Por uma ciência artística, por Gustavo Gollo

Por Gustavo Gollo
 
Memórias cache armazenam informações de uso imediato; contêm informações recentemente utilizadas e que, provavelmente, tornarão a sê-lo, em breve. Equivalem ao conjunto de objetos mantidos à mão em uma escrivaninha para utilização imediata.
 
Pode-se construir uma espécie de memória cache empilhando-se livros recém-consultados no topo de uma pilha de livros, e retirando-se para guardar os livros da parte de baixo da pilha em uma estante de arquivamento, quando a pilha atinge certa altura. Livros frequentemente consultados, como dicionários, permanecem na pilha, à mão, enquanto livros de consulta eventual retornam para o arquivo, onde ficam guardados por quase todo o tempo.
 
Memórias cache agilizam o processo de buscas de informação, mantendo à mão tudo aquilo que costuma ser utilizado no dia a dia.
 
Nosso cérebro utiliza processo análogo de armazenamento de informação, “mantendo à mão” informações recentemente consultadas antes de tornar a arquivá-las, após certo tempo sem uso.
 
Toda informação compatível com aquela presente em nossa memória cache é encarada com normalidade, enquanto as informações que não se encontram à mão nessa memória, são vistas com estranheza.
 
A estranheza gera desconfianças. Gostamos de preservar nossa normalidade e nos desagrada substituí-la por outra; somos criaturas conservadoras.
 
Seja lá o que constitua a memória cache em nosso cérebro, é o uso desse canal que nos dá a sensação de normalidade.
 
“Quadrados redondos” e outras concepções absurdas causam-nos estranheza apenas se ausentes de nossas vidas diárias; estranhezas lógicas como esta seriam encaradas com absoluta naturalidade se referidas cotidianamente. É o hábito que nos causa a sensação de normalidade, e a falta dele que nos causa a perplexidade e a sensação de absurdo. Tendo sido incorporado a nossa memória cache, qualquer absurdo torna-se normal.
 
A arte consiste em uma espécie de “perplexidade embrulhada para presente” que nos prepara para absorver estranhezas, amaciando nossas resistências ao novo, e permitindo-nos considerar alternativas ao que está consolidado em nossa mente, propiciando a possibilidade de ruptura com antigos hábitos e crenças. É como se a arte ajudasse a erguer a pilha de livros que compõem a memória cache em nossa mente, facilitando a retirada de livros na parte de baixo, e, em decorrência, o acréscimo de novos livros no alto da pilha, e consequente renovação da pilha. Quando jovens, armazenamos com facilidade qualquer novidade à nossa pilha; posteriormente, é como se nossa pilha atingisse uma altura tão grande que dificultasse tanto o acréscimo de livros em seu topo, quanto a retirada dos de baixo, e nos tornamos conservadores. A arte tende a diluir entraves à renovação da pilha.
 
Como qualquer outro tipo de conhecimento, o científico pode se “calcificar” em nossa mente de uma maneira dogmática; rígida e imutável. Professores encarregados de passar a mesma lição, ano após ano, por exemplo, correm o risco de se transformar em papagaios incapazes de considerar qualquer outro conhecimento que não seja a cantilena que repetem seguidamente, como um disco travado, condenado a repetir e repetir.
 
Talvez seja essa uma das causas da estagnação científica que temos presenciado há já um século. Doce remédio para tal entrave decorreria da elaboração de uma ciência artística, conhecimento que revolvesse nossa normalidade, que chacoalhasse nossa concepção de sensatez. A receita foi sempre utilizada pelos grandes cientistas, discorri sobre uma delas em texto anterior, aqui no GGN.
 
Caso a autoria do gigante, Einstein, consista em exemplificação intimidante – Aaaahh, mas é o Einstein… –, exponho, despudorada e orgulhosamente, quadro pintado por mim mesmo – ou esboço sinfônico, como preferir 🙂
 
Vivendo em um mundo aberto que nos oferece uma infinidade de escolhas a cada momento, repetir sempre os mesmos passos, as mesmas escolhas, parece imensa tolice reveladora, apenas, de uma enorme pobreza de espírito. A conclusão é válida especialmente para os cientistas, aqueles que, afinal, encarregam-se de ampliar os limites da humanidade.
 
Por uma ciência artística!
 
 
Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta.

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