Dedicado aos irmãos de 2038
por Felipe Bueno
Em 2010, a Mãe Natureza, da qual tanto se fala e pouco se ouve, já dava seus alertas: a terra, no Haiti, na China e no Chile; as chuvas, no Rio de Janeiro e na Ilha da Madeira; a neve, em várias cidades da Europa.
O ano foi triste na literatura: perdíamos Salinger, Eloy Martínez e Saramago.
Falando em letras, 2010 seria o “ano em que faríamos contato”, de acordo com o título em português do filme baseado no livro de Arthur C. Clarke, ambos continuações das respectivas versões de 2001.
Seria, aliás, o computador HAL 9000 uma alegoria antecipada de tudo o que a humanidade fez de bom e de ruim com ela mesma?
Mas este não é um texto sobre a Mãe Natureza, nem sobre literatura, muito menos sobre cinema.
É, sim, acerca da passagem do tempo, de um específico período de catorze anos, o que nos levou a 2010.
De lá para cá, a evolução tecnológica facilitou nossa vida em muitas coisas, mas, especialmente na (falta de) comunicação, tem deixado cada vez mais claro nosso fracasso enquanto ocupantes deste planeta.
Em 2010, o povo palestino já era vítima de ódio, repressão e falta de liberdade.
Cada vez mais velhas violências, cada vez mais novas armas.
É importante ter isso em mente quando nos lembrarmos, daqui a catorze anos, de conferir se a ONU estava certa ao dizer, em 2024, que seria necessário esse período de tempo para livrar a Faixa de Gaza de todos os artefatos explosivos que não foram detonados em seu território desde o início da mais recente ofensiva perpetrada pelo governo de Israel, consequência do ataque feito pelo Hamas no último 7 de outubro.
Vale ressaltar: serão catorze anos, contados a partir de agora, não para dar paz, dignidade e liberdade a um povo, mas apenas para livrar seu território do risco de ir para os ares junto com parte de sua população.
Isso se nenhum outro movimento bélico semelhante acontecer a partir do momento em que você estiver lendo estas modestas linhas, o que, convenhamos, é pouco provável.
Se cada alerta e reflexão bate e volta em ouvidos surdos, talvez caiba a nós apenas torcer para que nossos irmãos de 2038 – e além – tenham mais maturidade e sejam mais civilizados. A vida será difícil para eles também. Certamente será.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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