5 de junho de 2026

TikTok, geopolítica e censura, por Márcio Sampaio de Castro

Segundo o Instituto Gallup, em 2023, 39% do público nos EUA não confiam nos meios de comunicação tradicionais, a chamada mídia corporativa.
Arte NeoFeed

TikTok, geopolítica e censura

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Márcio Sampaio de Castro

Em um domingo de abril, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a toque de caixa um pacote de 95 bilhões de dólares para o fornecimento de armas para a Ucrânia, para Israel e para Taiwan. Três dias depois, na Casa Branca, o presidente Joe Biden sancionou a liberação dos recursos alegadamente destinados a defender a liberdade, a democracia e a civilização diante da barbárie e do terrorismo. Um detalhe, porém, aparentemente desconexo em relação ao pacote de armas chamou a atenção: na mesma sessão os congressistas aprovaram uma lei draconiana que, na prática, visa banir o aplicativo de rede social TikTok do território estadunidense.

Também sancionada por Biden com a mesma celeridade destinada aos recursos voltados para a guerra, a nova legislação determinou um prazo de 270 dias, a partir de sua promulgação, para que a empresa criada e controlada pela chinesa ByteDance venda os ativos da marca TikTok para um controlador norte-americano. Ou que, dentro do mesmo prazo, o código-fonte do aplicativo seja completamente aberto, o que franquearia acessos aos seus segredos operacionais, o que é de amplo interesse da concorrência.

Segundo a plataforma de gerenciamento de redes sociais Hootsuite, em janeiro de 2023, o TikTok possuía 1,5 bilhão de usuários ao redor do planeta, sendo 170 milhões deles estadunidenses. O aplicativo fica atrás apenas dos gigantes Facebook (Meta), com 3 bilhões, YouTube (Alphabet), com 2,5 bilhões e do Whatsapp (Meta) e Instagram (Meta), com 2 bilhões cada, todas essas empresas criadas nos Estados Unidos e controladas por nativos daquele país. Mas em termos de valor de marca, no universo de companhias de mídia, o aplicativo chinês ocupava no mesmo ano o segundo lugar no mercado global, com um valor estimado em 65,7 bilhões de dólares, atrás apenas do Google (Alphabet), com valor de mercado estimado em 281,4 bilhões de dólares. Detalhe: um ano antes, o TikTok ocupava a quarta colocação nesse ranking.

Diante da aparente truculência do establishment político norte-americano, justificada por uma suposta ameaça de espionagem chinesa via aplicativo de rede social, não deixa de causar espécie a medida que joga para fora da pista da livre concorrência e do livre mercado um intruso que ousou se enfiar entre as gigantes desse segmento de mídia, todas made in USA. Esse arranjo é colocado por muitos na conta da guerra comercial iniciada pela administração Donald Trump ainda em 2018.

Mas existem duas perguntas incômodas que poucas pessoas fizeram mundo afora: Por que, de repente, a pressa em aprovar o banimento em uma sessão realizada num domingo?! Por que aprová-lo junto com o pacote bilionário para a venda de armas aos países onde se travam disputas que prometem desenhar as próximas décadas no cenário geopolítico?

O deputado republicano pelo estado de Michigan, John Moolenaar, um dos maiores entusiastas pelo banimento da plataforma chinesa, é o coordenador na Casa dos Representantes do Comitê Especial para a Competição Estratégica entre os Estados Unidos e o Comitê do Partido Comunista Chinês – note-se que a querela, no entendimento do Congresso norte-americano, não é entre os dois países e sim contra o Partido Comunista. Pois bem, Moolenaar, que esteve na comitiva da temerária visita a Taiwan da então presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, em 2022, é um ferrenho anticomunista e declara em alto e bom som que a China quer destruir o seu país por dentro, valendo-se dos mais diversos recursos, sendo um dos mais nocivos o TikTok.

Com ele concorda o senador republicano Peter Ricketts, que em uma das audiências pré-votação apresentou algumas justificativas, sob certo ponto de vista, consistentes para o seu voto e que também nos dão pistas para responder as duas perguntas acima.

Segundo dados de uma pesquisa publicada pelo Instituto Gallup em 2023, 39% do público nos EUA não confiam nos meios de comunicação tradicionais, a chamada mídia corporativa. Enquanto isso, 29% não confiam muito, e os restantes 32% confiam. Para efeito de comparação, em 1972, no início da série histórica do levantamento, esses números eram respectivamente: 6%; 24% e 68%. Segundo Ricketts, esse descrédito é maior entre os jovens millennials e os da geração Z, ou seja, a turma nascida entre os anos 1990 e 2010, porque mais de um terço deles consome suas informações “exclusivamente” no Tik Tok, absorvendo uma agenda “racista” contra os judeus e “pró-terrorista”, a favor do Hamas, por influência dos chineses. Essa “lavagem cerebral” seria, para o senador, o gatilho para as manifestações em diversos campi universitários contra a política da administração Biden na questão israelo-palestina.

O que Ricketts se esqueceu de contar é que, conforme matéria devidamente fundamentada divulgada pelo The Intercept, ainda em 2022, o governo dos EUA promove com frequência reuniões com representantes de plataformas digitais com sede no país para buscar “moldar o discurso online” veiculado em suas redes sociais, de acordo com os interesses de segurança estadunidenses. Algo que a partir de um bom dicionário orwelliano pode ser definido, se lido ao contrário, como censura. 

Para aqueles que têm dúvidas, basta conversar com produtores de conteúdos do YouTube para verificar que aqueles que se arriscam a postar conteúdos muito diferentes ou até opostos aos veiculados pela mídia corporativa baseados nos informes das grandes agências de notícias sofrem invariavelmente sanções que vão desde a desmonetização até o banimento de seus canais. Por outro lado, ao digitar Gaza no mecanismo de busca do TikTok, os usuários devem estar preparados para ver uma miríade de sugestões de vídeos com crianças famélicas, chorando em meio a escombros ou até mesmo envoltas em mortalhas nos restos daquilo que um dia foi um aglomerado humano minimamente habitável.

É claro que na era das plataformas digitais todos os nossos dados são monitorados, catalogados e armazenados por seus desenvolvedores. Não pode e não deve haver aqui um maniqueísmo ingênuo.

Mas em resumo, e voltando ao ponto de partida deste texto, no admirável mundo novo da novilíngua, não basta aprovar novos recursos para financiar os instrumentos de morte em nome da paz. É preciso calar as vozes dissonantes.

Márcio Sampaio de Castro é mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É professor assistente nos cursos de Relações Internacionais e Propaganda e Marketing das Faculdades de Campinas (FACAMP), onde coordena o Grupo de Análise e Pesquisa sobre a China (GAP – China).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados