Armando Coelho Neto
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.
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Delírios militares, enchentes, erisipela mental e outras falas, por Armando Coelho Neto

É muita ingenuidade pensar que os temas militares como sendo apenas de defesa nacional, pois o que querem é controlar a sociedade civil.

Rafael Carvalho – Divulgação

Delírios militares, enchentes, erisipela mental e outras falas

por Armando Coelho Neto

O Projeto de Nação* – O Brasil em 2035, foi lançado em maio de 2022 pelo Instituto General Villas Bôas e não em maio desse ano, acidentalmente registrado no texto passado. A citação se deu num contexto de ironia por meio da expressão “erisipela mental” (alusão ao inelegível), espírito que estaria norteando a onda de descaso e mentiras na tragédia do Rio Grande do Sul, hoje um paradoxo nacional.

De qualquer modo, vale a pena voltar ao projeto militar, que a título de cenário prospectivo, tem como foco um hipotético ano de 2035, no qual ações tomadas no presente nele desaguariam. Na prática, porém, ficam nítidos contraditórios delírios militares e seus postulados ultradireitistas. Mas, não se “trata de uma vã tentativa de adivinhar o futuro”, destacam os autores. Sim, mas tudo se passa em 2035.

A peça é um tanto infantilizada e tem redação precária, entre outras inconsistências, o que “teria levado parte da mídia a não dar muita importância”, consta do site jornalístico Marco Zero. Já para o Le Monde Diplomatic, além de insuficiências metodológicas, vem embutida de uma visão autoritária, calcada na continuidade de uma ideologia de segurança nacional (da Escola Superior de Guerra -ESG)*.

Lançado às vésperas das eleições presidenciais de 2022, pode-se deduzir que serviria no mínimo inspiração para ex-capitão defenestrado nas urnas, caso não tivesse levado a rasteira popular. Tomando como referência o ano de 2035, é de se presumir no mínimo mais três mandatos presidenciais, para quem dizia que “pelo voto não se muda nada” e passou quatro anos defendendo golpe de estado…

Na obra “República de Segurança Nacional: militares e política no Brasil”, do professor e cientista político Rodrigo Lentz, o autor destaca que como protagonistas ou como coadjuvantes, as Forças Armadas somam dois séculos de participação e politização. Portanto, é muita ingenuidade pensar que os temas militares como sendo apenas de defesa nacional, pois o que querem é controlar a sociedade civil.

Sim, os militares brasileiros nunca assimilaram a ideia de que o poder militar deriva do civil e não o contrário. Aliás, como diz o ministro do STF Flávio Dino, não existe, no nosso regime constitucional, um ‘poder militar’. O poder é apenas civil. Fosse a minuta da tentativa de golpe mais detalhada, o projeto Brasil 2035 cairia bem no conteúdo, por serem primos irmãos. Os mantras do ex-capitão ficam claros na peça.

O tema ativismo judicial, por exemplo, está presente tanto na minuta quanto no projeto. Expressões como cisão social, ideologias radicais (de direita e esquerda?), utópicas, liberticidas, ideologia nas escolas…. Mesmo assim, a peça se declara apartidária, com serventia para o (des)governo passado e os futuros, tudo “em conformidade com o perfil predominante do povo brasileiro”. Que perfil, cara pálida?

Em 2035, não se sabe por qual razão, os regimes democráticos seriam a convergência de conservadores com liberais. Tem a marca do trabalho voluntário X coletivismo involuntário; individualismo econômico, competição, meritocracia, desestatização; propriedade privada essencial para a liberdade. E, claro, meios para fortalecer o sentimento de Pátria (Não, não consta Deus, Pátria Família!).

Mantras como globalismo, combate à corrupção, civismo, valores morais, éticos, convertem-se em profanação, quando se conhece o ideário por trás de quem os defende. Basta lembrar a corrupção do governo passado, a continência à bandeira dos EUA sob gritos USA (Iu-es-sei!), as agressões morais e éticas no chiqueirinho da esbórnia presidencial na gestão passada. Contraditório, não?

Ao defender maior autonomia das Polícias Militares e o estreitamento de suas relações com o Exército, há um mimo especial, com críticas ao suposto preconceito contra a ocupação de determinados postos por oficiais militares. Também aqui, não há como sustentar a pretensão dos autores do projeto, no que tange a isenção, apartidarismo, sem matiz ideológica. É forte o militaresco cheiro ultradireitista.

E, para reforçar a festa da Faria Lima, a peça futurista prevê e preconiza a redução de impostos; desestatização; universidade pública e SUS pagos, restrições à legislação indígena e ambiental, portos e aeroportos privatizados. Nem uma linha sobre seguridade social, previdência, aposentadoria, racismo. A palavra inclusão só aparece duas vezes, mas na expressão inclusão digital.

As questões ambientais passam praticamente ao largo, quando muito associadas ao globalismo e este por sua vez, seria a reconfiguração do marxismo(!). Projeto na mão, a erisipela ataca o ex-capitão e as águas o Rio Grande do Sul, estado que deu larga vitória ao ex-presidente. Lula vai socorrer sem um muito obrigado. Eis o paradoxo. Dor, devastação, mentiras, a tragédia anunciada estava consumada.

Sem que sequer se estabeleça ligação entre a tragédia e o negacionismo, visão de futuro, a isso tudo dei de chamar erisipela mental…

* https://drive.google.com/file/d/1YqJRZTTxsuFmAasq8vp3PBoMoqL5n-40/view
** https://marcozero.org/livro-reune-textos-criticos-aos-delirios-de-poder-dos-militares/

***https://diplomatique.org.br/desprojetos-de-brasil/

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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Armando Coelho Neto

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

2 Comentários

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  1. A direita militar (política) no país continua a mesma, ela vive da crença de que cargos, e quantidade de dinheiro os faz doutores em alguma coisa, além da óbvia carteirada. Há mais de 40 anos fora do poder de lá para cá só fizeram fazer da caserna algo sem qualquer base social, científica. Desinvestiram e ou destruiram qualquer entidada militar voltada para o pensar e analisar a realidade do país e nem mesmo desesenvolvimento de tecnologia, mesmo que fosse bélica. Submeteram todos os seus institutos ao jogo do mercado. As forças armadas não deram um passo na defesa do ITA, da Embraer etc… Foram rapidamente migrando para a política liberal, de privatizar. Se calaram com relação ao pre sal, ao programa de satélites e lançamentos e até permitiram que o Lava jatismo atacasse e destruisse de forma vil a vida e o trabalho do Almirante Othon. Neste caso o corporativismo sequer foi mencionado, O submarino nuclear, a criação de uma indústria de estaleiros, ou até mesmo a destruição do setor de pesquisa e desenvolvimento da Oderbrecht, Eles tinha um setor bélico. Abdicaram definitivamente da Amazônia e do solo. O projeto Radan foi apenas algo sem continuidade, para os interesses nacionais. O corporativismo militar só foi até o capitão e seus filhos ou aos assessores com suas pedras maravilhosas e associações com Companhias de Garimpo. Tudo demonstrando uma total falta de proposta ( a qual eu provavelmente não sub escreveria) de país. A ausência de uma proposta deu veio a um bando de oportunistas, ou medíocres, que chegaram a seus postos por decurso de prazo. Agora talvez, os que não estão de pijamas e batalham tão duramente nas enchentes reflitam e retomem os objetivos das forças armadas e tomem consciência que estão muito além de bananinhas, negacionistas e oportunistas. A presença destes no poder me indicam que o golpe interno dentro das forças armadas foi muito forte e duradouro.

  2. Concordo com tudo e mais, os militares além de nao terem projeto de pais são entreguista até o talo, mas temos que ir além.

    O governo Lula é Dilma também tem culpa do país estão hoje militarizada e pior aumentou o nível autoritarismo, como?

    Simples ao deixar guardas municipais agindo como outra polícia militar, hoje a estrutura do guarda é a mesma do policia militar desde ficarem aquartelado e fazendo ronda como outra polícia militar, hoje tomar enquadro de guarda é pior que PM tamanha a ignorância, e a saber guarda nao pode pedir documento ou parar pessoas mas nao agem assim, o STJ ja decidiu, mas o prefeito nao da a Mínima pelo simples fato que o presidente ta nem aí.
    Hoje o prefeito é um imperador, pelo tamanho poder.

    Afirmo será o pior erro do Lula transformar guarda em outra polícia, ja temos polícia demais.

    Mas o autoritarismo da esquerda é sempre esquecido.

    Como disse o grande wanderley Guilherme do Santo numa entrevista pro Luis nassif….

    … Acontece que a esquerda também é autoritaria….

    Nassif nao consigo colocar essa entrevista do prof Guilherme, deu um show de coerência e civilidade.

    Essa entrevista ta no canal brasilianas

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