Por que os insetos são atraídos pela luz? Por Gustavo Gollo

 Por Gustavo Gollo

 

O jogo da ciência

 

Todos já viram a enorme profusão de insetos que eventualmente enxameia alguma lâmpada. A observação suscita, de imediato, uma explicação para comportamento tão absurdo de tantas e tão variadas criaturas.

 

Certa vez, imerso em curiosidade, inventei uma explicação para esse fato e, só depois de ter construído uma, descobri a existência de uma outra, já aceita. Achei a explicação existente maravilhosa, dessas que me fazem delirar, muito mais bela que a minha. Mas, ao tornar a observar o fenômeno sempre surpreendente, percebi que a explicação existente se aplicava apenas a uma parcela ínfima das miríadas de insetos que se comportam dessa maneira aparentemente absurda. Confiramos.

 

A explicação anterior

 

Para ir voando de casa até um local distante e voltar, é necessário ter desenvolvido uma maneira de controlar a navegação de voo. Isso pode ser feito lembrando-se de cada local e refazendo o caminho de retorno baseado nessa memória. Um sistema de navegação muito mais econômico que esse, pode ser desenvolvido com base na direção do voo.

 

Computando-se o ângulo entre a direção de voo e o sol, assim como a distância percorrida, pode-se, posteriormente, refazer o caminho de volta para casa. Para o inseto, esse sistema de orientação propicia uma enorme vantagem sobre um sistema análogo ao empregado por nós, por exigir uma capacidade cerebral muitíssimo menor. Em vez de memorizar cada quadro, cada imagem do caminho percorrido, guarda-se apenas o ângulo entre a direção de voo e o sol. Um cérebro mais efetivo, capaz de computar cada imagem, teria um custo de desenvolvimento muito maior, precisaria ganhar volume e peso, e acabaria propiciando a mesma eficiência para a navegação, razão pela qual o sistema mais simples se impôs.

Assim, de modo a conseguir retornar ao ponto de partida, o inseto pode, simplesmente, ir buscar alimento mantendo um ângulo fixo em direção ao sol, e depois voltar para casa girando 180 graus e mantendo o novo ângulo relativo ao sol.

 

Ao acendemos as luzes, especialmente de noitinha, quando ainda há vestígios do sol, confundimos as criaturas, que passam a traçar suas rotas com base nas lâmpadas, tomando-as pelo sol. Ocorre, então, que os que voltavam para casa traçando rotas direcionadas mais de 90 graus para o sol, manterão essa direção relativa a cada lâmpada que encontrarem, afastando-se de cada uma delas, sendo guiados a esmo para longe até se perderem na distância.

 

Os que voam em direções relativas ao sol menores que 90 graus, ao manter essa direção em relação a uma lâmpada se aproximarão dela traçando um caminho em espiral, de modo que, todos os insetos que se dirigiam em ângulos menores que 90 graus relativamente ao sol, acabam capturados na armadilha que consiste em uma lâmpada, da qual não conseguem escapar. O traçado em espiral desenvolvido pelo inseto em seu percurso até a lâmpada indica ter utilizado o mecanismo de orientação acima descrito.

 

Essa explicação, baseada no sistema de navegação de voo, é mais antiga e muito mais engenhosa que a minha, tenho que admitir! Acho-a belíssima. Creio que tenha sido desenvolvida, originalmente, para abelhas. Mas ela só vale para os relativamente poucos insetos diurnos que moram em uma casa, à qual sempre retornam, como percebi ao tornar a observar o fenômeno!

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Por que os insetos noturnos são atraídos pela luz?

 

A maioria dos insetos que vemos ao redor das lâmpadas, no entanto, são noturnos, dos tipos que esperam o sol se por para, velados pela escuridão, percorrer os céus tentando evitar, com isso, uma exposição excessiva a predadores vorazes.

 

Mas, não havendo sol, à noite, por que os insetos noturnos fariam isso? A resposta óbvia parece ser que estes se baseiam na lua para traçar suas direções e retornar para suas casas. Um problema com essa solução é que, ao contrário do sol, sempre presente durante o dia, a lua permanece ausente durante a metade do período noturno, ocultando-se, além disso, entre nuvens, durante boa parte desse tempo, tornando-se, por isso, muito menos apropriada que o sol para fundamentar um sistema de navegação.

 

Mesmo assim, na ausência de guia melhor, talvez os insetos tivessem que se contentar com esse, durante a noite, parando para evitar se perder durante deslocamentos “às cegas” efetuados quando a lua estivesse ausente. Essa hipótese me desagrada. Mesmo assim, poderia ser plausível. A profusão de insetos encontrados nas lâmpadas, no entanto, tem outra explicação.

 

Muitos insetos buscam parceiros para o acasalamento nos chamados “voos nupciais”. Durante essa atividade, as fêmeas saem voando, preferencialmente ocultas pela escuridão, exalando um odor extremamente atraente para os machos de sua espécie. Estimulados pelo atrativo intenso, os machos dirigem-se em voo em busca da fonte de tal estímulo. A atração acaba resultando na cópula entre os indivíduos, garantindo que aqueles mais aptos em seguir a pista deixada pelas fêmeas, assim como as fêmeas mais atraentes, produzirão a geração seguinte da espécie, que herdará as características de seus progenitores.

 

Agora, imaginemos a seguinte cena: uma multidão de besouros, por exemplo, diluída na imensidão das alturas, trespassando os céus repletos de predadores sinistros, voando a esmo, sob forte risco, em busca de um parceiro para o acasalamento, quando, em dado momento, um besouro atento percebe ter cruzado seu caminho com o de uma fêmea extremamente atraente, mas que, voando em direção oposta, já se perde à distância. Cabe ao macho, enlouquecido pelo odor encantador, fazer uma curva e tentar encontrar o rastro deixado pela fêmea, que já vai longe. Voando em direção diversa, ele deverá perder o rastro da fêmea sucessivas vezes. Se tiver sorte, acabará encontrando-a antes que outro; com azar, será abocanhado por um predador, antes disso.

 

É provável ter sido esse o sistema de busca primitivo, substituído posteriormente por outro mais eficiente. Suponha o surgimento de um macho portador de uma informação privilegiada: a direção de deslocamento das fêmeas! De posse dessa informação, o indivíduo ampliaria bastante sua probabilidade de encontrar uma parceira para a cópula e gerar sua descendência. Enquanto os outros indivíduos voam a esmo, cruzando eventualmente com fêmeas que passam como bólidos nas direções opostas, esse, conhecedor da direção de voo das fêmeas, ajustaria sua direção à delas, conseguindo manter-se no encalço de qualquer uma que passasse por ele, sem perdê-la de vista, como os adversários. Um macho assim teria, em consequência, uma probabilidade muito maior que outros de deixar descendentes, que herdariam sua capacidade de encontrar fêmeas.

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Teria muita sorte, também, a fêmea que copulasse com tal expert, pois, em consequência, seus descendentes tenderiam a herdar a característica vantajosa, o conhecimento da informação acerca da direção das fêmeas. Por ampliar a capacidade de gerar descendentes, a característica vantajosa herdável se propagaria rapidamente entre a população, de modo que, em poucas gerações, todos os indivíduos descenderiam do mutante original, conhecedor do comportamento das fêmeas.

 

A cadeia de eventos desencadeada pelo surgimento do macho portador da informação privilegiada parece, assim, bastante promissora, mas padece de algumas falhas. Se as fêmeas voam a esmo, caso o macho ajuste sua direção de voo a uma, perderá as outras, de modo que ele permanecerá, como qualquer outro macho do grupo, ajustado apenas à parcela ínfima de fêmeas que, por acaso, voa na mesma direção que ele.

Objeção ainda mais relevante incidiria sobre a possibilidade de um indivíduo conhecer previamente a direção de outros: que tipo de magia poderia propiciar informação tão significativa?

 

Ambas as objeções acima me parecem bastante contundentes, irrespondíveis, de modo que todo o circunlóquio anterior me parece insustentável. Ainda que o aparecimento de um macho portador da informação privilegiada viesse a desencadear a sucessão de eventos descrita, não se explica como o macho em questão poderia conhecer, previamente, o comportamento das fêmeas, o que invalida todo o raciocínio. Mas, guardemos toda essa informação.

 

 

Suponha, agora, o surgimento de um macho estranho e obstinado, um tipo exótico que ao se lançar em voo em busca de uma parceira, se visse encantado pela luz da lua. Não costumamos atribuir tendências poéticas aos insetos, mas podemos admitir que um deles prefira voar em direção à lua como se estivesse sob encantamento. Consideremos isso uma compulsão inata que pouco o diferenciará de todos os outros; em meio ao enxame aleatório, tal indivíduo parecerá estar voando a esmo, como todos os outros.

 

No primeiro momento, tal peculiaridade funcionará apenas como uma espécie de mania do indivíduo em questão, um comportamento idiossincrático e inócuo, apenas uma estranheza.

 

À mercê das probabilidades, como todos os outros, é possível que tal indivíduo deixe uma prole numerosa, muitos, dentre esses, herdeiros da peculiaridade de seu progenitor, o encantamento pela luz e a tendência originalmente nele expressa de dirigir seu voo para a lua, o grande luzeiro noturno.

 

Suponhamos a existência de um contingente de insetos descendente desse tipo peculiar original voando sempre em direção à lua. Ora, tais tipos agem como se tivessem uma informação privilegiada sobre o comportamento de seus parentes. Note que, de fato, eles não sabem nada, não possuem nenhuma informação adicional que os outros não conheçam, mas apenas compartilham a mesma “mania”, o encantamento, a compulsão por voar em direção à luz, que os compele, a todos, a voar na mesma direção, como se soubessem que seus parceiros fazem o mesmo! Acresce a isso que a lua aparece apenas em dados momentos, fazendo com que o grupo peculiar de indivíduos encantados se lance aos céus sincronizadamente, aumentando ainda mais sua probabilidade de encontrar um parceiro 😉

 

Espécies que não voltam para casa tendem a botar um grande número de ovos, ao léu, ao contrário das que cuidam de seus ovos e filhotes, em suas casas, fato que as deixa sujeitas a enormes flutuações estatísticas. Caso alguma flutuação estatística, ou a sincronização induzida pela lua, permita um aumento na densidade local de indivíduos que compartilham a direção privilegiada, passará a existir uma vantagem crescente em compartilhá-la. Lembremos do indivíduo absurdo, portador da informação privilegiada aventado no início dessa história, e percebamos que todos esses “adoradores da lua”, agem como se conhecessem o comportamento dos parceiros potenciais, favorecendo, com isso, sua probabilidade de deixar descendentes. Após algumas gerações, pode-se esperar que todos os indivíduos da espécie compartilhem a mesma característica, já não mais peculiar ou estranha, de voar em direção à lua, jogando-se aos céus, preferencialmente, quando ela, por lá, se apresenta.

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Quanto aos outros indivíduos, os tipos atávicos, alheios à lua, teriam sido extintos, por voar a esmo, ignorantes da direção privilegiada de todos os outros, sujeitando-se aos predadores por um tempo muito maior em busca do parceiro, que provavelmente já terá copulado com um adversário.

 

Quando acendemos uma lâmpada, confundimos as criaturas, encantando-as com a luz intensa, compelindo-as a trocar a lua pela luz visível mais radiante que encontrem pela frente. E é por isso que a profusão de insetos voadores se concentra em torno das lâmpadas!

 

A questão tem enorme importância ecológica, dado existirem vários milhões de espécies de insetos, muitas delas sujeitas a essa ameaça altamente perigosa para eles, mais ainda por dificultar-lhes a reprodução.

 

De volta ao jogo

 

Mas, já havendo uma explicação admitidamente mas bela e satisfatória para o fato, e sendo essa explicação reconhecida pelas revistas científicas, por que insistir em uma outra explicação, além de tudo, mais chinfrim? Faço isso porque o jogo funciona assim, uma busca sem término, nunca definitiva. Além disso, gosto desse jogo.

 

Mas, além disso, porque se observarmos as lâmpadas perceberemos em torno delas 2 grupos se comportando de maneiras bem distintas: um pequeno grupo de espécies que, conforme esperado pela explicação ortodoxa, se aproxima da lâmpada em um movimento espiralado, e um outro grupo, muito mais numeroso e diverso, voando diretamente para ela, conforme previsto pela outra teoria! Se observarmos veremos quase todos se comportando desse modo, o que ficará evidente caso surja algum em voo espiral, fato mais facilmente constatado ao ar livre. Dentro de casa, o voo em espiral resultará em choques despropositados contra a parede, seguidos por círculos executados bem proximamente da lâmpada. O surgimento de um desses destoará e chamará a atenção.

 

Tal observação resulta em um teste crucial entre as teorias, revelando qual das duas é a correta.

 

Nesse caso, penso que ambas as teorias estejam corretas, sendo uma delas aplicável a uns, e a outra, a outros insetos. Os que vemos em torno da lâmpada, no entanto, como o leitor poderá comprovar, correspondem, quase todos, ao segundo tipo descrito acima.

Convido a todos a observar e relatar aqui o resultado da observação, especialmente de lâmpadas em postes ao ar livre, onde a presença de eventuais voadores em espiral destoará da profusão ali reinante. Bastará uma tão singela observação para que o leitor participe do jogo da ciência 🙂

 

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12 comentários

  1. Eu sinto vergonha de ler

    Eu sinto vergonha de ler isso, Gollo.  Eu -que nunca estudei- sei mais sobre “visao de insetos” do que um monte de entomologistas.  Nada do que eu conheco bate com qualquer coisa que voce falou!

  2. Por sinal, Gollo, insetos sao

    Por sinal, Gollo, insetos sao atraidos a luzes artificiais e ate luz de velas porque as subpolarizacoes se embaralham na visao delas, que eh completamente diferente da nossa.  Testar essa hipotese seria simples o bastante:  nuvem de cobre vaporizado.

    Se elas sao atraidas pela (altamente venenosa) nuvem, ta provada a hipotese.  Se nao forem, nao tem a ver.  O que eu suponho eh que elas “veem” alguma coisa elemental em fogo, que a gente nao consegue ver mas elas veem porque a luz que elas veem eh diferente da nossa.  (Abordei o assunto de “luz diferente” outro dia mesmo, alias.)

    Essa “visao” delas eh valida.  Tem “alguma coisa” ali.

    • “O que eu suponho eh que elas

      “O que eu suponho eh que elas “veem” alguma coisa elemental em fogo”:

      Apaguem o “em fogo”.  Eles veem alguma coisa elemental, ponto final.  E algumas coisas como fogo tem essa “coisa” que eles veem.

      A razao eh simples:  sem maquinario cerebral pra decifrar imagens como nos as vemos, o maquinario visual dos insetos se utiliza de sub-atomica, e portanto, de subpolarizacoes.  (Sugeri um modo de testar isso com nuvem de cobre vaporizado em acido porque eu proprio vejo “alguma coisa” ali e nao sei o que ela eh.  E eu, como medium, definitivamente tenho capacidades visuais extras.)

      O equipamento cerebral de um inseto se adentra pra baixo do atomo.  O cerebro de insetos por si proprio nao conseguiria computar nada pros insetos por pura falta de capacidade mesmo, portanto o equipamento visual tem um pe no subatomico e outro no supratomico, ou no “material”.  (isso nao acontece com voces, pobres humanos;  a gente eh um pouquinho diferente)

      Propriedades ainda nao descobertas abaixo do atomo NAO sao computadas pelo cerebro e nem poderiam.  Aparecem prontas na mente como conclusoes diretas do input.

      Isso eh literalmente visao elemental.  Insetos conseguem “ver” moleculas inteiras, de fato.  Mais ou menos como gatos e cachorros conseguem cheirar cancer em certas pessoas, e ja estamos falando de outro senso;  mas o principio eh o mesmo.

      Alias…

      Tou achando dificil parar de falar!

    • Alias, xou cuspir isso pra

      Alias, xou cuspir isso pra fora de uma vez, ta me remoendo ha anos.

      Uma vez eu tava numa lista do exercito americano, aparentemente, tentando explicar que o narwhal consegue ver o gosto de uma comida de dezenas de quilometros de distancia, e eh assim que ele acha comida.  Mas nao podia falar pois eu sabia que o complexo de inferioridade deles nao deixaria e eu seria expulso da lista.

      Nao foi isso que aconteceu e mesmo que eu nao tenha falado, nada adiantou:  a lista inteirinha foi apagada do mapa da historia.

      Fica pior.  Mais tarde os complexados geraram na internet que o dono da lista era so um troll da internet.  Ou era ou nao era, nao eh mesmo?

      So que a lista foi apagada do curso da historia:  ja nao existe em lugar nenhum.  E eu ja tinha falado coisa muito pior nessa lista.

      Entao…  fica ai a dica.

      Todas as portas estao fechadas exceto as que te levam aa escravidao.

      E eu sou ligeiramente vingativo.

  3. Exercitando a paciência… esses textos são um tipo de provação?

    As vezes parece que eu morri uns 3 anos atrás e cada dia então vem sendo um teste para selecionar para o paraíso… fracassei em todos! Me leva Jesus!!! Cadê a Arca de Noé???

    Vocês tão achando que é fácil ser de esquerda nesse país??? 

    É ser atacado de todos os lados… não há refúgio… bombardeio constante…

    Não basta MBL,Olavo de Carvalho, Veja, Globo, Moro, Alexandre Frota, Temer, Lobão, Pondé, Narloch, Nando Moura, Edir Macedo… não… até nos blogs de esquerda agora seremos desafiados… 

    respira… calma… 

    Eu gostaria de fazer um curso de desalfabetização… desaprender a ler… voltar pra caverna… aí na parede vai estar um pintura rupestre do Gollo explicando por que os mamutes tem pêlos.

    O mundo está evoluindo de Moonwalker… cada dia um novo passo… pra trás.

    Crowdfounding para pagar o Gollo para não escrever… quem topa?

     

  4. Metodologia científica

    Quando propus essa explicação, eu estava muito mais interessado em questões metodológicas que nas biológicas, tendo apresentado essa como uma ilustração exemplar da metodologia popperiana.

    Minha explicação para o comportamento dos insetos sugere 2 testes.

    1) Indivíduos de espécies que navegam guiadas pelo sol escolhem um ângulo de direção qualquer relativo ao sol, durante a ida, e invertem a rota durante a volta, mantendo em cada viagem, ângulos fixos relativos ao astro. Quando “capturados” pela armadilha que a lâmpada elétrica consiste para eles, aproximam-se dela sob o mesmo ângulo que mantinham em relação ao sol, traçando, em consequência, uma espiral até a lâmpada. Esse traçado destoante do enxame é relativamente raro, mas bem característico, mas pode ser visto em torno de postes, ao ar livre (dentro de casa, as paredes impedem o traçado em espiral).

    As espécies que se orientam para a lua com o “propósito” de facilitar a cópula, ao contrário, dirigem-se diretamente para a lâmpada, chocando-se com ela, em consequência. Ambas as trajetórias podem ser vistas em torno dos postes de iluminação. O tipo espiral é mais raro, mas visível. Ângulos de voo pouco menores que 90 graus produzirão um movimento quase circular, embora espiralado.

    A inexistência de espécies com o tipo de orientação direta para a luz refutaria a hipótese.

    (O enxame se dirige diretamente para a luz, não em espiral, como as abelhas, por exemplo, o que refuta a generalidade da explicação da orientação. Atente para essa distinção, eventualmente você vai acabar encontrando um inseto voando em espiral em torno da luz, percebendo claramente a distinção entre os 2 modos).

     

    2) Outro tipo de teste decorre do pressuposto acolhido de que os indivíduos atraídos pela luz estariam buscando parceiros sexuais. Nesse caso, devem se encontrar em período fértil, fato cuja constatação exige, a rigor, conhecimentos de um especialista na fisiologia dos insetos.

    Certos conhecimentos mais básicos, no entanto, sugerem ser esse o caso. Formigas e cupins, alguns dos mais frequentes entre os insetos que enxameiam as lâmpadas possuem asas apenas durante os curtos períodos em que suas formas sexuadas partem para a cópula, e apenas essas são atraídos pela luz.

    Os indivíduos de muitas espécies de insetos morrem após a estação de acasalamento, e a postura de ovos, deixando apenas larvas durante o período frio do ano. As larvas nunca são atraídas pela luz, apenas os adultos o são. Nessas espécies, a eclosão da forma adulta, corresponde, exatamente, ao período de acasalamento. São elas, principalmente, as que se somam aos cupins e formigas nas aglomerações ao redor das lâmpadas.

     

    Ambos os testes permitem, em princípio, revelar a falsidade da hipótese, conforme exigência popperiana, bastando que as espécies não se dirijam diretamente para as lâmpadas, ou que não o façam durante os períodos férteis.

    Compus desse modo, uma realização exemplar de metodologia popperiana, explicando, concomitantemente, uma peculiaridade bastante conspícua e enigmática que utilizei posteriormente como exemplo para ilustrar minha própria metodologia: o jogo da ciência; na qual proponho que a atividade científica seja encarada de forma lúdica, como um jogo de solução de enigmas.

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