O sepultamento de Tainara Souza Santos, marcado para o meio-dia desta sexta-feira (26), no Cemitério São Pedro, na zona leste de São Paulo, não encerra apenas um velório. Ele fecha um ciclo de 25 dias de agonia, sofrimento e espera, e se transforma em mais um símbolo trágico de um ano devastador para as mulheres na capital paulista e no país.
Tainara morreu na noite de quarta-feira (24), véspera de Natal, após não resistir às consequências do ataque que sofreu em 29 de novembro: foi atropelada, ficou presa sob um carro e foi arrastada por cerca de um quilômetro na Marginal Tietê. Deixa dois filhos, de 7 e 12 anos.
Internada no Hospital das Clínicas desde o dia do crime, a vítima passou por cinco cirurgias de alta complexidade, teve as duas pernas amputadas e apresentou piora significativa na última semana, com falência de resposta a medicamentos após procedimentos de enxerto e reconstrução. Com o óbito, a polícia reclassificou o caso de tentativa para feminicídio consumado.
O crime e o agressor
O ataque ocorreu por volta das 6h da manhã, depois que Tainara deixou um bar no Parque Novo Mundo, zona Norte, onde havia passado a madrugada com amigos. Segundo testemunhas, Douglas Alves da Silva, com quem a vítima teve um relacionamento passageiro, chegou ao local movido por ciúmes.
Após uma discussão, ele esperou Tainara do lado de fora em um Volkswagen Golf preto. Câmeras de segurança mostram o momento em que Douglas avança com o veículo contra a vítima. Tainara ficou presa sob o carro e foi arrastada da avenida Morvan Dias de Figueiredo até a rua Manguari.
Douglas fugiu sem prestar socorro. Foi preso no dia seguinte e segue detido preventivamente na penitenciária.
“Era uma batalhadora. Trabalhava de forma autônoma, era muito amada por sua família e pelas amigas. Uma pessoa alegre, com boas amizades. O caso comoveu toda a comunidade”, afirmou o advogado da família, Wilson Zaska.
Recorde histórico de feminicídios
A morte de Tainara acontece em meio a uma escalada alarmante da violência de gênero. Em 2025, a cidade de São Paulo registrou o maior número de feminicídios desde o início da série histórica, em 2015. Entre janeiro e outubro, foram 53 casos, superando todo o ano de 2024, que teve 51.
Em todo o estado, o aumento foi de 8% nos primeiros dez meses, somando 207 mulheres assassinadas.
Um Natal de luto no país
Na capital paulista, outro caso grave segue em monitoramento: Evelin de Souza Saraiva, 38, permanece internada na UTI depois de ser baleada seis vezes pelo ex-companheiro, Bruno Lopes Barreto, dentro de uma pastelaria no Jardim Fontalis. O agressor continua foragido.
A violência não ficou restrita a São Paulo. No Rio de Janeiro, o período natalino também foi marcado por mortes brutais de mulheres.
No Centro, Sabina Saron Camilo Mates foi encontrada morta com marcas de facadas em um imóvel incendiado. Em Inhoaíba, uma mulher morreu após ser esfaqueada pelo companheiro. Em Mangaratiba, outra foi executada a tiros; o parceiro é o principal suspeito.
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