Um mundo onde russos são bem vistos não se ajusta ao imaginário criado pelo cinema dos Estados Unidos

Por Fábio de Oliveira Ribeiro
Os russos malvados e militaristas são capazes de treinar moças bonitas para serem putas e agentes da FSB (cujo nome no filme é outro). Americanos bem intencionados que se esforçam para recrutar e proteger desertores russos a fim de obter as informações que irão salvar o mundo ou a pele do Tio Sam. Desertores norte-americanos que fornecem informações aos russos e são assassinados por eles. Cenas de tortura em grande estilo: russos torturando russos, russos torturando norte-americanos. Um final previsível que possibilita a continuação da saga de Dominika Egorova. Eis um resumo bastante acurado do filme Red Sparrow.
A imagem do mundo criada no filme, porém, não se encaixa na realidade. O generoso espião norte-americano oferece à agente russa a oportunidade de ganhar dinheiro e de desfrutar liberdade nos EUA. Ele também promete até garantir cuidados médicos para a mãe dela.
O bem estar que Nathaniel Nash promete a Dominika Egorova, contudo, tem sido negado à própria população norte-americana https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/os-moradores-de-tuneis-nos-estados-unidos#.VTrmPV96JMy.facebook https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/os-paradigmas-da-pobreza-nos-eua. A imprensa internacional confirma esse fato http://www.bbc.com/portuguese/internacional-42076223 e a eleição de Donald Trump não melhorou a situação https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia-Politica/Um-retrato-da-pobreza-extrema-no-pais-mais-rico-do-mundo-bem-vindos-aos-EUA/7/39081.
Um mundo em que os russos são bem tratados e bem vistos nos EUA também não se ajusta ao imaginário criado pelo cinema norte-americanos. Quase todos os filmes hollywoodianos e ação lançados nos últimos anos retratam os imigrantes russos como sendo violentos, traficantes de drogas, mafiosos, assassinos e desonestos. Aqui mesmo no GGN comentei alguns deles https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/o-medo-dos-russos-e-a-materia-prima-do-filme-operacao-sombra-jack-ryan https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/%E2%80%9Co-protetor%E2%80%9D-ou-como-micromegas-se-protegeria-do-americanismo-cinematografico https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/de-volta-ao-jogo-o-novo-filme-de-keanu-reeves. O fenômeno também foi notado pelo Estadão http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,senhores-do-crime-retrata-bastidores-da-mafia-russa,128285.
A tortura é retratada de maneira negativa no filme Red Sparrow. Nos filmes da saga Taken o respeitável público é levado a gostar de ver um norte-americano torturando terroristas e mafiosos russos http://observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/taken-a-busca-implacavel/ https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/busca-implacavel-3-e-o-direito-penal-do-inimigo. O personagem interpretado por Liam Neeson parece ter sido concebido para justificar o injustificável, para legitimar o uso da violência contra prisioneiros em Abu Ghraib e Guantánamo. O que os norte-americanos realmente fizeram e fazem contra os seus inimigos é retratado de maneira positiva. Inadmissível é o que os russos fazem com os inimigos deles no filme Red Sparrow.
O mundo cinematograficamente concebido se completa na estrutura profunda desse filme através de uma oposição clara e simples: os norte-americanos são intrinsecamente bons e os russos são inevitavelmente malvados. Isso explica como e porque toda sociedade russa é retratada em Red Sparrow como se fosse um antro de desconfiança, exploração sexual e violência criminosa capaz de fazer um tio colocar a sobrinha numa escola de putas levando-a a fazer o que é necessário para que ele seja morto.
Jennifer Lawrence se tornou mundialmente conhecida ao interpretar a protagonista da saga Jogos Vorazes. Ela se saiu bem no papel de Dominika Egorova, mas notem a ironia: quem obrigou a atriz a utilizar suas habilidades sexuais não foi Vladimin Putin e a FSB e sim a CIA e o Tio Sam que há décadas controlam ideológica e financeiramente o que é filmado e distribuído no Ocidente. É evidente que Jennifer Lawrence se tornou vítima da voracidade ideológica sexualizada do cinema norte-americano. Red Sparrow é um exemplo perfeito de como a Guerra Fria 2.0 já domina a produção de filmes em Hollywood. Em algum momento a agressão cinematográfica se tornará guerra aberta.
ciro medeiros
4 de março de 2018 6:32 pmé sempre bom dar uma olhada
é sempre bom dar uma olhada na origem das coisas para entendê-las melhor – suas versões iniciais são, geralmente, menos sofisticadas e mais fáceis de compreender…
https://www.youtube.com/watch?v=i81DsMy9i68
naldo
4 de março de 2018 6:57 pmRealmente tem filme que é
Realmente tem filme que é propaganda pura,
maldito o dia em que o governo cooptou róliúde……
O campeão em fazer patriotadas é o uíu ismiti, comete uma papagaiada patriótica nonsense atrás da outra.
Renato Lazzari
4 de março de 2018 7:53 pmPobreza geral
Estamos com saudades dos ’60, da Guerra Fria, do exército tomando governos civis, da ditadura dos não-eleitos…
Não tem mais Sérgio Fernando Fleury mas tem Sérgio Fernando Moro.
As pessoas que operam o capital do dólar, na ânsia da concentração de poder em si mesmas, não cansam de estabelecer ditaduras. Até que se faça uma revolução, empobreceremos todos nós – inclusive os que acreditam que podem se safar arranjando uma boquinha de manobrista do clube do capital – e em todos os sentidos.
“Não me ofereceram nem um cigarro, fiquei na porta, estacionando os carros.”
Cazuza, Brasil
C.Poivre
5 de março de 2018 2:41 amInstrumento de propaganda
O cinema estadunidense tornou-se ainda mais ideologizado do que sempre foi e como o autor do texto bem relatou, os maus são sempre os russos, não por acaso eleitos os inimigos preferenciais que justifiquem o aumento estratosférico do orçamento militar dos EUA. Haver um inimigo declarado é fundamental para a indústria bélica desse país.
Mas além da russofobia o cinema hollywoodiano voltou a ser uma meio de propaganda descarado do tabagismo e de tentativa de auto-afirmação através da focalização repetida de cenas em locais onde haja uma bandeira dos EUA. É ridículo. Está cada vez mais difícil suportar um filme realizado no país norte-americano.