da Funai narrou que o risco era eminente, considerando as ameaças que Bruno Pereira já havia recebido.

“Eu penso, de verdade, que todos os funcionários da Funai que se dedicam ali no Vale do Javari, que é uma área extremamente perigosa, todos eles estão sujeitos a esses acontecimentos dramáticos. Todos eles estão ameaçados. Porque é uma área confusa, e quem ali demonstra atividade a favor dos povos indígenas sempre foi ameaçado. Não é de agora. Isso vem de anos, decênios atrás, todos foram ameaçados. E eu, quando comecei, estive lá e montei as frentes, também eu e outros companheiros meus também foram ameaçados.”

Criticando, de forma direta, a omissão do governo de Jair Bolsonaro com a proteção desses povos, chamando a atual política de desmonte ambiental de “tapa na cara” dos indígenas e “Funai que não é Funai”, Possuelo afirmou que a única esperança de acabar com o atual retrocesso é “se houver uma mudança na visão política da cabeça do governo”.

“Tudo isso que está acontecendo só está acontecendo nesse nível atual em função da proteção que o Estado está dando aos bandidos”, disse.

“Senão, vai permanecer esse caos que nós estamos vendo, dos órgãos atuando na região, Funai que não é Funai, meio ambiente que não é meio ambiente, que não protege os povos indígenas. (…) Então se não houver uma mudança dessa cabeça, não se muda nada lá na base, lá no campo. Você pode colocar mais polícia, mais Exército, mais Marinha, mas se não houver uma mudança na visão na ação legal, para ser justo, para cumprir o [artigo] 231 da Constituição, na proteção aos povos indígenas, eu acho que vai ser muito difícil que alguma transformação chegue lá na ponta.”

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

ananelia alves

- 2022-06-14 16:25:56

Os indígenas no Brasil nunca tiveram o devido respeito, nem dos governos e nem da sociedade em geral, a história mostra isso.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador