10 de junho de 2026

Uma terra arrasada por pequeninos drones de combate, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Há quase um século a fabricação e a manutenção das máquinas de guerra são atividades altamente especializadas realizadas distante do combate

Uma terra arrasada por pequeninos drones de combate

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Jonathan Crary produziu uma das melhores e mais profundas reflexões sobre os efeitos devastadores das novas tecnologias. Em seu livro Terra Arrasada – além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista ele não apenas fornece um referencial histórico de como chegamos ao momento atual de profunda alienação como explica as razões pelas quais será difícil sair deste pesadelo distópico vendido pelas indústrias e percebido por muitas pessoas como se fosse uma utopia tecnológica.

“Parte de nossa crise atual está na aceitação indiferente da agora banalizada ideia de que nosso futuro está sendo inventado por um pequeno número de corporações poderosas. Na prática, decisões sobre quais linhas de produtos manterão os lucros e crescimento transformaram essas companhias nos futurologistas oficiais de nossa época, nos órgãos reguladores de nossas expectativas.” (Terra Arrasada – além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista, Jonathan Crary, Ubu Editora, São Paulo, 2023, p. 86)

Um pouco adiante, o autor afirma que:

“… O complexo industrial global depende de um fluxo contínuo de novos produtos e é estruturalmente incapaz de se limitar ou de se regular a si mesmo de modo significativo. A existência de um mundo transformado pela tecnologia em aterro sanitário terminal não é uma anomalia que poderia ter sido, ou ainda possa ser, corrigida; ela é intrínseca às operações do capitalismo da terra arrasada. Quando consideramos as inovações danosas da biologia sintética, da nanotecnologia, da robótica social e dos sistemas autônomos de armas, para citar apenas algumas áreas, a reação condicionada de veneração da ‘ciência’ somente pode ser entendida como uma capitulação diante do continuado ataque ao mundo da vida. Para o filósofo Jean-Pierre Dupuy, ‘qualquer um que acredite que a ciência e a tecnologia conseguirão oferecer uma solução para os problemas criados pela ciência e pela tecnologia não acredita na realidade do futuro’.” (Terra Arrasada – além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista, Jonathan Crary, Ubu Editora, São Paulo, 2023, p. 103)

Em nenhum lugar isso fica mais evidente do que no fronte da guerra da Ucrânia, em parte dominado pelo uso de drones de combate pilotados remotamente e que também atuam com um grau de autonomia crescente.

A guerra costumava ser declarada por líderes velhos e lutada por homens jovens e fortes treinados intensivamente para usar armas letais, ignorar o medo e agir automática e coletivamente diante do perigo. A invenção de tanques, caças e submarinos mudou a maneira como a guerra era travada, mas ela ainda era travada por homens jovens treinados para usar equipamentos mecanizados sob o comando de oficiais experientes.

Há quase um século a fabricação e a manutenção das máquinas de guerra são atividades altamente especializadas realizadas distante do fronte de combate. Dependendo do equipamento militar e desde que não sejam muito complicados, pequenos reparos feitos no campo de batalha por soldados especialmente treinados também podem ocorrer se as peças e ferramentas estiverem à disposição.

Durante a Segunda Guerra Mundia, fronte de batalha, que costumava ser muito distante das cidades foi transferido para o interior delas. As fábricas de armamentos e de autopeças para tanques e aviões, estaleiros, oficinas de reparo, trens de carga com peças sobressalentes, etc… passaram a ser sistematicamente bombardeadas. Independentemente de sua idade, sexo ou aptidão física para o combate, operários civis passaram a ser tratados como soldados.

Agora que a guerra é travada com drones, o soldado precisa ser um especialista em robótica e tecnologia da informação. Oficinas onde os drones são preparados, armados, programados, testados e eventualmente pilotados remotamente, instaladas na terra de ninguém ou próximo dela, estão no fronte da batalha quer ela seja travada por operadores que manuseiam controles remotos ou de onde são despachados armamentos voadores cada vez mais autônomos.

Os homens jovens que são fisicamente aptos para lutar com armas convencionais não necessariamente detém as habilidades que os novos guerreiros precisam ter adquirido em cursos de nível médio ou faculdades de engenharia. A guerra finalmente se tornou uma atividade de homens maduros, velhos ou obesos e dos aprendizes deles. As guerras drônicas serão lutadas fundamentalmente por todos aqueles que tenham o conhecimento necessário de robótica, computação, fabricação e manutenção de drones ou de sistemas eletromecânicos inventados e fabricados com impressoras 3D para transformar drones civis em equipamentos letais.

A utopia tecnológica se torna a distopia militar. Durante o governo Obama, drones imensos pilotados a milhares de quilômetros disparavam mísseis Hellfire em vilas no Afeganistão. Os alvos identificados por vigilância eletrônica quase sempre eram escolhidos com base em preconceitos, não sendo incomum o assassinato em massa de pessoas pacíficas que haviam se reunido para um casamento ou para uma celebração religiosa.

Na fase atual, os drones são muito menores do que o MQ-9 Reaper e os pilotos deles estão próximos ao fronte, na terra de ninguém ou mesmo dentro do território inimigo. Isso imediatamente levou pilotos russos e ucranianos (e mercenários europeus e norte-americanos recrutados pela Ucrânia) a caçarem uns aos outros de maneira sistemática em batalhas próximas ao solo que se parecem muito com as dogfights travadas à grande altitude durante as guerras mundiais travadas na primeira metade do século XX.

Os poderosos, precisos e extremamente letais mísseis terra-ar que ameaçam e/ou inutilizam caças-bombardeiros e aterrorizam seus pilotos são inúteis nessa guerra aérea em miniatura que pode ser eventualmente lutada por enxames de pequenos drones. Sempre que a China faz uma demonstração de suas novas capacidades para encantar o mundo com enxames de drones, devemos lembrar que aqueles equipamentos e tecnologias podem ser e serão inevitavelmente utilizadas nos campos de batalha.

A relação custo-benefício desse novo tipo de guerra é evidente. Drones pequenos baratos com grande autonomia de voo já são produzidos em massa por fabricantes em diversos países. Eles só precisam ser adaptados e programados para serem transformados em armas letais. Indústrias militares também projetam e fabricam equipamentos semelhantes para uso especificamente militar. Apesar de serem mais caros do que os drones comuns eles custam muito menos do que os caças-bombardeiros de última geração.

No fronte de batalha da Ucrânia, tanques caríssimos foram inutilizados por ataques de drones com cargas de explosivos pequenas e poderosas. Soldados foram filmados se esquivando ou tentando fugir inutilmente desses mosquitos voadores letais. Outro dia, vi no Facebook o vídeo de um soldado russo que calmamente pega a granada jogada nele por um drone e a joga para longe de si. Essa cena fascinante indica que o mecanismo adaptado ao drone alado não foi projetado para acionar a granada alguns segundos antes de soltá-la.

Novas versões do equipamento acima mencionado provavelmente serão projetadas e colocadas em uso. Numa guerra o desperdício de munição é algo indesejável. Se a granada explodir antes de chegar ao solo e próxima ao soldado inimigo ele sofrerá ferimentos graves ou letais. Jean-Pierre Dupuy, citado por Jonathan Crary, está absolutamente certo quando diz que “qualquer um que acredite que a ciência e a tecnologia conseguirão oferecer uma solução para os problemas criados pela ciência e pela tecnologia não acredita na realidade do futuro”.

A solução para uma guerra drônica como a que está ocorrendo entre Ucrânia e Rússia não é o desenvolvimento de drones mais eficientes e letais. A solução para o conflito é a interrupção das hostilidades e a negociação de um acordo de paz que atenda os interesses dos dois países. Mas isso somente pode ser feito por diplomatas com mandato para fazer isso e com o apoio de todos os países que de uma maneira ou de outra esperam lucrar algo ou estão obtendo lucros em decorrência da guerra.

Se a guerra no coração da Europa for interrompida Rússia e Ucrânia não precisarão mais comprar drones comuns e adaptá-los para fins militares. Uma paz justa é mais interessante para os dois países do que uma guerra de atrito permanente interminável. Mas o encerramento do conflito afetará de maneira negativa os interesses das indústrias que manufaturam e fornecem esses equipamentos aos russos e ucranianos. Algumas delas ficam milhares de quilômetros dos locais onde os drones são adaptados para uso militar e cumprem missões letais. Isso certamente é um problema adicional, porque as instalações delas não podem ser bombardeadas como as fábricas de armamentos alemãs foram durante a II Guerra Mundial.

A perpetuação da guerra drônica de atrito entre Ucrânia e Rússia significa bons negócios para os fabricantes de drones europeus e asiáticos. Um incentivo adicional para eles desenvolverem produtos inofensivos mais facilmente reaproveitáveis para fins militares. A intensificação da produção desses equipamentos também provocará um aumento de sua oferta e a inevitável redução dos preços deles para os consumidores em geral.

Em algum momento essa tecnologia inundará o mercado e também começará a ser utilizada militarmente nas guerras entre quadrilhas de traficantes e nos conflitos entre eles e as forças policiais. Isso obrigará as polícias a se adaptarem à realidade. Sejam todos bem-vindos a nova distopia tecnológica: o policiamento com drones letais autônomos ou pilotados remotamente por policiais. Quando esses recursos tecnológicos começarem a ser utilizados para fins políticos os problemas da sociedade diminuirão ou aumentarão?

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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