O boicote de Campos Neto e a incógnita Haddad, por Luís Nassif

No mundo prático, a vitória será total de Campos Neto, ajudando, sozinho, a inviabilizar um governo eleito por milhões de cidadãos.

A estratégia de Lula, para enfrentar uma conjuntura amplamente desfavorável, consistia nos seguintes pontos:

  1. Acalmar as Forças Armadas, com a indicação de um Ministro da Defesa anódino.
  2. Acalmar a Câmara negociando continuamente com Arthur Lira e administrando as demandas do Centrão.
  3. Definir uma estratégia econômica para atuar em estrada estreita, visando acalmar o mercado.

Em cima dessa estratégia, o ministro da Fazenda Fernando Haddad definiu seus movimentos. Consistiu nos seguintes pontos:

  1. Definir uma nova âncora fiscal, o Arcabouço, com um pouco mais de flexibilidade em relação à Lei dos Tetos.
  2. Trocar o limite de gastos por metas de superávit, confirmado no aumento da arrecadação, através da redução de subsídios e de espaços para engenharia tributária.
  3. Promover uma aproximação com o mercado, visando reduzir as desconfianças,

Reduzidas as desconfianças, tiraria os principais argumentos do Banco Central, para manter a Selic no nível atual. Haveria pressão de todos os agentes econômicos, obrigando Roberto Campos Neto e reduzir a Selic.

A estratégia foi brilhantemente executada. Eliminou o catastrofismo alimentado pelo mercado, conseguiu a aprovação dos grandes players internacionais, refletida no aumento do ingresso de dólares no país. Simultaneamente, houve uma redução nos preços, um aumento da popularidade de Lula, mesmo antes dos impactos do novo Bolsa Família.

Hoje em dia, há uma frente contra os juros altos, formada por bancos, empresas varejistas, federações do comércio, indústria e agricultura, associações de pequenas empresas, em uma unanimidade poucas vezes vista contra os abusos da Selic.

No anúncio da estratégia, apontamos dois riscos centrais: o primeiro, a dificuldade em retirar subsídios de grandes empresas; a segunda, a dificuldade em abrir a cabeça de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central. A primeira frente está sendo bem enfrentada. O problema é o fator Campos Neto.

Havia duas hipóteses para a insistência de Campos Neto em manter os juros em níveis extravagantes. A primeira, a supina ignorância em política monetária e no papel do BC. A segunda, a de ser um agente com a missão de boicotar um governo que, em que pese todas as limitações que enfrenta, acabou com o saque ao Estado, com a privatização selvagem e, dando certo, podendo trazer de volta políticas desenvolvimentistas. De fato, com dois anos segurando a Selic na casa dos dois dígitos, Campos Neto matará qualquer possibilidade de reeleição de Lula ou de eleição de um candidato seu.

Com a decisão de hoje, de manter a Selic intocada, robustece-se a hipótese de um boicote intencional da parte do BC, em uma quadra da economia com quebradeira generalizada de empresas de vários tamanhos, com uma crise que atinge todo o comércio varejista e todos os setores que dependem de financiamento.

Ao mesmo tempo, com esse nível de Selic, o serviço da dívida pública consumirá o equivalente ao segundo orçamento de ministérios, perdendo apenas para os gastos da Previdência.

Qual será a saída? Mesmo com a ida de Gabriel Galípolo para a Diretoria de Política Monetária do BC, não há nenhum sinal do BC de iniciar a queda de juros. Mesmo se iniciar, o atraso será tão grande que levará no mínimo dois anos para a Selic voltar à casa de um dígito.

Em algum momento, o governo Lula terá que agir politicamente, negociar com o Congresso e retirar essa independëncia absurda, que joga os destinos do país nas mãos de burocratas que não prestam contas a ninguém.

No futuro, haverá o reconhecimento de que Haddad venceu a discussão teórica, com a história dando a Campos Neto a devida classificação de pior presidente do BC da história. No mundo prático, a vitória será total de Campos Neto, ajudando, sozinho, a inviabilizar um governo eleito por milhões de cidadãos.

Luis Nassif

15 Comentários

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  1. ” … burocratas que não prestam contas a ninguém.” Erro fatal, cometido em análises econômicas e tantas outras, pois sabe-se muito bem a quem ele é seus congêneres prestam vassalagem.
    Quanto à avaliação “No futuro, haverá o reconhecimento…” talvez não estejamos mais aqui…

  2. Para beneficiar um punhado de parasitas sociais, o $ujeito prejudica uma Nação inteira. Isso me faz lembrar de um trecho da música “People get ready”: There ain’t no room for the hopeless sinner who would hurt all mankind just to save his own

  3. “Não podemos nunca relaxar no combate à inflação”, diz presidente da Febraban.
    Podemos relaxar sempre no combate às taxas de juro estratosféricas? Os efeitos colaterais do medicamento para combater a inflação é pior do que a doença.

  4. Erraram feio os integrantes da cúpula do PT e da campanha, que não avisaram a Lula que a autonomia do Banco Central foi votada pelo Congresso em fevereiro de 2021, quando ninguém poderia prever o resultado da eleição presidencial dali a 20 meses – aliás, era muito grande a chance de Bolsonaro ser reeleito, o que só não aconteceu por um triz – que não haveria chance dessa autonomia ser revertida e que o presidente do BC era um bolsonarista totalmente indiferente às estratégias políticas do governo de centro-esquerda.
    Sendo assim, se tem de lidar com as circunstâncias, como sempre, aliás, na história do mundo. O mercado, através das taxas de juros futuras já bem baixas, e o próprio BC sinalizam o início do ciclo de baixa dos juros a partir de agosto. É com isso que o governo Lula tem de se virar. Além disso, é cedo demais para qualquer conjectura sobre as eleições de outubro de 2026.

  5. O Banco Central, neste momento, é o elemento mais inflacionário que temos no mercado

    A atual taxa de juros SELIC, no atual patamar, na realidade, serve como indutor da inflação e não seu controle.
    No caso, tendo como pressupostos que não há inflação de demanda e que o mercado de crédito e disponibilidade monetária acham-se restritos, seria possível afirmarmos, sem grandes dúvidas, que, neste cenário, na realidade temos que passar a nos preocuparmos com o componente deletério da manutenção da taxa de juros em níveis elevadíssimos, ou seja, temos que nos preocupar com seu papel de componente preponderante nos custos inflacionários.
    É que, se num dado cenário, temos de um lado um grande volume de crédito e disponibilidade monetária existentes, e de outro, uma quantidade limitada de produtos à disposição, efetivamente podemos ter a ocorrência da denominada inflação de demanda.
    Neste caso, consoante o receituário liberal econômico, o combate em face do aumento das taxas inflacionárias, pode ser feito via elevação das taxas de juros, de modo a enxugar os valores tanto do crédito, como o da disponibilidade monetária dos consumidores do referido mercado.
    Por outro lado, quando não há mais o componente de excesso de crédito e disponibilidade monetária, e a oferta dos produtos mostra-se razoavelmente equilibrada, temos que , eventual manutenção do aperto monetário, via taxas de juros elevadas, terá o efeito contrário ao desejado, notadamente se a inflação encontra-se em níveis inferiores a um terço do montante de juros
    Nesse caso, a taxa de juros passa a funcionar como verdadeiro indutor da inflação, uma vez que passa a fazer parte integrante do custo dos produtos ofertados, criando uma espiral desvirtuosa do processo econômico, não tendo mais efeito de controle, mas sim passa a ser fator de desequilíbrio do mercado, gerando além de possível efeito recessivo, um resíduo nefasto que alimenta de forma direta o aumento ou manutenção, em parte, dos índices inflacionários,ora reduzidos.
    Pois bem, é exatamente o que estamos vivendo neste momento, em que a política de juros altos por um largo período já enxugou o dinheiro do mercado, não há mais inflação de demanda, e a inflação residual encontra-se em patamares reduzidos frente a uma taxa de juros mais de três vezes maior.
    Em termos leigos, poderíamos dizer, em relação ao receituário econômico liberal, que o remédio está matando o paciente.
    O Banco Central, neste momento, é o elemento mais inflacionário que temos no mercado.

  6. Há uma terceira opção: Fiel representante dos pilhadores dos recursos públicos baseados na Faria Lima, o gafanhoto-mor extende ao máximo a temporada de butim e depois salta fora.

    Não sou tão catrastrofista quanto o Nassifão. Acho que o Lula fatura mais essa.

    Por fim, a duras penas, um a um os totens do neoliberê geral vão caindo. Bobby Fields III, o corsário, vai ajudando a demolir o mito da independência do BC.

  7. Enfim quem vai decidir não só o futuro do governo Lula mas do próprio país é o Senhor Crise, como disse o Nassif. Talvez só quando o tsunami dp crédito bater no setor financeiro, este vá pra cima de campos neto pra ele abaixar os juros pro setor financeiro não entrar na fila das quebradeiras. E isso nem.leva em conta o retalho que Lira tentará fazer contra o arcabouço fiscal de Haddad – que me lembra a elite inglesa que acreditava que os nazistas tinham bom senso.

  8. Alguem poderia explicar porque os juros da SELIC entre 06/08/2020 e 17/03/2021 estavam em 2%? Será que a situação da economia estava muito mais favorável do que hoje? Se a inflação mensal medido pelo IPCA estava em 0,24% em agosto de 2020 e agora em maio estava em 0,23%?
    Será por que o desemprego e a miséria estavam crescendo? OU será que foi pra fazer caixa para o governo Bolsonaro e garantir lastro para a reeleição?

  9. Ao manter os juros altos o BC não apenas sabota o governo Lula. Ele está indiretamente estimulando as exportações da China para o Brasil. Portanto, o mínimo que os chineses devem fazer é pagar o salário do presidente do BC e de todos os nóias do COPON que impedem a retomada da industrialização do nosso país. Foi isso que eu pedi hoje ao STF.

    https://www.linkedin.com/posts/f%C3%A1bio-de-oliveira-ribeiro-272376155_peti%C3%A7%C3%A3o-activity-7077681852026658816-fM3s?utm_source=share&utm_medium=member_android

  10. A entrada de Galípolo pode ser bastante positiva, tanto com uma argumentação consistente contrária ao atual nível da taxa Selic, quanto na condição de provável sucessor de Campos Neto. Mais importante ainda será o desejo de muitos dos membros do Copom serem reconduzidos ao cargo de diretor, levando-os a passarem para o lado de Galípolo.

  11. Campos Neto é o fator que permite que se questione a indepência do BC, justamente por agir totalmente fora dos parâmetro do mercado – esse mesmo mercado que sempre defendeu um BC independe – por agir totalmente fora de qualquer parâmetro possível de ser verificado.

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