PF investe sobre uma das caixas pretas do mercado: os leilões de Selic, por Luis Nassif

Para operar o mercado, o Banco Central enviava ordens de compra e venda para a Gerof, administrada pelo Banco do Brasil. Era ali que se dava o vazamento das informações que abasteciam especialmente os clientes da Tendências Consultoria

A investida contra o BTG Pactual não mira apenas um dos maiores corruptores da história recente do país, André Esteves. Mas o mais obscuro mercado de insiders do país, o das taxas de juros do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central).

O grande escândalo do Banco Vetor em 1999 foi centrado nas suas operações de câmbio. Soube disso pelo próprio Alberto Cacciola, em um almoço organizado por sua assessoria, para me apresentar o “grande banqueiro” que surgia.

No caso do câmbio, o insider era outro. Para operar o mercado, o Banco Central enviava ordens de compra e venda para a Gerof, administrada pelo Banco do Brasil. Era ali que se dava o vazamento das informações que abasteciam especialmente os clientes da Tendências Consultoria, do ex-Ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. Quando o BC decidiu liberar o câmbio, o caminho óbvio era parar com as intervenções da Gerof. Como o órgão não recebeu nenhuma orientação, nenhuma orientação passou para a Tendências. E seus dois principais clientes quebraram.

Depois disso, houve uma operação de socorro administrada por Chico Lopes, presidente do Banco Central, que me pareceu perfeitamente legítima na época. Os insiders de Cacciola acontecia nos juros, foi o que me ocorreu revendo as anotações da conversa que tive com ele.

Tentei convencer o então Senador Eduardo Suplicy a entrar por esse caminho. Bastaria pegar um estatístico e levantar o número de acertos do Vetor. Em vão.

O fundo Copom

Ao longo desses anos todos, continuaram pairando suspeitas sobre esses vazamentos. E a maior delas foi justamente sobre o fundo Bintang, do BTG Pactual, alvo agora da Polícia Federal. Eram conhecidas as ligações entre Esteves e Palocci. Na época, denunciei na Folha as manobras de Esteves e Antonio Palocci no CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), até ser proibido de continuar.

Segundo reportagem do Valor, de 2012, o Pactual alegava que era um fundo de único proprietário, Marcelo Augusto Lustosa de Souza, que dizia trabalhar há 30 anos no mercado financeiro e, no entanto, era desconhecido.

O fundo começou em agosto de 2010 com patrimônio de R$ 4 milhões e em 25 de abril de 2012 já acumulava R$ 50 milhões.

Em agosto de 2011, quando o BC reduziu a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, o fundo registrou um ganho de 47,77%. Conseguiu R$ 10 milhões de lucro em agosto, e R$ 8,5 milhões em setembro. Em agosto, o Copom inverteu o jogo, reduzindo a taxa Selic. Os mais otimistas apostavam em queda de 0,25 ponto. O Bintang apostou em mais, e ganhou.

Seu maior ganho ocorreu em março de 2011, com uma valorização de 166,39% e aumento de R$ 11,5 milhões em seu patrimônio. Naquele mês o Copom aumentou a Selic em 0,5 ponto. A maior parte do mercado apostava em 0,75.

A investida significa, também, a primeira ofensiva contra o mais influente e poupado ator econômico: os grandes banqueiros de investimento, de Daniel Dantas, do Opportunity a Daniel Estevez, do Pactual. Assim como eles, o XP também entrou no mercado institucional, cooptando Ministros do Supremo e procuradores da Lava Jato. Mas, certamente, em níveis cândidos, perto do estilo de Esteves.

Foi necessário sair dos procuradores da Lava Jato para a Polícia Federal, para cessar a blindagem de Esteves.

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