20 de maio de 2026

A geleia geral da política, entre o autoritarismo ou o democratismo, por Luís Nassif

As próximas eleições dividirão os candidatos entre os com e os contra o Centrão. Essa será a divisão principal.
René Magritte

À medida que 2026 vai se aproximando, ficam mais nítidas as apostas para as próximas eleições.

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Há uma constatação e várias hipóteses de se trabalhar com elas.

A constatação é o esgotamento do presidencialismo de coalizão, esse remendo de parlamentarismo que foi destroçado pelo governo Temer – um dos comandantes do Centrão –  e, depois, pelos militares que comandaram o governo Bolsonaro – ao entregar totalmente o controle do orçamento  ao Centrão.

As próximas eleições dividirão os candidatos entre os com e os contra o Centrão. Essa será a divisão principal. Mas, paralelamente, mesmo aqueles que se apoiam no Centrão tratarão de buscar reforço em outras forças. 

Quando se analisa o espectro de forças do país, o quadro é desalentador. À direita, há um conjunto de forças sem um projeto próprio, mas à disposição do primeiro aventureiro que se disponha a oferecer no menu um simulacro qualquer de ideologia.

São elas:

  • os evangélicos e suas pautas morais;
  • os ruralistas, buscando discurso para transformar seu poder econômico em poder político;
  • o bolsonarismo tosco.

Eles disputam corporações, ansiosas por ampliar seu espaço na máquina pública:

  • os militares, ainda bebendo no espírito da guerra fria;
  • as Polícias Militares, convertendo-se cada vez mais em poder político miliciano;
  • os Ministérios Públicos, deitando e rolando sobre a ausência do Conselho Nacional do Ministério Público e nostálgicos do poder adquirido nos tempos da Lava Jato;
  • o Poder Judiciário, majoritariamente conservador, e mais preocupado com as benesses corporativas;
  • as federações empresariais, dominadas pelo baixo clero e por sindicalistas de carreira.

Nessa geleia geral, aparecem candidatos a um projeto autoritário de país, capaz de superar o garrote do Congresso.

Por enquanto, são basicamente dois: Ciro Gomes e Aldo Rebelo.

Ciro faz uma crítica radical consistente, mas se queimou vítima do próprio temperamento e por não conseguir explicitar claramente o caminho para a governabilidade. Julgava que com um discurso racional e com a força de vontade conseguiria empalmar multidões para derrubar as barricadas do Centrão. Provavelmente já perdeu o bonde da história.

Já Aldo busca, claramente, um partido da ordem, baseado nas Forças Armadas e nos ruralistas mais radicais, fundado na volta do sonho do “país grande”. Seus símbolos maiores são os bandeirantes, agora transmutados em pecuaristas e garimpeiros explorando a floresta amazônica contra os “inimigos”: as ONGs estrangeiras e as reservas indígenas. É um negacionista, mas com um conjunto articulado de ideias.

Em plena efervescência do bolsonarismo, com multidões de aloprados cercando os quartéis, Aldo divulgou um vídeo significativo do que ele pretende. A primeira cena eram multidões enraivecidas espalhando o caos, derrubando militares de seus cavalos. A cena seguinte eram militares alinhados e batendo continência… para ele, Aldo, passando a tropa em revista.

Hoje, ele não tem expressão política. Mas pode crescer.

Não se tenha dúvidas de que uma das bandeiras principais desse autoritarismo dito esclarecido será o combate ao presidencialismo de coalizão através do pacto com o pendor autoritário dessa mescla militares-ruralistas.

Já Tarcisio de Freitas faz a mistura mais ampla e objetiva, o que de mais próximo se tem para transformar definitivamente o país em uma republiqueta latino-americana

Arma-se de alianças com o bolsonarismo mas, ao mesmo tempo, busca assumir a liderança da direita. Não tem nenhum escrúpulo em apelar aos grandes negócios de Estado para construir alianças. Foi o caso da privatização da Sabesp, que o habilitou a candidato do capital financeiro. Ou os negócios privados, como a operação de venda de fazenda de instituto de pesquisa a empresa com a participação de Paulo Skaf, o empresário que permitiu a captura  da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) pelo pequeno empresariado.

Paralelamente, Tarcísio cultiva relações próximas com o poder militar, através da transformação da Polícia Militar em milícia armada, e abrindo mercado para militares da reserva, com a militarização da rede pública de ensino, ou permitindo a participação de empresas de militares nos grandes negócios públicos – como fez no comando do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura Terrestre). Ao mesmo tempo, negocia sem pudor – e sem aparecer no noticiário – as emendas parlamentares na Assembleia Legislativa.

Nesse quadro trágico, há um país cosmopolita totalmente disperso, espalhado entre as universidades, o que resta de empresariado mais consciente, alguns centros de pensamento, uma classe média mais intelectualizada, algumas nesgas de racionalidade que o atual governo preservou, em meio à necessidade de pacto com o Centrão.

A mídia e os chamados liberais já desistiram de sua estratégia de se valer da televisão para transformar almofadinhas em lideranças populares. E as décadas de antilulismo os impedem de ver quem Lula efetivamente é: uma liderança de centro, empenhado em reconstruir políticas estruturantes, mas sem nenhuma energia para romper com os dois nós górdios do país: o controle do orçamento pelo Centrão e da política monetária-fiscal pelo mercado. E sem pique político para construir o sonho do futuro.

O futuro está avançando em várias frentes do governo. Mas, sem um quadro claro, sem um pacto maior com as forças modernas do país, poderá naufragar de novo na primeira derrota eleitoral ou na perpetuação do democratismo estéril atual.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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7 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    6 de maio de 2025 9:13 am

    China e EUA disputam o Brasil de maneira desigual. Enquanto a China é o principal parceiro comercial externo do nosso país e garante os lucros dos exportadores de grâos, os norte-americanos exercem um poder desproporcional sobre a mídia brasileira. Existe um verdadeiro abismo entre o que o país realmente precisa (se reindustrializar) e aquilo que o Brasil quer, continuar ser um fazendão que alimenta os rentistas. A raxa de juros decidirá a eleição? Esta é uma pergunta pertinente, Nassif. Existem dois tipos de eleitores: aqueles que votam nas urnas e aqueles que tem poder econômico para cancelar o resultado delas. Dilma Rousseff foi eleita pelo povo e perdeu o mandado porque o mercado (eufemismo para um punhado de banqueiros e especuladores picaretas) queria algo diferente. Bolsonaro assustou parte do mercado, mas os rentistas só conseguem pensar nas suas rendas e se sentem ameaçados só de pensar que o fazendão com juros altos pode ser substituído por um país industrializado com juros baixos. O Brasil virou um país nem, nem: nem pode ter futuro, nem pode ficar preso no passado. E isso o torna uma presa fácil para a mídia gringolizada, que deseja candelar a democracia para preservar o fazendão que alimenta os rentistas com juros. A China precisaria reagir, mas ela não parece muito disposta a colocar dinheiro na mídia alternativa brasileira. Isso talvez seja um problema.

    1. Edemilso

      6 de maio de 2025 11:02 am

      Me lembro de um excelente artigo do saudoso André Araújo, onde ele abordava o poder político dos oligopólios na economia brasileira. Dilma tinha usado os bancos públicos para trazer os juros para níveis civilizados e as grandes empresas, ao perderem receita de tesouraria, não aceitaram. Se reuniram e combinaram de aumentar os preços, gerando inflação artificial. Ali começou o fim do governo Dilma

  2. FCA

    6 de maio de 2025 10:55 am

    Presidencialismo de coalisão era aquele onde os parlamentares recebiam R$ 30.000,00 por mês ?

  3. Jotátátá.marcelololo

    6 de maio de 2025 11:12 am

    Tudo isso.acontece pq para coordenar as Instituições e o País em geral precisa de VERDADEIROS GESTORES PÚBLICOS,agora tudo virou negócio,quadrilhas empresariais se apossam das estruturas e verbas públicas com o objetivo de lucrar,ng investe,inova,tem casos na saúde de sp q a EFICIÊNCIA caiu muito nos postos,há relatos q na periferia de sp a GCM já está OPRIMINDO a população,não há uma coordenação pública isenta de interesses específicos e baseado no bem estar geral da população,desculpem mas este comentário meu é BRUTALMENTE cirúrgico,nunca dará certo a raposa tomar conta dp galinheiro !!! Detalhe e ng pode falar nada tb shiiiii,silêncioooo,vamos meter a mão no dinheiro e tudo é culpa do Lula,Dilma e o PT !!!

  4. Paulo Dantas

    6 de maio de 2025 12:33 pm

    Ciro derreteu como Chicabom no sol quente.

    Aldo Rebelo, sério ?

  5. fabricio coyote

    6 de maio de 2025 3:33 pm

    E pensar que quem fundou o PDT fora Brizola e Abdias do Nascimento. é a derrocada da social democracia à brasileira, uma vez que o projeto de educação é piada, pois lula só pensa em bancos e mercado de juros, temos 29% da população com analfabetismo funcional. Brizola e Abdias possuíam uma visão de estadista.

  6. Silvio Torres

    7 de maio de 2025 3:59 am

    Pela insistência da mídia em tentar transformar o golpe no INSS em algo como o mensalão, fica claro que ela já está preparando o terreno para alguém. Só temos que descobrir quem é esse novo Collor/Serra/Aécio/Alckmin/Temer/Bolsonaro.

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