4 de junho de 2026

O fim do dólar como centro do mundo?, por Luís Nassif

Desdolarização, choque energético e a emergência de uma nova ordem monetária global
Nicku - Dreamstime

O petróleo subiu até 100% em crises recentes, elevando preços do diesel em países emergentes como África do Sul e Chile.
Sanções a Rússia em 2022 aceleraram desdolarização: China e Rússia usam moedas locais e swaps bilaterais para comércio.
Dólar ainda domina reservas globais, mas sistema evolui para múltiplas moedas e ouro, com impacto em investimentos e emergentes.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Durante décadas, o dólar americano foi mais do que uma moeda: foi a espinha dorsal da economia global. Petróleo, dívida soberana, reservas de bancos centrais — tudo orbitava em torno de Washington. Mas algo está mudando, de forma lenta e talvez irreversível. Aqui, um artigo baseado nos estudos da Gavekal, um centro de análises de mercado.

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O Gatilho Energético

A ruptura ficou mais visível, agora, nos mercados de energia. Em períodos recentes de turbulência geopolítica, o petróleo tornou-se o ativo de maior desempenho no mundo — acumulando altas de 70 a 100%, enquanto ações e títulos sofriam perdas. O impacto chegou ao posto de gasolina e ao caminhão de entrega: África do Sul, Filipinas e Chile registraram altas de 50 a 150% no diesel. Sendo o diesel a base do transporte, da indústria e da agricultura, o efeito foi em cascata — inflação de segunda ordem, desigualmente distribuída, com economias emergentes pagando a conta mais alta.

O Que é Desdolarização — e o Que Não É

Desdolarização é a redução gradual da dependência do dólar como moeda de reserva, de precificação e de liquidação do comércio global. Não é o colapso do dólar — é algo mais sutil, e por isso mais duradouro. 

O sistema atual nasceu em Bretton Woods (1944) e foi consolidado pelo ‘petrodólar’ após 1971: quem quisesse energia precisava de dólares; o excedente em dólar voltava para o Tesouro americano. Um ciclo que beneficiou os EUA por décadas.

O que rachou esse ciclo foram as sanções à Rússia em 2022. Ao congelar reservas do Banco Central russo, os EUA enviaram um sinal para o mundo: dólares podem ser confiscados. A resposta foi racional — diversificar. Bancos centrais aceleraram compras de ouro. China e Rússia passaram a comercializar energia em yuans e rublos. A Índia compra petróleo russo em rúpias. A China firmou acordos de swap com mais de 40 países, permitindo comércio bilateral sem passar pelo dólar. O BRICS debate um ativo de reserva comum. Nada disso, isoladamente, derruba o dólar. Mas o conjunto aponta numa direção inequívoca.

“A desdolarização não requer uma única moeda substituta. Ela ocorre pela multiplicação de alternativas — yuan, ouro, moedas locais — que juntas reduzem o papel do dólar.”

Yuan, Ouro e Swaps Bilaterais

O yuan cresce como moeda de comércio, especialmente na Ásia e na África — mas enfrenta um obstáculo: a conta de capital da China é parcialmente fechada. Uma moeda de reserva precisa ser livremente conversível, e Pequim reluta em abrir mão desse controle. Entra o ouro: num sistema sem moeda de reserva única, o ouro funciona como mecanismo de ajuste final entre países com balanças comerciais desequilibradas — sem depender de nenhuma terceira moeda. Os swaps bilaterais completam a arquitetura: dois países trocam suas moedas diretamente, eliminando o ‘pedágio’ do dólar em cada transação. O dólar continua sendo a moeda de referência, mas não mais a moeda de compra.

Consequências Práticas

Para investidores, o portfólio clássico ’60/40′ enfrenta um desafio estrutural: ativos reais — energia, metais, infraestrutura — voltam a competir com ativos financeiros. Para economias emergentes, a desdolarização é uma faca de dois gumes: reduz a vulnerabilidade ao ciclo do dólar, mas pode aumentar a volatilidade num sistema mais fragmentado. 

O Brasil, rico em commodities mas dependente de capital externo em dólar, ilustra bem essa ambivalência. Para os EUA, a perda do ‘privilégio exorbitante’ — financiar-se no exterior a custos baixos — seria custosa. E o paradoxo é cruel: quanto mais Washington usa o dólar como arma geopolítica, mais acelera a busca global por alternativas.

Um Processo, Não um Evento

Previsões sobre o fim do dólar têm histórico lamentável de se revelarem prematuras. O dólar ainda representa cerca de 58% das reservas globais — queda em relação aos 71% de 2000, mas ainda dominante. A transição é lenta e irregular. O que emerge não será um sistema bipolar (dólar vs. yuan), mas um mosaico de blocos regionais com interdependências seletivas. O fator acelerador imprevisível: moedas digitais de bancos centrais, como o yuan digital chinês, podem reduzir dramaticamente o custo do comércio em moedas locais, tornando o dólar dispensável em transações regionais.

O choque energético que vemos nos preços do petróleo e do diesel não é um episódio passageiro — é o sintoma visível de uma transformação estrutural mais profunda. O mundo que emerge dos anos 2020 será menos dependente de uma única moeda, de um único mercado de capitais, de uma única potência. 

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. Rossetto

    3 de abril de 2026 12:21 am

    E as energias não fósseis, renováveis ou urânio, ajudarão selar a hegemonia do dólar.

  2. Jefferson Castro

    3 de abril de 2026 7:16 am

    Nassif, qual seria o impacto da desdolarização na dívida americana e na cotação do dólar? Causaria um aumento da emissão de títulos públicos para enxugar o dólar em circulação? A tendência é de desvalorização da moeda e aumento da dívida?

  3. José de Almeida Bispo

    3 de abril de 2026 9:57 pm

    A nova Liga do Peloponeso está fazendo água.
    Ainda bem que a Milos atual foi a Rússia; entopida de bombas atômicas; e não a infeliz ilha, de 415 a. C..
    O que não significa paz, porque tem um monte de vítimas indefesas. Em situação muito pior que o Irã.

    1. Evandro Condé

      7 de abril de 2026 8:30 am

      Poderia esclarecer um pouco mais?

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