Denúncia e o estrago na vida
por Francisco Celso Calmon
O estrago está feito, independente da verdade. É lamentável.
Fui acusado pelo Jornal do Brasil, através da coluna Informe JB, em 26/06/1995, sob responsabilidade, à época, da Dora Kramer, de assédio sexual a uma funcionária que estava sob a minha chefia na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
O vereador Adilson Pires, a quem eu assessorava, e estava na direção da recém-criada Assessoria de Informativa e Modernização Administrativa a seu convite, omitiu-se.
Neguei e denunciei como uma reação à implantação das catracas eletrônicas, para controle de frequência, que havíamos colocado para registrar os 400 funcionários fantasmas, que recebiam remuneração sem trabalhar, inclusive jornalistas e pessoas que residiam no exterior.
Além disso, denunciamos os funcionários, inclusive comissionados, que haviam falsificados diplomas escolares para cumprir requisitos aos cargos ocupados, entre esses havia parentes de políticos.
Propusemos, através do plano de cargos, a redução do quantitativo de auxiliares dos vereadores em um terço, correção da gratificação dos assessores jurídicos, que recebiam dupla gratificação, quando a regra estabelecia apenas uma, por meio de um jaboti na lei orgânica municipal.
Mexemos num vespeiro.
Devido a postura do vereador Adilson Pires, outros vereadores do partido e a direção do PT se dividiram.
Sem possiblidades políticas de continuar com os projetos da ASSIMA, moralização, informatização e modernização, decidimos, eu e todos os quatro demais da gerência do órgão, pedir exoneração.
Apesar da suposta assediada ter negado e de todas as nossas declarações em veículo de imprensa, a calúnia e difamação da jornalista marrom e do JB não se retrataram.
Entrei com uma ação de danos morais e escrevi, com a participação de Edson Moreira e Murilo Ribeiro, meus colegas de gestão, um livro de catarse chamado Sequestro Moral, e o PT com Isso?
O JB foi condenado por centena de salários-mínimos, vigente na época, e o livro vendido em quase todas as capitais.
Esse episódio marcou muito a minha vida e pouco tempo depois deixei o Rio, após 40 anos de militância política, e retornei à minha cidade de Vitória- ES, donde tive que sair aos 17 anos para evitar a minha prematura prisão pela ditadura.
Não sei se o Silvio Almeida, ministro de DH, cometeu ou não assédio, não sei o porquê da ministra Anielle Franco ter preferido esse caminho de denunciar a um órgão internacional, não sei o que está significando o beijo da Janja na ministra suposta assediada, não sei os interesses dessa ONG, mas sei a dor de uma calúnia e difamação.
Há muita intriga e um ambiente tóxico nesse governo cheio de contradições internas, onde uns remam para um lado e outros para outro. Onde o identitarismo se sobrepõe à consciência de classe, enquanto permanece cercado pelos três emes e minado por dentro
Inobstante a falta de recursos, o ministro vinha fazendo um bom trabalho.
Não fará mais. É uma bobagem dizer para sair, mostrar a inocência e voltar.
O beijo já foi dado.
A responsabilidade protagonista das presidentas da CA e da CEMDP será muito maior, mais exposição, assertividade, e busca de apoios institucionais e na sociedade civil.
Ontem no dia do meu aniversário, saber dessa notícia, tirou-me um pouco da alegria.
No ensejo, agradeço as dezenas de manifestações carinhosas que recebi.
Sábado receberei as amigas e amigos para um churrasco, e, quiçá, boas notícias ocorram.
É a gangorra da vida.
Francisco Celso Calmon, analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.
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OZILIO CLOVES SANTOS
6 de setembro de 2024 5:27 pmMuito bom texto, como sempre, Chico Celso. O aniversário é seu, mas o presente é nosso. Pois é um presente poder contar com a sua lucidez e inteligência nesses dias tão confusos.
Não é certo, talvez amanhã eu e Priscila consigamos estar na sua comemoração de aniversário e desde já faço o convite para nos visitar aqui em Aracê.
Paulo Dantas
6 de setembro de 2024 6:36 pmSe um ministro de Estado faz assédio é grave.
Se uma ministra de Estado denuncia falsamente um assédio é grave.
Pesa que outras mulheres denunciaram, talvez tivessem medo de denunciar um cara poderoso, para a ministra é um igual.
De qualquer forma um dos “ministrEs” precisa sair …
Edivaldo Dias de Oliveira
7 de setembro de 2024 11:44 amSó para aumentar a complexidade de nossas reflexões, não podemos esquecer de dois personagens globais que foram atingidos, por acusações iguais a de Silvio Almeida.
Assange, que teve a prisão decretada, não pelo vazamento de informações contra os EUA, mas por acusações de estupro, que depois que ele foi preso foram retiradas, mas aí as outras acusações foram mantidas.
O outro personagem global, Boa Ventura de Souza Santos, que ao lado de Chonski, é um dos intelectuais de esquerda mais respeitados do mundo: foi acusado de importunação sexual por alunas que ele orientava em Coimbra, ele preferiu se calar e se afastar da mídia por um tempo. A denúncia se esvaiu, como fumaça soprada pelo vento e ele está voltando a escrever.
Mas há quem ache que tudo não passa de teoria conspiratória…