As cidades e os micróbios, por Laurie Garrett

Os flagelos mais devastadores do passado atingiam dimensões alarmantes apenas quando os micróbios alcançam os centros urbanos

Reprodução BBC

Enviado por Felipe A. P. L. Costa

As cidades e os micróbios

Por Laurie Garrett [1]

No ano 6000 a.C., havia menos pessoas na Terra do que as que hoje habitam Nova York ou Tóquio. Os habitantes pré-históricos, aproximadamente 30 milhões, espalhavam-se pelas enormes extensões do planeta, sempre procurando as áreas mais quentes. Poucos se arriscavam a sair do local em que nasciam.

Nos 4 000 anos seguintes, a população humana cresceu lentamente. As pessoas se congregavam em torno de rios, portos de mar e lugares onde existiam ricas fontes de alimentos. Surgiram rotas comerciais ligando os incipientes centros urbanos, e os habitantes das cidades prosperaram em parte como resultado de atividades comerciais e em parte com os tributos que impunham aos moradores mais pobres da zona rural.

No ano 5 a.C., os habitantes de Roma, cerca de 1 milhão, consumiam 6 000 toneladas de cereais por semana. Após a queda do Império Romano, durante 1 800 anos nenhuma cidade voltaria a ter uma população tão grande, a não ser quando Londres tornou-se a maior metrópole da história até aquela época.

As cidades proporcionavam aos micro-organismos um grande número de oportunidades não encontradas na zona rural. Quanto mais Homo sapiens por quilômetro quadrado, mais facilmente um micro-organismo passava de um ser humano desafortunado para outro. As pessoas transmitiam agentes responsáveis por doenças de mil maneiras, a cada minuto do dia, quando se tocavam ou respiravam uns próximos aos outros, ao preparar alimentos, ao defecar ou urinar nos depósitos de água que serviam a outros propósitos, ao viajar para lugares distantes levando junto os micro-organismos, ao construir centros para atividade sexual que permitiam aos micróbios explorar outro meio de transmissão, ao produzir imensas quantidades de resíduos que podiam servir de alimento para vetores roedores e insetos, ao represar cursos-d’água e inadvertidamente deixar cisternas de água de chuva se transformarem em locais de reprodução de mosquitos transmissores de doenças.

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Em resumo, as cidades eram paraísos para os micróbios ou, como dizia o bioquímico inglês John Cairns, ‘sepulturas da humanidade’. Os flagelos mais devastadores do passado atingiam dimensões alarmantes apenas quando os micróbios alcançam os centros urbanos, onde a densidade demográfica instantaneamente ampliava qualquer doença contagiosa de pequena proporção, originada nas províncias, e os micróbios conseguiam explorar as novas ecologias urbanas e criavam doenças inteiramente novas.

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Nota

[1] Extraído e adaptado do blogue Poesia contra a guerra, o excerto acima integra o livro A próxima peste (Nova Fronteira, 1995), de Laurie Garrett.

 

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