21 de maio de 2026

Xadrez do segundo tempo de 8 de janeiro e o New Deal de Lula, por Luís Nassif

Para o bem ou para o mal - espera-se que para o bem - o governo Lula começará agora.

Monto esse Xadrez com a ajuda inestimável do Luiz Melchert, na identificação da estratégia bolsonarista.

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Há inúmeras semelhanças com a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Essa semelhança pode ser sintetizada em três eixos.

Eixo 1 – Bolsonaro se abrigando no seu bunker

Na intentona de 8 de janeiro, Bolsonaro abrigou-se, antecipadamente, no seu bunker em Orlando. Agora, se abriga em um hospital. Na condição de paciente, pode receber visita de todos seus filhos, do governador paulista Tarcísio de Freitas e de envolvidos no 8 de janeiro, sem ser incomodado.

Efeito 2 – a operação de Fakenews

No pré-8 de janeiro, foi a campanha articulada contra as urnas eletrônicas. Agora, é a mesma estrutura de Fakenews contra a suposta incapacidade dos governos em enfrentar o problema. Desligitamam o governo, dão a entender que o povo é dono do seu próprio destino e, por trás desse discurso, a figura do bolsonarismo.

Os personagens centrais da atual onda são todos bolsonaristas: Pablo Marçal, Nego Di, Eduardo Bolsonaro, Senador Cleitinho, governador Jorginho Mello, Nikolas Ferreira, Gayer. É significativo que a primeira fake de Pablo Marçal tenha sido endereçado a Eduardo Bolsonaro. Aliás, hoje é a figura central do discurso de ódio, um mitômano com milhões de seguidores.

O prefeito de Farroupilha – perfeito idiota de novela de Dias Gomes – escancarou o jogo na tentativa de armação em cima do Secretário de Comunicação de Lula, Paulo Pimenta.

Efeito 3 – a teoria do choque

É óbvio que há um comando central, o mesmo de 8 de janeiro. Tenta-se reeditar parcialmente a estratégia da “teoria do choque” – desenvolvida na Universidade de Chicago de Milton Friedman.

Na economia, a teoria do choque se refere à ideia de que a implementação rápida e radical de reformas econômicas, mesmo que dolorosas no curto prazo, pode levar a um crescimento econômico de longo prazo. Essa teoria foi popularizada pelo economista Milton Friedman e tem sido aplicada em vários países, incluindo o Chile e a Polônia. É chamada de teoria do choque porque é implementada em situações de choque – político, desastres naturais -, em que há espaço para desestabilização das instituições.

Foi o que ocorreu no Brasil no pós-impeachment, reeditando o que ocorreu em várias regiões dos Estados Unidos, após o furacão Katrina. Houve a privatização selvagem dos serviços públicos, deslocamento de populações, impacto desproporcional sobre comunidades marginalizadas, tudo isso na esteira da desorganização que tomou conta das regiões afetadas e da desmoralização da ação pública.

O cenário dos conspiradores é relativamente óbvio:

  1. A tragédia do Rio Grande do Sul terá longa duração. À medida em que o tempo passe, aumentará a revolta contra a incapacidade do Estado brasileiro em administrar a crise na velocidade exigida pelas vítimas. Pela complexidade do problema, haverá problemas em qualquer nível de eficácia que o governo demonstre.
  2. Ao mesmo tempo, haverá impactos severos sobre a economia, acabando com a fantasia do déficit zero e abrindo espaço de conflito com o mercado.
  3. A economia real será afetada pelo impacto sobre a safra e a economia gaúcha.

Em suma, haverá meses de turbulências pela frente, com impacto no mercado e na macroeconomia, discussão sobre a distribuição da ajuda. Enfim, um pandemônio que jogará pela janela toda a tentativa de normalizar o dia a dia da economia e da política.

E, aí, entra em cena o modelo do New Deal.

Efeito 4 – o modelo do New Deal

A crise de 1929 inspirou o New Deal, de Franklin Delano Roosevelt. A base do plano foi a criação de um sentimento de união nacional, inclusive utilizando os novos meios de comunicação (das rádios, com programas diários de Roosevelt, aos filmes de Frank Capra), e obras públicas com o intuito de gerar empregos e renda.

A campanha de ódio – que tem no mitômano Pablo Marçal a peça central – visa impedir essa solidariedade. É relevante observar que um dos alvos dos ataques são as Forças Armadas envolvidas na operação.

O desafio do governo será em duas frentes:

  1. Frente política.

Montar um plano eficiente de promoção da solidariedade, recorrendo a artistas populares, influenciadores, lideranças civis empresariais e de. movimentos sociais.

  1. Plano de recuperação

O segundo desafio será um plano de ação eficiente para coordenar a recuperação do Rio Grande do Sul.

O New Deal criou vários mecanismos de coordenação:

  • Criação de novas agências governamentais: O New Deal criou uma série de novas agências governamentais, como a National Labor Relations Board (NLRB), a Federal Housing Administration (FHA) e a Works Progress Administration (WPA). Essas agências foram responsáveis por implementar os programas e políticas do New Deal.
  • Conselhos de assessoria: O presidente Roosevelt criou uma série de conselhos de assessoria para fornecer conselhos sobre questões econômicas e sociais. Esses conselhos incluíam o Council of Economic Advisers (CEA), o National Recovery Administration (NRA) e o Agricultural Adjustment Administration (AAA).
  • Cooperação intergovernamental: O governo federal cooperou com os governos estaduais e locais para implementar os programas do New Deal. Isso foi feito por meio de doações federais, acordos de compartilhamento de custos e outras formas de assistência.
  • Relações com o setor privado: O governo federal também trabalhou com o setor privado para implementar os programas do New Deal. Isso foi feito por meio de regulamentações, incentivos fiscais e outras formas de cooperação.
  • Comunicação pública: O governo Roosevelt usou uma variedade de ferramentas de comunicação pública para promover o New Deal e explicar seus objetivos ao público americano. Isso incluiu discursos de rádio, conferências de imprensa e materiais informativos.

Os especialistas atribuem o sucesso do New Deal aos seguintes fatores:

  • Liderança forte: O presidente Roosevelt forneceu uma liderança forte e visionária para o New Deal. Ele foi capaz de articular uma visão clara para o país e mobilizar o apoio do público e do Congresso para seus programas.
  • Pragmatismo: O governo Roosevelt estava disposto a experimentar novas ideias e programas para lidar com a crise. Essa flexibilidade foi essencial para o sucesso do New Deal.
  • Compromisso com a justiça social: O New Deal estava comprometido com a promoção da justiça social e da igualdade de oportunidades para todos os americanos. Isso se refletiu em programas como a Social Security e a Fair Labor Standards Act.

Para o bem ou para o mal – espera-se que para o bem – o governo Lula começará agora.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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9 Comentários
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  1. Solle

    12 de maio de 2024 12:24 pm

    Só falta combinar com os russo, digo, o congresso

  2. DOUGLAS BARRETO DA MATA

    12 de maio de 2024 12:28 pm

    Nassif e o otimismo.

    Eu também sou.

    Daquele que acha que tudo está uma m*rda.

    Os pessimistas acham que a m*rda não dará para todos.

    Pois bem, os furos do xadrez:

    Para criar um senso político de embate e enfrentamento, o governo deveria propor pautas que desafiem o estamento, e não o legitimem.

    A gestão de política econômica de Haddad é a mesma de Guedes, com um retoques aqui e ali.

    Não dá, ninguém se emociona com isso, e de fato, se votamos em Lula para obtermos ao menos um sopro de mudança, nada houve.

    Então, a choldra volta para a versão original do “choque”, com alguém que não finja ser mais polido.

    Para a gente se f*der, que seja com o cara que come farofa de boca aberta, é o que pensa o populacho.

    Pelo menos ele exorciza raiva e ressentimentos necessários para aguentarmos o tranco, pensam.

    Eu mesmo me recuso a votar em um governo que poupa os ricos e ajuda os mais pobres que eu tirando minha renda, com o congelamento da tabela de IRPF.

    Chega… já doei demais e pior, o índice GINI desde 2003 quase não se mexeu.

    De 0.578 para 0. 546.

    Resultado vergonhoso.

    Sem tributar rico, desigualdade não diminui.

    Nunca.

    Outra coisa:

    New deal?

    Onde?

    Quando tocou o New deal os EUA já era uma potência, abatida pelo ciclo especulativo de 29.

    Onde vamos arrumar presos para tocar obras em estradas e represas por uns trocados, como fizeram os governadores envolvidos?

    Onde vamos arrumar uma Segunda Guerra Mundial, que deu longevidade a uma política de alcance limitado?

    Faz isso não Nassif.

    O troco é bem mais complexo que o triunfo de vontades (sem trocadilhos e/ou ironias).

    É a história, amigo.

    1. Carlos Heitor Chaves

      12 de maio de 2024 7:43 pm

      Está corretíssimo.
      O que precisa acontecer é a tributação dos ricos , muito ricos , dos super-ricos ,tudo mais é espuma do mar.
      Como você cansei de ser taxado como rico.
      Existem mais pobres que eu e você? Claro, mas estamos empobrecendo, isso é notório e evidente
      Não voto mais no PT, aliás não votarei mais

      1. Luiz Fernando

        13 de maio de 2024 1:10 pm

        Blza, tem ai o Tarcisio Miliciano ou A Micheque para vc se esbaldar, vai nessa, quanto a votar no PT não engana ninguem VC NUNCA votor no PT

  3. Paulo Dantas

    12 de maio de 2024 12:30 pm

    Lula enfrenta o pior cenário desde sempre :

    Duas guerras relavantes no mundo.

    Um vizinho ameaçando invadir um outro usando , talvez, nosso território como passagem.

    Ainda uma crise com militares e forças de segurança o país que não o engoliram.

    Uma Europa que se diz amiga mas só puxa o tapete.

    Os EUA também, podendo piorar.

    Capital com a eterna má vontade ele.

    Grande Imprensa junto.

    Congresso hostil.

    STF ambíguio.

    O RS destruído.

    A fogueira de vaidades dos aliados.

    Esqueci alguma coisa ?

  4. Cáudio Melo

    12 de maio de 2024 3:29 pm

    Para o bem esperamos todos. Já que o mal vem sendo implementado há muitos anos por autoridades que todos nós estranhamente admiramos, mas cujas atuações são para lá de questionáveis. Por exemplo, os Programas de Desligamento Voluntário do final dos anos 1990 veiculou informaçõesfalsas por meio de Cartilhas. A oferta de incentivo estava fundamentada em fatos falsos divulgados através de Cartilhas cujo conteúdo a Administração Pública Federal jamais logrou comprovar. É certo que tais informações (desinformações) provocaram “a ocorrência de equívoco a respeito de uma circunstância material e ao mesmo tempo essencial do ato” (de adesão ao PDV). (RE n° 802.535 – RJ)
    Estou falando da MP 1530/1996 convertida na Lei 9468/1997 cujo incentivo denominado Apoio Para a Retomada da Vida Profissional nunca esteve sendo criado no âmbito do Ministério do Trabalho, como afirmava o Ministério da Administração e Reforma do Estado. Digo isso fundamentado no Memorando-Circular n° 19/2007 – CGRH/SPOA/SE/MTE que sobre esse fato diz:
    “5. Com efeito, os incentivos destinados aos servidores que aderiram ao PDV na forma de programas de treinamento dirigidos para a qualificação e recolocação de cidadãos no mercado de trabalho, não foram regulamentados, consequentemente, deixaram de cumprir sua finalidade social, qual seja, a de inserir no mercado de trabalho tais servidores públicos. Todavia, em que pese o prejuízo que isso tenha causado ao interessado, não se justifica por si só arguir a administração pública com vistas ao seu retorno ao cargo anteriormente ocupado tendo em vista não haver previsão na legislação que instituiu o PDV autorizando o retorno daqueles que deixaram de ser atendidos pelo referido Programa de Governo”,
    Essa resposta contém, para justificar os fatos falsos divulgados por meio de Cartilha, com apresentação do Ministro do MARE, uma justificativa falsa, ao contrário do que diz o Memorando o PDV foi regulamentado. Basta ler a Ementa do Decreto 2.076/1996. Decreto que serviu de fundamento para a Portaria de exoneração dos servidores aderente, lá está, inclusive, a assinatura do Ministro do MTE à época. Ato vinculado aos incentivos a exoneração, sem os incentivos, é engodo. Uma tocaia institucional. É da natureza de um PDV exooneração em troca de incentivos. Incumprida a prestação, reconhecido o prejuízo causado nada mais justo que a Administração Pública devolva o que tirou ilicitamente do ex-servidor: o TRABALHO. O valor social do trabalho é fundamento da República e do Estado Democrático de Direito, é um direito social. A ordem economica tem por princípio o valor social do trabalho humano e na ordem social a primazia. E a mentira? Onde há previsão no ordenamento jurídico que justifique que a mentira se sobreponha ao trabalho?
    O PDVs de 1999 e 2001 também “deixaram de cumprir sua finalidade social” (Ofício n°147/2006/COGES/SRH/MP), mas continuam a existir na forma de Medida Provisória, a MP 2.174/2001. Não pode ser mais Medida Provisória. Ou é um Ato Institucional, ou um Decreto Lei e os servidores que aderiram aos PDVs do final da década de 1990 foram lançados de volta para o passado, banidos da República e do Estado Democrático de Direito.
    É preciso que se recrie a Administração Pública para que uma nova Administração fundamente seus programas na Constituição Cidadã. É possível que o Lula seja esse lider, se não for a difusão de informações falsas irá prevalecer. O PDV, profusor de desinformações falsas, prevalece até hoje ainda que a Administração reconheça o prejuízo causado.

  5. José de Almeida Bispo

    12 de maio de 2024 7:52 pm

    E por fim… disfarçar o que tá fazendo. Com essa “gente” não adianta discutir; “discutir com madame”. Nem “mostrar que não é assim”. Eles são desonestos de pai e mãe. Tem item na matéria que acho interessante trabalhar, porém…

  6. fabricio coyote

    12 de maio de 2024 8:10 pm

    Diante da hipocrisia dos conglomerados de notícias que avançaram sobre os dividendos da Petrobras em favor de acionistas urubus, como se a produção desenfreada de petróleo e seus derivados, como plásticos, e outros poluentes, não tivessem ligação com nossa desigualde social, somente uma nova linguagem por uma Constituinte nos salva!

    Rios sem Discurso

    A Gabino Alejandro Carriedo

    Quando um rio corta, corta-se de vez
    o discurso-rio de água que ele fazia;
    cortado, a água se quebra em pedaços,
    em poços de água, em água paralítica.
    Em situação de poço, a água equivale
    a uma palavra em situação dicionária:
    isolada, estanque no poço dela mesma,
    e porque assim estanque, estancada;
    e mais: porque assim estancada, muda,
    e muda porque com nenhuma comunica,
    porque cortou-se a sintaxe desse rio,
    o fio de água por que ele discorria.

    *

    O curso de um rio, seu discurso-rio,
    chega raramente a se reatar de vez;
    um rio precisa de muito fio de água
    para refazer o fio antigo que o fez.
    Salvo a grandiloquência de uma cheia
    lhe impondo interina outra linguagem,
    um rio precisa de muita água em fios
    para que todos os poços se enfrasem:
    se reatando, de um para outro poço,
    em frases curtas, então frase e frase,
    até a sentença-rio do discurso único
    em que se tem voz a seca ele combate.

    Publicado no livro A educação pela pedra (1966).

    In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.350-351. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira

    P.S.:

    (globo chamou de “democracia” o golpe de 64 e não noticiou as Diretas Já!, ou seja, a solidariedade dos brasileiros para xom a democracia https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq28089908.htm; folha de são paulo chamou ditabranda, portanto, são as mães das notícias falsas – mais eloquente de que o estrangeirismo eufémico fake news)

  7. Edson Dias

    13 de maio de 2024 3:58 pm

    Bom… o otimismo do GRANDE Luís Nassif chega a ser comovente. Digo otimismo, porque ele vê uma luz no fim do túnel com um plano de reconstrução análogo ao New Deal americano, elenca as condições necessárias pra coisa sair do papel, e funcionar.

    Só que eu duvido que o New Deal teria dado certo se Roosevelt tivesse um centrão grande e faminto no congresso americano e uma extrema direita como temos aqui. Um congresso tão vergonhoso, que eu chego a dizer que se fosse vivo, Antônio Carlos Magalhães seria hoje um estadista. Afinal, ele pode ser comparado a Gustavo Gayer? Nikolas Ferreira? Carol de Tony? Zé Trovão? Eduardo Bolsonaro? Marco Feliciano? Coronel Chrisóstomo? Abílio Brunini? Carlos Jordy? Kim Kataguiri? Gilvan da Federal??

    Mais agências reguladoras para que? Para Arthur Lira? Conselhos de assessoria, tomados por gente do centrão?

    Prefiro parar por aqui. Fico com a impressão de que o país acabou, caminhando que estamos para uma teocracia de milicianos e vendedores de armas… com o Congresso que temos atualmente, do qual esse governo virou refém, estamos é lascados

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