O menino que matou os pais e o preconceito com a adoção, por Luís Nassif

Hoje em dia há punição contra crimes raciais, contra assédios sexuais, contra abusos contra mulheres. E o preconceito contra a adoção?

O rapaz matou pai, mãe e irmã porque a mãe tirou seu celular. É um caso clássico de desequilíbrio em que as manchetes enfatizam o fato de ser filho adotado. O que uma coisa tem a ver com a outra, a não ser estimular o preconceito contra adoção?

Em 2002, Suzana Richthofen matou os pais. Era filha biológica. Em 2012, Marcelo Costa de Andrade disparou 12 tiros contra o pai e a mãe. Era filho biológico.

Qual a razão de enfatizar uma condição – a adoção – que nada tem a ver com o assassinato? Esse preconceito besta lembra o Fantástico de décadas atrás, quando colocava um sujeito desequilibrado, adotado, que ficava olhando todo avião que passava, imaginando estar lá seus pais biológicos.

Ora, hoje em dia há punição contra crimes raciais, contra assédios sexuais, contra abusos contra mulheres. E como fica o preconceito contra a adoção, um dos gestos mais generosos de humanismo, em que pais reconhecem filhos pela afinidade, não por obrigação biológica?

Lembro-me de, muitos anos atrás, em que um casal israelense conseguiu adotar uma criança no Paraná – adoção à brasileira, sem passar pelos trâmites legais. Anos depois, montou-se uma cruzada nacional para recuperar a criança, sem nenhuma preocupação com seu bem estar. O casal israelense foi tratado como bandidos.

Depois de um intenso trabalho da opinião pública e do Ministério Público, a menina foi trazida de volta. Meses depois, procurei saber seu destino em Curitiba. Estava praticamente abandonada.

Em cena inversa, houve o caso do menino Sean Goldman, de mãe brasileira. A mãe o trouxe para o Brasil, morreu e ele estava sendo criado pela avó e pelo pai adotivo. Uma campanha infame, que envolveu até o presidente dos Estados Unidos, tirou o menino do lugar onde estava aculturado, da sua rede de relações, e levou-o de volta para o pai. Em nenhum momento viu-se qualquer sinal de solidariedade com a avó, com os familiares brasileiros, simplesmente porque não tinha vínculos biológicos diretos.

Não é por outro motivo, que o termo “pais de adoção” para “pais de coração”. Quem já passou pela experiência, sabe que não há nenhuma diferença afetiva entre filhos do coração e filhos biológicos. Pais são os que criam, que amam, que aceitam desde o primeiro contato. E a exteriorização desse preconceitos imbecil apenas atrapalha o exercício da adoção no país.

O caso mais escabroso que testemunhei foi o das mães de coração que adotaram crianças de Monte Santo (BA) e foram criminalizadas pela Rede Globo, como maneira de impulsionar sua novela sobre tráfico humano.

O juiz que salvou as crianças – porque corriam risco de vida, com mãe drogada e pai abusador – foi imediatamente afastado pelo Tribunal de Justiça da Bahia. Por trás da medida, a parceria dos desembargadores com quadrilhas que tentavam tomar terras valorizadas em função do potencial para energia eólica. Mas o preconceito contra a adoção obscurecia tudo.

Luis Nassif

11 Comentários

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  1. O mundo adoeceu. Sem olhar se o menino é ou não adotado, como se explica o ato? Sou todo ouvidos.
    Sou dos que leio as notícias “policiais”, vamos dizer assim. Eu não sei se hoje se noticia mais, ou se sempre foi assim. Mas eu ainda assusto.
    Casos tão terríveis quanto acontecem diariamente (pai matando filho de dois anos, mãe esquartejando filho). Seriam casos clínicos ou meros casos de polícia? Prende ou interna, apesar das campanhas contra.

  2. O preconceito que envolve a adoção, especialmente nesse caso, é o medo do desconhecido, na medida em que se espera que todo filho adotivo seja ao menos grato. Uma reação como a desse garoto assusta a todos os adotantes justamente por se desconhecer as origens do adotado.

    1. Como assim? A personalidade, os valores, os princípios dos adotados dependem da educação e do carinho proporcionado pelos pais de criação. Eles são filhos da criação proporcionada por sua família de criação.

      1. Infelizmente 😕😔 não. Seria ótimo se só o amor ❤️ curasse a alma ferida pelo abandono original.No coração 💓 desse garoto não havia qualquer compromisso com a família que o amava. Nenhum vínculo.

  3. Perfeita colocação!!!
    Meu nome é Jorge Cardoso, tenho 42 anos e tive uma vida no qual convivi com alguns filhos adotados e confesso que nenhuma delas foi motivadora, entre as quais meu próprio padrasto que adotou uma menina que deu mais trabalho que quaisquer filho seu, o irmão dele também adorou um menino que mais adiante o matou indiretamente diante de tanto estresse e um amigo que foi adotado pela patroa de sua mãe, empregada doméstica na residência da mesma.
    Desde então havia prometido que jamais adotaria ou “criaria” uma criança que não fosse meu próprio filho até que conheci uma moça que engravidou de um namorado que resolveu não assumir o filho, decidi então ajudá-la, pois a mesma não tinha condições financeiras para manter-se. Resultou que eu o registrei como meu filho e ele é simplesmente o AMOR DA MINHA VIDA!!!
    RESUMINDO… O VERDADEIRO AMOR É TUDO O QUE TEMOS DE MAIS IMPORTANTE NESSA VIDA!!!
    Peço aos pais que estejam mais presentes, observem em que seus filhos ficam entretidos ao telefone, amizades, escola, etc.

    “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.”
    Pv 22:6
    🙌🏼❤️🇧🇷

    Jorge Luiz Cardoso

  4. Meu caro Nassif,
    já que você mencionou a “adoção à brasileira” me permita um testemunho.
    No final dos anos 70 minha irmã chegou em casa revoltada com a forma como uma criança era tratada pela mãe e pelo padrasto num pequeno barraco alugado na vizinhança. Meus pais, por compaixão trouxeram-na para casa, ignorantes de leis e de direitos, só queriam o bem da criança.
    A menina demorou a socializar, estava muito traumatizada e agarrava como um gato quando via uma bacia arrumada para o banho.
    Éramos uma família de dez filhos e a situação não era fácil. Minha mãe deixou claro que estava amparando a criança de forma provisória e que assim que conseguisse uma família que tivesse melhor condição entregaria a criança. Assim foi feito, uma casal de Juiz de Fora acolheu a menina.
    Passado algum tempo a mãe biológica bateu em nossa porta e disse toda chorosa que estava com muita saudades e que queria saber notícias. Minha mãe inocente, deu a ela o endereço do casal. A mulher foi ter com a polícia dizendo que a criança tinha sido sequestrada.
    Depois de algum tempo, sem saber de nada, meu pai aproveitou uma passagem em Juiz de Fora para ver como estava a menina.
    O casal, revoltado quase o enxotou achando que ele tinha alguma coisa a ver com o fato.
    Resultado, depois de algum tempo, minha irmã viu a menina andando pela rua em Barbacena, onde morávamos, com os olhos que eram quase uma súplica.
    Esta foi a ultima vez que tivemos notícias da criança.

  5. Também considero correta sua análise sobre adoção.
    Não concordo porém com o exemplo de Sean Goldman, sequestrado pela mãe e família materna e alienado do convívio com o pai mesmo depois da morte da mãe. A campanha não foi infame e só foi feita justiça por envolvimento de congressistas americanos e grande imprensa, inclusive o poderoso N. Y. Times, uma vez que o pai americano era uma pessoa comum e a nova família da mãe era de famosos e poderosos juristas.
    Links relacionados:
    https://piaui.folha.uol.com.br/materia/a-busca-do-filho/
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Sean_Goldman

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