9 de junho de 2026

A burrice nacional a serviço da cupidez, por Luís Nassif

No Brasil há um quadro típico de países politicamente pouco desenvolvidos: os interesses particulares se sobrepõem aos interesses gerais
Reprodução

A maior falha estratégica do Brasil é não saber distinguir entre estatais que são essenciais à soberania nacional e aquelas que podem ser privatizadas sem prejuízo ao interesse público.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Empresas estratégicas são aquelas que:

  • Garantem a segurança nacional e a capacidade de enfrentar crises.
  • Promovem inovação e planejamento de longo prazo.
  • Asseguram um ambiente competitivo saudável.

Privatizar insumos essenciais — como energia e combustíveis — significa entregar o controle a poucos grupos, eliminando a concorrência e aumentando os preços.

No Brasil há um quadro típico de países politicamente pouco desenvolvidos: os interesses particulares (dos que ambicionam a privatização) se sobrepõem aos interesses gerais dos consumidores, mesmo estes sendo de setores economicamente fortes.

O caso do setor elétrico

Tome-se o caso do setor elétrico nacional. 

Na ponta geradora, tinham-se as hidrelétricas estatais. Na ponta consumidora, todos os grandes setores industriais, da indústria automobilística à de máquinas e equipamentos, a indústria de base, o setor têxtil, a indústria siderúrgica etc.

Na década de 1990, o governo Fernando Henrique Cardoso iniciou a privatização do setor elétrico nacional – até então nas mãos de grandes geradores estaduais coordenados pela Eletrobras. Até então, a energia brasileira era das mais baratas do mundo, e um dos grandes fatores de competitividade da economia brasileira, prestes a se integrar à economia mundial.

O resultado foi o desastre do apagão, obrigando o governo seguinte, através da Ministra das Minas e Energia Dilma Rousseff, a montar um modelo alternativo.

Anos depois, através da Lei 12.783/2013, a então presidente Dilma Rousseff tentou a maior sacada para manter os preços reduzidos. Determinou que as concessões de usinas, com contratos vencendo entre 2015 a 2017, conseguissem a renovação antecipada, mas com tarifas reduzidas. Anualmente, as empresas incorporavam nas tarifas um percentual dos investimentos, a chamada depreciação. Com o fim das concessões, não haveria mais razão para depreciação. Oferecia-se, então, além da indenização da União, a possibilidade de cobrar tarifas resultantes apenas do custo operacional, mais uma margem de lucros.

Houve o bloqueio dos governos dos principais estados produtores, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, todos em mãos de partidos da oposição. Depois, uma crise pluvial pressionou a oferta de energia. A partir daí, matava-se a ideia original do sistema hidrelétrico interligado, oferecendo energia barata. 

Já no governo Temer, em 2017, houve o leilão das usinas da Cemig, de Minas Gerais. Foram vendidas as hidrelétricas São Simão, Miranda, Jaguara e Volta Grande, para compradores privados, inclusive grupos chineses. A velha justificativa era a necessidade do ajuste fiscal. Em 2022, já no governo Bolsonaro, houve a privatização escandalosa da Eletrobras, através de um modelo de emissão de ações, diluindo a participação da União. Players estrangeiros, da China, Canadá, mais fundos de investimento, passaram a controlar ativos estratégicos.

O breve interregno do governo Dilma permitiu a redução temporária das tarifas em cerca de 20%. Mas, passado esse período, o setor já experimentava um aumento estrutural no preço da energia.

A privatização da Eletrobras foi a peça final. De R$ 40,00 o MWh, o preço saltou para R$ 150-200. Isso gerou um efeito cascata. Segundo estudos da ABRACE (associação que representa os grandes consumidores), o custo adicional poderá chegar até R$ 400 bilhões até 2040.

As refinarias

O mesmo ocorreu com a privatização das refinarias. Em 2021 foi vendida a RLAM (Refinaria Landulpho Alves), da Bahia. Em 2022, a REMAN (Refinaria Isaac Sabbá), do Amazonas. Em 2022, a SIX (Unidade de Industrialização de Xisto), no Paraná. E também a Lubnor (Lubrificantes e Derivados de Petróleo no Nordeste), no Ceará.

Na Bahia, a compradora, Acelen (fundo soberano de Midabala) passou a cobrar preços independentemente da Petrobras. Gasolina e diesel chegaram a ficar 15% mais cara que a média nacional. O diesel S-10 ficou 36% mais caro.

A REMAN tem monopólio natural em toda a Amazônia, já que a logística fluvial é limitada. O diesel é 25% mais caro que a média nacional; o GLP, mais de 70%

Em nenhum desses estados há competição. Houve a fragilização da integração logística, já que, antes, a Petrobras poderia deslocar derivados entre refinarias para equilibrar a oferta. E maiores dificuldades ainda para implementar uma política nacional de transição energética.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

7 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. GASPAR ALENCAR

    26 de agosto de 2025 10:49 am

    Nassif, vc é a voz da economia que clama no deserto. Assim como Luiz Marques, a voz que clama para conservação da biodiversidade, mas que ninguém nos ouvem e porque? Os sistema não permitem. Consertar o que começou errado ou estar errado. Dar muito mais trabalho. Por ninguém dar ouvidos a voz que clama na floresta, na economia, na biodiversidade e assim por diante. Meu caro estamos com um problema de audição coletivo, associado a uma injeção de anestesia geral!

  2. Rogério Amaro Gonçalves

    26 de agosto de 2025 11:33 am

    Se fizermos um levantamento do período FHC, o resultado é negativo, para o país foi péssimo, privatizações sem critérios, criação de agências modelo americano sem participação popular ou de associações (foram tomadas por lobbys), desmonte de estruturas de planejamento de longo prazo, entregou a economia ao sistema financeiro, desindustrialização, e por ai vai, da para encher um livro com mil páginas.

  3. Lopes

    26 de agosto de 2025 11:58 am

    O liberalismo nacional é uma doença crônica altamente corrosiva, que historicamente atua contra o país. É preciso muita manipulação para que essa porcaria sobreviva.

  4. Silvio Torres

    26 de agosto de 2025 5:55 pm

    Nenhuma novidade ou surpresa nas jogadas das quadrilhas que exploram essa porca gorda desde sempre. O que causa espanto, mundial, é a facilidade com que enganam e convencem os nhambiquaras a entregarem seus tesouros e viverem escravizados e dependentes. Desde sempre.

  5. F. Duarte

    27 de agosto de 2025 6:57 pm

    A questão não é a burrice, mas o objetivo. Pensando de forma estratégica, em um país que busca desenvolvimento, sim, isso seria burrice. Porém, o objetivo não é o crescimento econômico da nação, mas sim a extração de valores. É a famosa mentalidade das chamadas private equities. Empresas estratégicas são vistas como gemas valiosas, pois permitem consolidar posições monopolistas e gerar dividendos generosos — especialmente quando adquiridas por meio dos chamados leveraged buyouts.

    Os governantes não têm qualquer incentivo em barrar essas operações, pois, ao jogar o jogo proposto por esses grupos, sabem que serão recompensados com cargos, contribuições, acesso a financiamentos e contatos valiosos na mídia, em grupos políticos e em uma ampla gama de vantagens. Ao contrário, quando se opõem a essas tramoias, são demonizados e atacados pela mídia, além de boicotados em partidos e organizações que perdem financiamentos e contribuições.

    Com um sistema político capturado e um povo alienado — que sente os impactos desse processo, mas é incapaz de compreender suas causas — caminhamos a passos largos rumo a uma ruptura social.

  6. twa

    28 de agosto de 2025 3:06 pm

    Por favor comente sobre as várias usinas a fio dágua construída na epoca Dilma e sua produção de energia x custo

  7. twa

    28 de agosto de 2025 3:14 pm

    Esses dias comprei um livro num sebo em Brasília por R$ 7,00 e para trazer de lá para outra cidade de porte médio na mesma região centro-oeste, paguei mais de R$ 30,00. E ainda dá prejuízo os Correios ? Quando se faz compra através da Amazon/Mercado Livre tem muito frete grátis e chegam com agilidade enorme que não se vê nos correios. Aliás a única compra que da Amazon que fiz via correios voltou, pois não me avisaram da tentativa de entrega.

Recomendados para você

Recomendados