Futebol e Liberdade
por Felipe Bueno
Passado pouco mais de um mês do marco de 50 anos da Revolução dos Cravos, em Portugal, devemos nos recordar de um fato ocorrido cinco anos antes do evento, num mês de junho como este em que estamos, só que em 1969, em Oeiras, na região metropolitana de Lisboa.
Outro na enorme lista de episódios que demonstram a conexão entre o futebol e as mais profundas questões da humanidade.
Era a decisão da Taça de Portugal, entre a modesta Académica de Coimbra e o Benfica de Eusébio – para quem nunca ouviu falar, o maior jogador português antes de Cristiano Ronaldo e das redes sociais.
A equipe alvinegra, com todos os atletas usando as tradicionais capas pretas, entrou em campo lentamente, manifestando luto.
Nas arquibancadas lotadas, faixas pedindo união entre os estudantes, liberdade e democracia nas universidades, melhor ensino e “menos polícias”.
“Polícias” que não faltaram no entorno do estádio, contribuindo para o clima pesado de uma disputa que, claramente, não foi só uma partida de futebol.
Nos porões salazaristas, como resultado de semanas de protestos, dezenas de alunos eram mantidos presos pela PIDE, Polícia Internacional e de Defesa do Estado, nada mais nada menos que a milícia fascista da ditadura então vigente em Portugal.
A causa dos estudantes de Coimbra contagiou inclusive os torcedores do Benfica, muitos dos quais passaram a apoiar o adversário.
O árbitro apitou o início do jogo.
O árbitro apitou o fim do jogo.
Ainda que belo, o futebol é um esporte cruel. Apesar de fazer 1-0, a Académica perdeu de virada para o Benfica, que levantou o troféu da Taça de Portugal de 1969.
Dentre os que viveram aquela disputa em campo, muitos acham, observando em perspectiva, que talvez a derrota da Académica tenha sido providencial, dada a euforia do público e o potencial estrago que fascistas usando uniforme oficial podem causar quando armados com metralhadoras. Mas houve ainda um último momento poético: jogadores dos dois clubes, juntos, deram a volta olímpica.
Encerrada a disputa, todos retornaram à sua vida normal, e pelos próximos cinco anos, o país ainda viveria, cada vez sob mais questionamentos, os últimos tempos de repressão. Mas, tão certo como o placar de 2-1, o jogo em Oeiras foi um passo a mais na queda do regime fascista português.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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