8 de junho de 2026

EMAE e o golpe das privatizações de Tarcísio de Freitas, por Luís Nassif

É padrão: aquisição de controle com participação minoritária, decisões financeiras controversas e impactos diretos sobre serviços públicos
Divulgação EMAE

A onda de privatizações no Brasil tem seguido um roteiro que, embora legalmente estruturado, levanta sérias questões sobre governança, transparência e o papel do Estado em setores estratégicos. Casos como os da EMAE, Eletrobras e Sabesp revelam um padrão: aquisição de controle com participação minoritária, decisões financeiras controversas e impactos diretos sobre serviços públicos essenciais.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O Modelo em Três Atos

  1. Blindagem ideológica
    A mídia reforça a narrativa de que empresas estatais são ineficientes, enquanto privatizações são sinônimo de modernização e progresso. Essa construção simbólica prepara o terreno para a aceitação pública da venda de ativos estratégicos.
  2. Arquitetura financeira sofisticada
    O controle das empresas é adquirido com uma fração do capital total, por meio de estruturas como fundos de investimento, debêntures e garantias cruzadas. O caso da EMAE é emblemático: o Fundo Phoenix FIP comprou 30% da empresa por R$ 1 bilhão, usando ações da Ambipar como garantia — ações que, segundo a CVM, foram artificialmente valorizadas.
  3. Rapinagem sobre o caixa e os ativos
    Após assumir o controle, os novos gestores priorizam distribuição de dividendos, desmonte de ativos ou investimentos em empresas do próprio grupo, em detrimento da qualidade dos serviços. A EMAE, por exemplo, investiu R$ 250 milhões em títulos da Light S.A., empresa ligada a Nelson Tanure, e emprestou R$ 10 milhões à Milos Participações, também associada a ele.

O caso EMAE

Tome-se o caso Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), a primeira privatização do governador Tarcísio de Freitas. O leilão foi realizado na B3 em 19 de abril de 2024. O vencedor foi o Fundo Phoenix FIP, controlado pelo notório Nelson Tanure.

Estudos do próprio governo paulista haviam apontado para um valor potencial de R$ 10 bilhões, em caso de venda da companhia. No entanto, o controle terminou vendido por pouco mais de R$ 1 bilhão, um ágio de 33,68% sobre o preço mínimo, saudado pela mídia como prova do sucesso das privatizações de Tarcísio.

Antes disso, uma análise técnica da CVM (Comissão de Valores Mobiliários)  apontou um “movimento orquestrado” entre Tanure, o Banco Master e Tércio Borlenghi Junior (controlador da Ambipar) com o objetivo de elevar o preço das ações da Ambipar. Essa valorização favoreceu a constituição da garantia (ações da Ambipar) para o financiamento da aquisição do controle da EMAE, que foi de cerca de R$ 1 bilhão, por 30% de seu capital. Ou seja, um golpe – da valorização artificial da Ambipar – garantiu a compra do controle da EMAE.

Tanure assumiu o controle da EMAE em outubro de 2024. Imediatamente tratou de se apossar do caixa da companhia

* Em fevereiro de 2025, a EMAE fez um empréstimo de R$ 10 milhões para a Sociedade Milos de Participações, apontada como controlada indiretamente por Tanure.

* Depois, anunciou um investimento de R$ 250,4 milhões em títulos de dívida da Light S.A., empresa que tem Tanure como um dos grandes acionistas.

Antes da privatização, a EMAE tinha R$ 400 milhões em caixa. Um ano depois, o caixa estava zerado.

Em setembro de 2025, o Fundo Phoenix não pagou a primeira parcela de remuneração das debêntures. A Vórtx Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, agente fiduciário dos credores da EMAE, moveu ação judicial acusando Tanure de esvaziar o caixa da companhia. 

Como consequência, os credores (Fundo Macadâmia/XP e Vórtx) decretaram a execução antecipada da dívida de R$ 520 milhões, financiados por debêntures, executando as garantias. O controle da empresa acabou sendo adquirido pela Sabesp por R$ 1,13 bilhão.

A EMAE é considerada uma empresa estratégica para o estado de São Paulo, atuando no sistema hídrico e na geração de energia, incluindo as usinas de Henry Borden e os reservatórios Billings e Guarapiranga.

Eletrobras: O Caso da Influência Desproporcional

A privatização da Eletrobras em 2022 reduziu a participação da União de 65% para 43%, mas com poder de voto limitado a 10%. A 3G Radar, com apenas 1,3% do capital, passou a influenciar decisões estratégicas. A modelagem da privatização foi criticada por permitir que minoritários exercessem controle efetivo, sem contrapartida proporcional de responsabilidade ou investimento.

Sabesp: Valorização Rápida, Crise Hídrica Lenta

A Equatorial Energia tornou-se investidora de referência da Sabesp com apenas 15% das ações, adquiridas por R$ 6,9 bilhões. A valorização de 130% das ações foi celebrada como sucesso, mas a crise hídrica de 2025 expôs fragilidades: redução de pressão em áreas periféricas, dificuldade de resposta emergencial e dúvidas sobre a priorização do lucro frente ao bem-estar coletivo.

🔍 Comparativo dos Casos

EmpresaParticipação no ControleValor da AquisiçãoImpacto Estratégico
EMAE30%R$ 1 bilhãoEsgotamento de caixa, judicialização
Eletrobras1,3%R$ 33,7 bilhõesRedução do poder estatal
Sabesp15%R$ 6,9 bilhõesCrise hídrica, desigualdade regional

Reflexões Finais

A privatização, quando feita com transparência, planejamento e foco no interesse público, pode ser uma ferramenta legítima de modernização. No entanto, os casos recentes no Brasil mostram que o modelo adotado tem favorecido grupos financeiros em detrimento da sociedade. O controle com participação minoritária, aliado à fragilidade regulatória, tem permitido práticas que comprometem a sustentabilidade dos serviços públicos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

10 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Rui Ribeiro

    28 de outubro de 2025 8:09 am

    Tarcísio é Bostonarista. Não há muito o que se esperar de um Bostonarista, exceto fezes.

    “Inocentes mortos
    ‘Papai tá aonde?’: quem eram os 2 mortos em GUERRA de facções no Rio”

    https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/10/28/quem-eram-os-2-mortos-em-guerra-de-faccoes-em-costa-barros-papai-ta-aonde-perguntou-filho-de-vitima-ao-avo.ghtml

    “Se morrer alguns inocentes, tudo bem. Em toda GUERRA morre inocente”. – Jair Bostonaro

    Esperar o que do Bostonaro e dos Bostonaristas?

    1. Giuliano

      21 de novembro de 2025 9:50 pm

      Grande CEO este Tarcísio, nao sai dos corredores dos Bancos na Faria Lima, acho só para aproveitar e tomar um cafezinho.

  2. Luiz

    28 de outubro de 2025 1:47 pm

    O site/portal parece com defeito (monte de letrinhas e números) quando se acessa. Muita dificuldade para chegar até aqui. Problemas com banco de dados? Certamente você e o seu pessoal desconheça a situação.

  3. Georges

    29 de outubro de 2025 12:13 am

    Políticos tornaram- se meros estelionatários nessa terra. Moral e vergonha na cara, o resto que ainda existia, se acabou. Viramos um imenso mercado de peixes, só que são apenas de peixes podres.

  4. Luis Carlos Ferraro

    29 de outubro de 2025 8:00 am

    E muito fácil vc sentado no escritório com ar condicionado
    com Palmilhas prontas do ocorrido, e possível mente
    O que ocorrerá no futuro.E fácil vc defender uma ideologia, sua vontade de ver,vontade de ver principalmente seus ganhos
    De Coração gostaria muito se o senhor com sua inteligência,
    conhecimentos, ideologias,
    teria coragem de fazer suas análises comparativas e de preferência presencial. sem só pensar em um lado

    Vc fala de Sabesp , ok vamos falar de água , pura na torneira e esgoto tratado.
    E fácil vc pegar está empresa debruçar em seus dados e junto com os sindicalistas fazer suas críticas.
    Faça hoje começa agora
    Vamos falar dos últimos 20 anos
    faça um comparativo
    O que a Sabesp fez sendo uma sociedade mista até.

    Com o atual governo, e sindicatos de caminhão pipa
    sindicatos de todos os outros nomes.
    São 7.300 dias para vc debruçar e analisar friamente e nos apresentar o que o certo
    Por favor verifique o que e possível fazer em 7.300 dias
    E pelo visto todos querem inclusive o povo quer que fica do mesmo jeitinho.

    Se seca existe a milhares de anos

    Tem povo que construíram
    Pirâmides em deserto
    Tem gente que vive a milhares de anos em terra secas.

    Nós no Nordeste tem abundância de água para acabar com esta compra de votos que é a seca.
    Faça um favorzinho ao povo Brasileiro. Faça sua parte certa e com justiça.
    E com certeza será mais informativo e o Sr e capaz

    1. EDUARDO

      6 de novembro de 2025 8:13 am

      Falou nada com nada, apresente dados concretos em vez de mímimi.

  5. ANTONIO RAIMUNDO CHAGAS MAGALHÃES

    29 de outubro de 2025 9:02 am

    Os Correios não foram privatizados. Prestam, também, serviços públicos e estão aí sendo roubados dia sim, dia sim. Na mão do governo só, somente só, saúde, educação e segurança. Nada mais.

    1. Rui Ribeiro

      30 de outubro de 2025 9:16 am

      A Vale foi privatizada. A população de Brumadinho agradece.

      O que a humanidade precisa não é de privatização é de desprivatização, nós precisamos é socializar os meios de produção

  6. José Machado

    30 de outubro de 2025 4:05 pm

    Tirem todas empresas públicas do mercado financeiro.
    Fechem o capital de todas.
    E coloquem longe desses bandidos do mercado financeiro.

  7. EDUARDO

    6 de novembro de 2025 8:10 am

    Absurdo aceitarem ações nesse tipo de negócio, rapinagem total, ou seja o cara pagou na SMAE apenas 30% do valor mínimo depois zerou o caixa da empresa ou seja ficou de graça e ainda embolsou cerca de 100 milhões , isso não eh golpe e onde entra o Paulo Guedes e o MP nessas histórias ?

Recomendados para você

Recomendados