O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) comemorou nesta sexta-feira (3) a criação de três novos assentamentos da reforma agrária no Paraná, resultado de uma negociação que encerra mais de dez anos de mobilização das comunidades diretamente envolvidas e quase três décadas de disputas fundiárias na região da antiga empresa madeireira Araupel.
Durante ato realizado na comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio, em Rio Bonito do Iguaçu, a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, oficializou a destinação de cerca de 33 mil hectares para a reforma agrária. A medida beneficia aproximadamente duas mil famílias das comunidades Herdeiros da Terra de 1º de Maio, Tomás Balduíno e Palestina Livre.
Segundo o MST, a regularização amplia o maior complexo de reforma agrária da América Latina, que hoje reúne mais de 5.500 famílias distribuídas entre 24 assentamentos e acampamentos em cerca de 87 mil hectares localizados em seis municípios do Paraná.
Conquista encerra décadas de disputa
A história da área remonta a 17 de abril de 1996, quando famílias Sem Terra iniciaram as primeiras ocupações em terras consideradas griladas da então empresa Giacomet Marodin, posteriormente incorporada pela Araupel.
Desde então, o território tornou-se um dos principais símbolos da luta pela reforma agrária no país, marcado por sucessivas ocupações, reintegrações de posse, disputas judiciais e negociações envolvendo diferentes órgãos públicos.
O acordo que possibilitou a criação dos três novos assentamentos foi construído ao longo de aproximadamente dois anos de negociações entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Ministério do Desenvolvimento Agrário, a Advocacia-Geral da União (AGU), o Ministério Público Federal, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, o Tribunal de Justiça do Paraná e representantes da empresa proprietária das áreas.
Governo destaca função social da terra
Durante a cerimônia, Fernanda Machiaveli afirmou que a oficialização representa o cumprimento do princípio constitucional da função social da propriedade.
Segundo a ministra, a criação dos assentamentos simboliza “a vitória da função social da terra, da justiça sobre a grilagem e sobre a monocultura”, lembrando que a reforma agrária está prevista na Constituição Federal.
Além da assinatura dos atos de criação dos assentamentos, a programação incluiu visita à Feira da Reforma Agrária, exposição da produção agrícola das cooperativas do MST, atividades culturais e um almoço comunitário organizado pelas famílias assentadas.
Produção de alimentos
Segundo o MST, os assentamentos do Paraná contam atualmente com 26 cooperativas e associações responsáveis pelo fornecimento de alimentos destinados a programas públicos, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
De acordo com dados apresentados pelo movimento, somente em 2025 foram comercializadas cerca de 40 mil toneladas de alimentos produzidos nos assentamentos paranaenses, abastecendo milhares de escolas e programas de segurança alimentar no estado.
Além da produção agrícola, o movimento afirma que os assentamentos mantêm 58 escolas do campo distribuídas em 28 municípios paranaenses, atendendo mais de cinco mil estudantes.
Para a direção nacional do MST, a criação dos três novos assentamentos representa um marco na consolidação da reforma agrária na região e reforça a permanência das famílias no campo por meio da produção de alimentos, educação e organização cooperativa.
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