10 de junho de 2026

O desafio de criar a moeda do BRICS, por Luís Nassif

A primeira proposta do BRICS foi criar sistemas alternativos de comércio, que não exigissem pagamento em dólares. Trata-se de um desafio

O BRICS e o banco do BRICS são duas ótimas oportunidades de parceria para o Brasil. Mesmo porque, a geopolítica da China é a da colaboração e da integração de mercados. E o desmanche da ONU criou um enorme vácuo para mediação e apoio ao desenvolvimento.

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Mas a moeda do BRICS ainda é um sonho distante.

A ideia da moeda surgiu depois que os Estados Unidos passaram a utilizar o Swift (o sistema de comunicação de transação em dólares) para retaliar adversários políticos. A partir daí, criou uma instabilidade insolúvel.

A primeira proposta do BRICS foi criar sistemas alternativos de comércio, que não exigissem pagamento em dólares. Trata-se de um desafio, já que o comércio entre países não é equilibrado. Assim, haverá países com saldos e déficits em relação a seus parceiros comerciais.

O dilema exige ou uma moeda comum – como o euro – ou uma moeda referência – como o DES (Direito Especial de Saque), do FMI.

Segundo a Bloomberg, a Rússia propõe uma rede de bancos comerciais que possam conduzir as transações em moedas locais, assim como o estabelecimento de ligações diretas entre bancos centrais. Essas propostas estão contidas em um relatório preparado pelo Ministério das Finanças da Rússia, o Banco da Rússia e a consultoria Yakoc & Partners, de Moscou.

O trabalho recomenda que o sistema multi-moeda precisará “proteger seus participantes de quaisquer pressões externas, como sanções extraterritoriais”.  Propõe também a criação de centros para comércio mútuo de commodities, como petróleo, gás natural, grãos e ouro.

A rigor, a única unanimidade é sobre o uso do sistema de blockchain para custodiar as moedas. Para tanto, está sendo estudado o uso do sistema DLT (Tecnologia de Contabilidade Distribuída). Será muito mais eficiente que o Swift – que é apenas uma rede de comunicação de transações em dólares.

Segundo definição corrente, “a tecnologia de razão distribuída (DLT) é a infraestrutura tecnológica e os protocolos que permitem acesso simultâneo, validação e atualização de registros em um banco de dados em rede. DLT é a tecnologia a partir da qual os blockchains são criados, e a infraestrutura permite que os usuários visualizem quaisquer alterações e quem as fez, reduz a necessidade de auditar dados, garante que os dados sejam confiáveis e fornece acesso apenas para aqueles que precisam”.

O blockchain assegura o controle sobre as transações, mas não resolve o ponto central da moeda de referência. Quando foi firmado o acordo de Bretton Woods, o novo sistema internacional baseava-se em moedas de referência, como propôs John Maynard Keynes, em 1944. A moeda seria utilizada apenas para as transações comerciais, mas cada país conservaria sua própria moeda. A moeda-chave passou a ser o dólar, mas amarrado à cotação do ouro. O dólar passou a ser utilizado como reserva de valor, servindo de referência para a compra de produtos de qualquer país.

Essa preponderância do dólar permitiu a criação de muitos instrumentos financeiros, proporcionando maior liquidez e menor risco e custo de conversão. Falta esse instrumento ao BRICS, uma moeda que funcionasse no bloco da mesma forma que o dólar no Swift. E, sem essa moeda, não haverá desdolarização da economia mundial.

Obviamente, haverá que enfrentar a reação dos Estados Unidos. Como dono da moeda universal, o dólar, o poder de emissão de moeda dá uma vantagem enorme ao país.

Membro do grupo que está estudando a nova ordem mundial, Paulo Nogueira Baptista Jr propõe a criação do que ele denominou e NMR. Seria uma moeda digital, análoga às que estão sendo criadas pelos bancos centrais de vários países.

Sua proposta é dos países participantes constituirem um banco emissoir, a NAMR (Nova Autoridade Monetária de Reserva), responsável por criar as NMRs e emitir títulos referenciados na nova moeda, as NTRs – que seriam integralmente garantido pelos tesouros nacionais dos países participantes.

O primeiro passo seria a criação de uma unidade de conta, uma cesta de moedas em que o peso dos países corresponderia à sua participação no PIB do grupo – poroposta apresentada há tempos por economistas russos. A vantagem é que os NMRs poderiam ser criadas por um grupo restrito de países, aguardando a adesão posterior dos demais.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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15 Comentários
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  1. +almeida

    23 de outubro de 2024 8:43 am

    Apesar da nítida e urgente necessidade de países se livrarem das amarradas norteamericanos, que entendo estar tirando proveito do fato de sua moeda ser a atual moeda referência mundial. Porém, também entendo que pela indisfarçável ganância do Tio Sam, não tardará a surgir as retaliações desesperadas e chantagistas dos atuais donos exclusivos da bola moeda mundial. Então, eu penso que antes de apresentarem ao mundo a opção de moeda criada pelo BRICS, os países devem criar um fortalecido plano de defesa contra o possível e intenso ataque norteamericano de retaliações e ódio explícito.

    1. Roberto italia

      23 de outubro de 2024 6:29 pm

      Euro, Tudo tive comenco no 1951 com o CECA, depois o Ecu no 1979 e o Euro no 2000, Russos e Cines nao tem competencia para fazer do nada uma nova moeda,paises imperialistas com economias fechadas, nao vai funcionar nao, garanto

      1. Anônimo

        30 de outubro de 2024 12:07 am

        É um golpe que tão pretendendo e como criar uma única moeda pra viajar em vários países que loucura não vai dar certo!

    2. Erica

      24 de outubro de 2024 3:41 am

      E já se criaram varias moedas digitais Bitcon e criptos na cara deles.
      Agora se Brasil se unir para criar uma moeda que seja só com paises vizinhos iu mesmo BRICS é o fim…Sendo que a Europa inteira tem o (Euro).
      Até Cripto moeda a Europa já está criando a sua!
      Para eles tudo é possivel já para nós tudo se trava…

  2. Paulo Dantas

    23 de outubro de 2024 12:34 pm

    Um problema é que uns 66% dos Brics adoram rasgar um contrato.

    Um acordo deste precisa de confiança.

    Os novos amiguinhos então pioram as coisas.

  3. ed.

    23 de outubro de 2024 1:32 pm

    É angustiante que algo tão simples de resolver tecnicamente seja tão difícil e complexo para tanto por causa de interesses internacionais que adoecem e complicam a economia mundial (e as pessoas que dela fazem parte, dos privilegiados aos miseráveis): UMA MOEDA MUNDIAL.
    O Euro é o maior exemplo desta possibilidade: criado num dos continentes mais conflagrados por guerras e litígios dos últimos séculos, foi implementado de um DIA PARA O OUTRO (após o necessário e cuidadoso ou até temeroso planejamento).
    Lógico que alguns países não quiseram participar, ou por medo ou por interesses de sua imersão histórica no jogo financeiro, como o Reino Unido.
    O fato é que o tal do câmbio, antigamente necessário pelo relativo isolamento de diferentes povos entre si, hoje é apenas uma bobagem que só interessa a poucos. gerando-lhes riqueza sem produzir efeito econômico prático à sociedade humana (apenas custos e complicações imensas como mascarar valores, preços e competitividades).
    Aí, em vez de uma simplificação única e definitiva, criam-se ainda mais complexidades, como essa dos BRICS que, (diga-se de passagem é então necessária) DENTRO deste quadro patético do monetárismo internacional, baseado em moeda nacional de um país e da multiplicidade de moedas pelo mundo.
    Vou repetir: em termos de mantermos bizarrices desnecessárias para a humanidade mas “essenciais” para interesses de poucos, somos patéticos.

    1. Ricardo Wilson de Oliveira

      23 de outubro de 2024 5:22 pm

      Está certíssimo!

  4. FID

    23 de outubro de 2024 7:45 pm

    O BANCOR proposto por Keynes resolveria esses problemas do balanço de pagamentos. Aplicar uma tecnologia blockchain TRUSTLESS, que impusesse automaticamente as regras estabelecidas, seria a solução ideal e, no fim, essa será a solução adotada, seja pela vontade dos participantes ou pela necessidade imposta pela implosão do sistema financeiro atual.

  5. ed.

    23 de outubro de 2024 11:25 pm

    China é uma economia fechada?
    Imperialista? Não tem competência? O país cujas invenções tiraram o Ocidente da Idade Média? Não sabia!

    1. Moacir Rodrigues de Pontesss

      25 de outubro de 2024 12:46 pm

      Uma economia aberta, porém priorizando o desenvolvimento do país. Um país híbrido, onde “o Governo e o Conselho são comunistas e todo o restante é capitalista”. Já “os EUA não têm amigos, os EUA têm interesses!” E o resto do mundo que se dane!

      1. ed.

        25 de outubro de 2024 5:11 pm

        Sim, este comentário foi em questionamento a outro que afirmava o contrário e ficou desposicionado.

  6. Nivaldo

    25 de outubro de 2024 6:34 am

    Acho que o brincs têm fazer uma moeda com lastros de niobio ou mesmo em ouro pois ouro nunca perde valor ou mesmo em niobio pois já uma vez Brazil detém uma boa margem dessa matéria prima tanto como granfeno niobio têm muito valor. Têm ser moeda 💪 pra fazer frente ao dólar mais mesmo assim ter ser bastante estudado por todos se realmente vale à pena qual valor niobio no mercado.

  7. Moacir Rodrigues de Pontesss

    25 de outubro de 2024 11:08 am

    Um baita desafio realmente! Mas em face do problema (ou enrascada) em em o mundo está metido, não se pode ficar inerte. Não dá, né Uncle Sam!?

  8. ed.

    25 de outubro de 2024 5:25 pm

    O PIB dos BRICS representa 26% do mundo, contra ~29% do G7.
    A população é 40%, um múltiplo do G7, da Europa ocid., da Otan e da OCDE.
    Notar que ela é um múltiplo de qualquer agrupamento fora a África, Am.Sul, África e O.Médio.
    A área é disparada a maior do mundo, com 4 países entre os 7 maiores (fora USA, Can e AUS).
    Por que não criar uma moeda “Bric$” que atenda a ESTE GRUPO já gigante e competitivo em termos numéricos pelo menos para comércio entre si? Um BC Brics que seria implantado nos moldes do Euro, ainda que seus países inicialmente mantenham duas moedas, cotadas em “Bric$”? Que poderia ser uma moeda comum de reserva entre o grupo?
    E aí disputar países fora dos outros grupos (Mercosul, África, ASEAN, etc.) e paulatinamente até com estes grupos (G7, G20, Euro, OCDE, ASEAN, etc.)
    Um novo “Euro”, que seria mais uma moeda forte enfrentando o dólar (e o euro e a libra).
    Gradualmente poderemos chegar à moeda mundial, pois a cesta predominante terá 3 moedas: Dólar, Euro e “Bric” compondo e convertendo as maiores reservas mundiais.
    Uma moeda universal, ex.: Mundis (M$).

  9. Reginald Louis

    26 de outubro de 2024 4:28 am

    Vai ser muito porque um brasileiro trabalha por $100 reais dia um americano trabalha por $100dolares que essa moeda seja criado para igualdade de serviço de cada pessoa por dia nos queremos isso.

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