5 de junho de 2026

É hora de discutir o REDATA, por Luis Nassif

Executivos do setor de data centers destacaram que a urgência na aprovação do REDATA é crucial para que o Brasil não perca a competitividade
Reprodução MDIC

▸Governo propõe REDATA para incentivar data centers, reduzindo impostos e exigindo critérios de sustentabilidade e P&D.

▸Comparação com China, Rússia e UE mostra diferenças em soberania digital e transferência de tecnologia.

▸Engenharia critica REDATA por não usar mercado interno para desenvolver indústria nacional de TIC.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Está na hora de abrir o debate sobre o REDATA, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, uma Medida Provisória do governo federal, para incentivar a instalação e expansão dos data centers no país, reduzindo o imposto sobre aquisição de equipamentos de tecnologia da informação e comunicação (TIC).

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Os incentivos fiscais estão condicionados a rigorosos critérios de sustentabilidade, como uso de energia 100% limpa e eficiência hídrica, e a contrapartidas em pesquisa e desenvolvimento no Brasil.

Ontem, um grupo respeitável de instituições da área de engenharia soltou um trabalho técnico analisando o REDATA, comparando com outros regimes nacionais. É uma contribuição relevante para o debate sobre o tema.

1. Soberania Digital e Localização de Dados

Enquanto o Brasil, via REDATA, incentiva investimentos com contrapartidas mínimas, as grandes potências utilizam a regulação para garantir o controle sobre os dados e a infraestrutura.

JurisdiçãoEstratégia de Soberania e LocalizaçãoComo o REDATA se Compara
ChinaAdota a abordagem mais restritiva, exigindo o armazenamento de dados gerados no país em território nacional. Controla rigorosamente a transferência de dados para o exterior.O REDATA exige que apenas 10% da capacidade de dados seja destinada ao mercado interno, o que é considerado insuficiente para garantir a soberania digital.
RússiaPossui a Lei de Localização de Dados (Lei Yarovaya), que obriga o armazenamento de todos os dados de cidadãos russos em servidores físicos no país.A política brasileira não força a localização massiva dos dados, ao contrário da estratégia russa de “soberania cibernética forçada”.
União Europeia (UE)O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR) impõe barreiras tão altas para a transferência de dados para fora do bloco que atua como uma lei de localização de facto. Lançou a iniciativa GAIA-X para criar uma infraestrutura de dados soberana europeia, reduzindo a dependência de hyperscalers estrangeiros.O REDATA não inclui uma política ativa de desenvolvimento de alternativas nacionais ou regionais comparável ao GAIA-X.

2. Conteúdo Local e Transferência de Tecnologia

O principal ponto de preocupação da Engenharia Nacional é que o REDATA abdica de usar o mercado interno como alavanca para o desenvolvimento da indústria nacional de TIC, uma abordagem oposta à de outros países.

JurisdiçãoExigências de Conteúdo Local e Transferência de TecnologiaComo o REDATA se Compara
ChinaA transferência de tecnologia e know-how é uma exigência de facto para acessar o mercado, muitas vezes via joint ventures (parcerias obrigatórias) com parceiros locais.O REDATA reduz a zero os impostos federais sobre a importação de servidores e equipamentos. Isso incentiva a importação, fazendo com que 70% a 80% do investimento inicial (CAPEX) retorne imediatamente ao exterior.
Rússia & ÍndiaAmbos possuem fortes campanhas (Rússia) ou iniciativas (“Make in India”, na Índia) que incentivam/exigem a fabricação local de equipamentos e a priorização da mão de obra e dos fornecedores locais.A isenção fiscal do REDATA é vista como uma política de “abertura indiscriminada”, que condena a engenharia brasileira a um papel secundário de mera instaladora de tecnologias estrangeiras.

3. Exigências de P&D e Contrapartidas

JurisdiçãoExigências de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)Como o REDATA se Compara
Modelos SoberanosPaíses que desenvolveram capacitação própria em infraestrutura digital exigiram percentuais significativamente maiores em P&D local e parcerias obrigatórias com universidades e institutos de pesquisa nacionais.O REDATA exige que a empresa beneficiada aplique 2% do valor dos equipamentos adquiridos em projetos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) no país.
Avaliação CríticaO percentual de 2% do REDATA é considerado insuficiente para fomentar um ecossistema robusto de inovação em engenharia, computação e TI.As entidades de engenharia veem essa contrapartida mínima como uma transferência líquida de recursos (subsídios fiscais, energia e infraestrutura) com retorno tecnológico mínimo.

4. Sustentabilidade e Eficiência Energética (Onde o REDATA Se Destaca)

A área de alinhamento com as melhores práticas internacionais, especialmente as europeias, está nas exigências ambientais.

  • Uso de Energia Limpa: O REDATA estabelece a exigência de uso integral de fontes renováveis ou limpas com zero emissão de carbono para suprimento elétrico. A União Europeia também está na vanguarda, exigindo métricas rigorosas de eficiência energética e o uso de energias renováveis.
  • Eficiência Hídrica (WUE): O REDATA impõe um patamar rigoroso de eficiência hídrica, exigindo que os projetos consumam no máximo 0,05 litro de água por kWh em seus sistemas de resfriamento. Este índice é considerado realista para novas construções com sistemas fechados e é significativamente mais rigoroso do que os data centers mais antigos (cujo índice pode variar entre 1,0 e 1,8 litro por kWh).
  • Compromissos Reduzidos: Os compromissos (incluindo P&D e destinação ao mercado interno) são reduzidos em 20% para empresas localizadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o que busca promover a desconcentração regional e equilibrar oportunidades.

5. Comparação com Competidores Regionais (Chile e México)

Executivos do setor de data centers destacaram que a urgência na aprovação do REDATA é crucial para que o Brasil não perca a competitividade frente a outros países da América Latina que já estão oferecendo incentivos.

  • Chile e México: Estes países já oferecem tarifas zero ou quase zero para a importação de equipamentos, o que reduz significativamente o custo de investimento para as empresas de data centers.
  • Tempo de Conexão: O Chile se destaca por autorizar obras de reforço energético em até seis meses, enquanto o Brasil pode levar até 18 meses para a conexão à rede elétrica. O REDATA, ao reduzir custos de capex, é visto como um “divisor de águas” para tornar o Brasil mais atraente.

Em resumo, a crítica da Engenharia Nacional é que, embora o REDATA busque a sustentabilidade e a atração de investimentos, ele falha em copiar a parte mais importante das políticas internacionais estratégicas: a exigência de absorção de tecnologia e o uso do mercado como ferramenta para desenvolver a capacitação e a indústria local.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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3 Comentários
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  1. Paulo Dantas

    31 de outubro de 2025 8:01 am

    Este site è o único entre os de notícias gerais que discute os assuntos sem fazer farofa.

    Tem o link do artigo citado ? Não achei pelo Google.

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    31 de outubro de 2025 11:28 am

    Na verdade tem muito mais para ser discutido.
    O Tribunal Penal Internacional, por exemplo, parou de usar produtos da Microsoft porque estava correndo o risco de ser espionado, sabotado e eventualmente desabilitado a pedido do governo Trump.
    Algum tempo atras alertei o CNJ desse risco, mas ninguém lá quer me dar ouvidos. Eu sou irrelevante (tão irrelevante que eles bloquearam meu acesso ao Portal de processos para me impedir de prejudicar o balcão de negócios das Big Techs norte-americanas no Poder Judiciário). A arrogância dos “manos togados” é gigantesca demais. Mas eu não sou menos persistente: já representei o Brasil na Comissão de Direitos Humanos por causa desse bloqueio e pedi uma medida cautelar.
    De qualquer maneira, o problema enfrentado pelo TPI não é diferente do risco à que estão expostos os Tribunais brasileiros. Que soberania tem um país cujo sistema de justiça pode ser espionado, sabotado e/ou desabilitado a mando de um governante estrangeiro? Nenhuma.
    O Brasil precisa ter seus próprios datacenters e precisa desenvolver aqui mesmo a tecnologia indispensável ao funcionamento de sua infraestrutura estatal (a infraestrutura judiciária incluída).

  3. José Machado

    31 de outubro de 2025 1:11 pm

    Nassif, gostaria de pedir seu apoio para divulgação da necessidade de exigência da
    Nota Fiscal para os gastos públicos.
    Hoje em dia é tranquilamente é possível a instalação de um portal da Nota Fiscal de Pagamentos, para todo
    o setor público. E também parte do setor privado que recebe dinheiro público ou empresas mistas. Enfim, de todas entidades
    que recebem recursos públicos e são obrigados (pela Lei Orçamentária e pelo Direito Financeiro) a prestar
    contas dos gastos do dinheiro público (o que já é obrigatório nas Leis do país).
    A Nota Fiscal de Pagamentos é a antitíse da Nota Fiscal exigida a todos que prestam serviçoes ou vendem produtos.
    É o fechamento do círculo, do processo fiscal tributário do Setor Público.
    Se exigem de toda entidade Nota Fiscal para Fiscalizá-lo, de modo a pagar impostos (sob pena de crime de
    sonegação fiscal) sobre esse atividade para entregá-lo ao tesouro Municipal, Estadual ou Federal, não é por demais lógico exigir
    que a entidade pública também seja obrigada a emitir Nota Fiscal (com o mesmo fim fiscal e penal, de modo igual)
    da destinação do uso desse dinheiro.
    Não é possível que prefeituras, órgãos, governadorias e empresas que fazem uso do dinheiro público não sejam
    obrigadas a emitir uma simples nota fiscal a quem ele está gastando esses recursos.
    Isso pode ser implementado de forma muito simples em um portal nacional que atendesse a todo setor público de modo
    completo.

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