Coluna Econômica: a derrota dos grupos de mídia nacionais

Hoje em dia, apenas as Organizações Globo e a Record – por ligações com a igreja – tem condições de se manter por algum tempo.

A notícia de que a ABERT (Associação Brasileira das Empresas de Radiodifusão) decidiu patrocinar um projeto de lei permitindo a entrada de capital estrangeiro na mídia nacional mostra que os grupos nacionais jogaram a toalha.

A derrocada dos grupos de mídia nacionais começou com o advento da Internet. Até então, o setor se defendera ferozmente de qualquer invasão estrangeira, através de uma reserva de mercado garantida por lei, impedindo controle estrangeiro até para publicações escritas. O advento da TV paga criou a primeira brecha no modelo.

Mesmo assim, os anos 90 marcaram o apogeu da mídia tradicional. Nunca os jornais venderam tanto. As emissoras de radio e televisão se consolidaram em redes nacionais. Havia uma divisão clara de mercado. Anúncios nacionais eram divulgados nas redes de TV e em algumas revistas de alcance nacional, como a Veja.

Os grandes diários tinham uma abrangência estadual, com penetração em regiões vizinhas de outros estados. A publicidade local ficava com as emissoras menores, os rádios e os jornais locais. Os jornais municipais tinham acesso aos classificados.

Nesse céu de brigadeiro houve investimentos pesados em gráficas, novas sedes, novos equipamentos. Havia uma enorme liquidez no mercado internacional e bancos com linhas de financiamento em dólares.

A maxidesvalorização de janeiro de 1999 foi o início do fim, uma espécie de castigo aos grupos que ajudaram a consolidar uma política cambial temerária e nociva. Foi necessário o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) apoiar os grupos para que sobrevivessem.

Ainda machucados pelo câmbio, tiveram que encarar o novo meio que surgia avassalador – a Internet -, para onde confluíam todos os grupos, as empresas de telecomunicações, os grandes grupos de mídia e as redes sociais, que começavam a ganhar corpo.

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Sem fôlego, sem conhecer direito os novos meios, partiu-se para uma estratégia suicida, trazida para o Brasil por Roberto Civita, da Editora Abril. Tratava-se de emular a estratégia de Rupert Murdoch, o australiano que saíra de seu país, levantara recursos no mercado internacional e passou a adquirir jornais e estúdios em vários países.

No início dos anos 2000 decidiu dar um passo além. Foi buscar na ultradireita americana o discurso mais ignóbil, tentou interferir diretamente nas eleições presidenciais para tentar, via influência política, barrar o avanço dos novos grupos que surgiam. A eleição de Obama, amparado por voluntários atuando nas redes sociais, matou sua ambição. Mas deixou seguidores.

Os novos tempos coincidiram com uma transição geracional nos principais grupos e os novos herdeiros seguiram cegamente as propostas de Roberto Civita, com o carro-chefe, a revista Veja, se transformando no maior representante do que ficou conhecido como o jornalismo de esgoto.

Criaram-se narrativas sobre a ameaça petista, imaginaram-se invasões do país pelas FARCs, pela Venezuela, e outras pirações de guerra fria. Mas o objetivo óbvio era ganhar o poder de desestabilizar governos e se valer da influência política no novo mercado que surgia. Os inimigos reais eram os novos atores que surgiam, Google, Apple, Facebook.

Foi em vão. Em pouco tempo, os novos modelos de negócio se impuseram.  O Google passou a ter uma receita publicitária que só perdia para a Globo. Ao mesmo tempo, a publicidade da rede passou a se dividir por sites de compras, Youtubers influenciadores, novos veículos que pipocavam a torto e a direito, ao mesmo tempo em que veículos estrangeiros se consolidavam junto a um público restrito, mas sequioso do bom jornalismo, como o El Pais, a BBC.

Gradativamente os velhos modelos de negócios foram se esboroando. Revistas impressas, jornais impressos, o modelo de publicidade em papel, foram os primeiros a cair. Depois, a publicidade em TVs abertas, com a audiência corroída pelo cabo. Finalmente a TV paga caindo, sufocada pela crise econômica e os grupos externos entrando com venda direta, como foi o caso do Netflix e Amazon, e seu modelo on demand e de venda direta.

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Com os meios de difusão sem amarras, primeiro entraram os canais esportivos. A Globo ainda conseguia se agarrar à exclusividade dos campeonatos nacionais de futebol que perde definitivamente este ano. Mas já havia um macro ambiente suficientemente robusto para o primeiro grande lance, a do grupo CNN invadindo o jornalismo televisivo com recursos e padrão inéditos no jornalismo pátrio multiveículos.

Hoje em dia, apenas as Organizações Globo e a Record – por ligações com a igreja – tem condições de se manter por algum tempo. Ainda não está claro qual será o novo desenho da mídia, especialmente das redes abertas. As redes de TV ainda dispõem de uma boa base política, através dos coronéis eletrônicos donos de concessões das principais redes de TV em seus estados.

O futuro chegará muito mais rapidamente do que se espera. E não será necessariamente melhor.

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13 comentários

  1. Talvez não haja maior evidência pública desse fim do que a queda impressionante na qualidade jornalística desses veículos da imprensa tradicional. Os erros são diários. Hoje, na capa da UOL & Folha há uma chamada para reportagem sobre os terreiros de candomblé na pandemia.
    Ilustra a longa reportagem um bloco de fotos da casa da Giselle Cossard, no Rio de Janeiro, com várias imagens dela, sem explicar que a mãe Giselle está morta há mais de 4 anos.
    Triste fim da velha Folha de S.Paulo.

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    • Nestes 90 anos fomos tão cerceados de uma visão crítica e abrangente, de gente com visão global, ricos em cultura e conhecimento, que nossas discussões são tão risíveis quanto o país que foi criado em quase 1 século. Culpar o Fascismo Caudilhista Ditatorial Esquerdopata explica muito, mas não tudo. Murdoc é outra história. Cercou a Imprensa Mundial e a ‘monopolizou’ nas Mídias Eletrônicas. Aqui no Brasil, nossas Elites da Imprensa, Intelectuais e Empresários do Setor, acostumados à mamata do Dinheiro Público e ‘ toma lá da cá ‘ com a NecroPolítica, demoraram em perceber que rumavam para o abismo. Sem Dinheiro do Governo, a mediocridade e incompetência ficaram escrachadas. Vimos a fila de pedidos de dinheiro na porta da Presidência da República. Imprensa Livre? Opinião Independente? Ainda levaremos a sério esta farsa? AT&T que comandava boa parte da Imprensa e Informação ‘Nacional’ a partir de JK e suas Privatarias Entreguistas dos anos 60 via RGT, agora comandará todo processo, sem ao menos precisar da aprovação ou comando nacional do Estado, Legislação e Autoridades Brasileiras. O pacote virá pronto de MIAMI/USA via INTERNET e sua Rede de Empresas NorteAmericanas Google, Microsoft, Apple, Facebook, Tweeter,.. sem falar de toda Estrutura Técnica, Equipamentos e Produtos. Rede Mundial? Mundial de quem? Pode parecer surreal, mas ainda sentiremos falta de RGT e Brasileiros falando e mostrando o Brasil. Pobre país rico. 90 anos cuidando de 2 tartarugas. 1 escapou. Mas ainda estão confirmando se não foram as 2. Mas de muito fácil explicação.

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  2. As bancas de jornais e revista estão ruindo, pelo menos as de BH. Vendem dvds, fones de ouvido e outras tantas coisas, mas não vendem mais jornais, e quase nenhum outros impressos.
    A pergunta que fica: vai ter um decreto declarando o fim das mídias impressas? Pergunto porque há regras ainda vigentes determinando a divulgação por mídia impressa, por exemplo no caso de leilões de imóveis.

  3. Se a CNN for o novo padrão será muito pior.
    Parece até o canal oficial do Bolsonazi.
    Assisti e achei uma droga.
    Tem um asno chamado Caio Coppola que deveria ser a vergonha do jornalismo como profissão.

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    • Entrou agora Alexandre Garcia. Na primeira apresentação ele afirmou que Bolsonaro é a prova viva da eficácia da cloroquina. Envergonhada a CNN Brasil de imediato fez uma alteração supimpa:
      “Batizado originalmente como “Liberdade de Expressão”, o quadro protagonizado pelos jornalistas Alexandre Garcia e Sidney Rezende na CNN Brasil trocou de nome na véspera da estreia, nesta segunda-feira (27). A direção do canal optou por rebatizá-lo como “Liberdade de Opinião”. É uma mudança sutil, mas busca reforçar a ideia de que as ideias expressas pelos seus novos comentaristas não refletem necessariamente a opinião do canal.”
      Cheira a final de carreira desprezível.

  4. Os Civvittas já mostraram o caminho das pét’las ( caminho das pedras é pro povo )= pegar a grana toda, deixar os funcionários esperando receber seus direitos numa fila a la filme bíblico e aproveitar tudo de bom o que o mundo pode dar. Ironia que só a senhora História é capaz de escrever = me lembro até hoje que o Lula faltou prometer no milho que no governo dele haveria socorro a GloboNews, a beira da falência pela disparada do dólar, no governo dele. Cumpriu a promessa e a Globo News foi um dos veículos que mais ajudaram no impeachment de Dilma. Com a saída da Globo, o espólio ficará com a Record-Universal e no futuro haverá novelas bíblicas e sub-Datenas a dar com pau e fala que eu te escuto pela noite e madrugada.

    • koel lima : Mas então, Lula ajudou a RGT ?!!! A mesma coisa que fez a República do Tucanistão. Todos ‘honestos’, Socialistas, que acusavam e acusam a RGT de todos crimes e malfeitos da República desde o Governo Militar. Não é muita Bipolaridade? Não é muita falsidade e cumplicidade? É um eterno morde-assopra. É Você quem escreve: Lula salvou a RGT. E depois querem discutir e ficar revoltados?!! Ah! Esta tal de Esquerdopatia !! Mas de muito fácil explicação.

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  5. O empobrecimento generalizado no Brasil vai prolongar a agonia da TV aberta por mais alguns anos. A grande massa não tem recursos para manter vários canais de entretenimento e notícias via internet. Na verdade, nem para manter uma internet decente têm. E as operadoras de comunicações não têm nenhum interesse em cabear muitos bairros e regiões de grandes cidades, ainda mais nesses tempos de pobreza extrema, em que roubar cabos de comunicação parece ser a saída para muitos. Como um cidadão morador de Belford Roxo ou de Japeri vai poder trocar a TV aberta por internet? Usar o celular, nem pensar. O custo dos pacotes ridiculamente pequenos de dados nas telefônicas é absurdo. Os melhores planos dão alguns dezenas de Gigabits por mês, e um filme em HD, 4k ou outros meios modernos come facilmente de 2 a 4 gigabytes, isto é 16 a 32 gigabits. Mesmo com muita compressão e métodos que reduzam os dados a transmitir, se o sujeito assistir 2 horas por dia de audiovisuais, acaba com os maiores pacotes de dados em 10, 15 dias.
    Essa situação vai prolongar a agonia das maiores redes de TV por alguns anos mais, mas nada muito além do que estará ocorrendo em países menos pobres. Até porque, até lá, os gigantes americanos vão começar a pressionar governos ao redor do mundo para criar condições de uso da internet para a grande massa pobre. Talvez venhamos a ver redes wi fi públicas nas regiões pobres, suportando milhares de acessos simultâneos, bancadas pelo Estado em nome da “democracia digital”, mas na verdade para permitir o acesso desse público aos conteúdos dos gigantes. E de lambuja, um excelente meio de controle social, porque, com o celular, ninguém se livra da vigilância do Grande Irmão, mesmo desligando o aparelho…

  6. Nassif, perdão por usar este espaço, mas tem como denunciar o extermínio do cartão BNDES? Acabou. Suspenderam e não voltaram mais há mais de 120 dias. Era importante instrumento para pequenas empresas financiarem insumos e máquinas gerando EMPREGOS.
    O extermínio do cartão BNDES dificulta um pouco mais a tão sonhada retomada do crescimento.

  7. Há uma solução para a TV aberta, as TV’s abertas locais operadas por cooperativas de jornalistas e artistas em geral. As notícias de Rio, São Paulo e os fatos que ocorrem nessas grandes cidades são noticiados e dado ênfase, porém nas capitais dos outros estados ou cidades de porte médio regional não tem a mínima cobertura, pois como a mão de obra para operá-las (jornalistas e equipes) são um custo que os donos das emissoras locais não tem a mínima vontade de bancar com um nível mínimo de qualidade. Se essas emissoras que com a possível falência das grandes redes não suportem mais seus custos, abre uma chance para a criação de cooperativas em que o lucro vá direto aos cooperativados. O custo fixo dessas TV’s tem a tendência de cair quase a zero, só o custo variável que inibe a lucratividade.
    Se grupos de jornalistas e artistas locais fizerem uma cooperativa, poderão recomeçar a produzir conteúdo local que poderia ser trocado entre cooperativas de diversas cidades.
    A experiência que os canais de informação do YouTube estão fazendo em termos de jornalismo é um embrião de um novo (velho) tipo de TV, ou seja, a volta da TV antes da existência do Vídeo-tape e das grandes redes.
    Com uma vantagem, se o custo for barato, o custo de um anúncio local também será barato, atraindo pequenos anunciantes.

  8. + comentários

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