Em 2013, recém criado, o Jornal GGN deu início a uma série de reportagens destinada a desmascarar um dos maiores crimes de imprensa que já testemunhei em toda minha carreira jornalística – à altura da Escola Base: o caso das crianças adotadas de Monte Santo.

Os meninos de Monte Santo

Provavelmente para alavancar a audiência da sua próxima novela – “Salve Jorge”, que versava sobre tráfico de pessoas -, a Globo, através do Jornal Nacional e do Fantástico, deu início a uma série de reportagens sensacionalistas supostamente denunciando tráfico de crianças na região de Monte Santo, Bahia.

Um jovem juiz, Vitor Bizerra, foi trabalhar na cidade e se deparou com várias crianças em situação de risco, fato constatado pelo Conselho Tutelar da cidade. Decidiu, então, entregar a guarda provisória das crianças a famílias de fora, já que não havia na cidade famílias em condições de acolher as crianças.

A cobertura enviesada da Globo transformou a decisão, essencial para preservar a vida das crianças, em uma ação articulada de tráfico de crianças e as famílias em traficantes.

O sensacionalismo da Globo serviu de álibi para o afastamento do juiz e sua substituição por outro juiz, Luiz Roberto Cappio, transformado em herói pela Globo, que ordenou a volta das crianças para sua família original. Em uma das cenas mais cruéis da história da televisão brasileira, as crianças foram arrancadas dos lares adotivos, expostas ao país inteiro.

Uma das mães reagiu contra a medida e contra a Globo. Rumou para Monte Santo e, armada de um celular, desmascarou o repórter José Raimundo em público, apoiada pela população da cidade. Pouco tempo depois, a própria mãe biológica tomou a decisão de devolver as crianças às famílias afetivas, admitindo sua falta de condições para criá-las.

Em seguida, o juiz Cappio, o herói da Globo, foi afastado da comarca, por decisão unânime do TJBA e submetido a uma junta médica, para atestar sua sanidade.

Sobre o tema, estamos preparando um documentário.

Pouco antes das denúncias da Globo, o juiz Vitor havia encaminhado denúncias ao Tribunal de Justiça da Bahia sobre venda de sentenças, por desembargadores, para operações de apropriação de terras na região. Com as denúncias da Globo, sobre as adoções de Monte Santo, o juiz Vitor foi afastado.

Esta semana, a delação premiada da ex-desembargadora Dando Inês Moraes Rusciolelli Azevedo e de Vasco Rusciolelli Azevedo, no âmbito da Operação Faroeste, mostra os efeitos do jornalismo sensacionalista. Há a comprovação das denúncias feitas pelo juiz na época, e a sobrevida da quadrilha, graças ao mau jornalismo da Globo, que transformou um juiz desequilibrado em herói, e um juiz sério em traficante.

Aqui, a entrevista que fizemos na época com Letícia Fernandes, a mãe que enfrentou a Globo.

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3 comentários

  1. GGN imprescindível como sempre.

    Falta a Justiça esclarecer a forma como o assunto “tráfico de crianças em Monte Santo” chegou ao repórter aloprado: se foi mesmo só plantado por esses desembargadores desgraçados, ou se foi acolhido (ou mantido) com conhecimento das segundas intenções deles, o que tornaria o “jornalista” coautor e membro da quadrilha, quiçá também outros colaboradores das reporcagens.

    Um caso absurdo demais para se creditar apenas ao sensacionalismo e à incompetência, uma vez que as denúncias de apropriação de terras certamente eram de conhecimento na região – e em algum momento certamente chegaram aos ouvidos da equipe.

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