7 de julho de 2026

Xadrez dos negócios da pandemia e o aval da CGU, por Luis Nassif

É simples entender a operação desastrada de quem organizou um grupo de empresas para adquirir vacinas na AstraZeneca para vacinar seus funcionários, doando metade para o Sistema Único de Saúde.

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Avalie a lógica da compra.

1. A AstraZeneca tem toda sua produção comprometida com países, especialmente da Europa, e Organização Mundial da Saúde. Não há oferta suficiente e a empresa enfrenta pressões pesadas, especialmente de países da União Europeia, devido aos atrasos na entrega. Na 6a feira passada, a Astra Zeneca anunciou um corte de suprimentos para a União Europeia no primeiro trimestre. Alto funcionário da UE estimou uma redução de 60%, para 31 milhões de doses para o bloco.

2. Obviamente, para vender para empresas privadas, a AstraZeneca teria que tirar das encomendas já efetuadas por outros países.

3. São expressivos os lucros para o setor privado. Nas vendas para países, as vacinas são menos de US$ 6 a dose. Para as empresas privadas brasileiras, o valor foi definido em US$ 23,79.

É uma história extremamente mal contada. Consultada, a Astra Zeneca negou peremptoriamente qualquer venda ao setor privado. Se negou, de onde saiu o valor de US$ 23,79, o aval do governo brasileiro e até a quantidade de doses a serem adquiridas?

É por aí que se entende o papel de Paulo Guedes.

A nota oficial o governo brasileiro, avalizando a operação de compra de 33 milhões de doses de vacina pelas das empresas, foi assinada pelos Ministros Wagner Rosário (Controladoria Geral da União), José Levi (Advocacia Geral da União) e Élcio Franco (Secretário Executivo do Ministério da Saúde).

Surpreendentemente, a nota foi copiado para o fundo de investimento Black Rock e para uma firma de exportação chamada BRZ.

Qual a justificativa? O Black Rock detém 8% do capital da Astra Zeneca, mas não dispõe de nenhuma influência sobre a gestão da empresa.

Para entender o Xadrez, é necessário juntar algumas peças.

Peça 1 – Guedes e o negócio do Covid

No dia 4 de abril de 2.020, início da pandemia do Covid no Brasil, Paulo Guedes anunciou bombasticamente – como é de seu feitio – que estava negociando testes em massa para criar um “passaporte da imunidade”. A negociação estava sendo feita com um conhecido de Guedes na Inglaterra.

Percebeu-se a tempo o potencial de escândalo, e a operação foi abortada.

Há tempos, Guedes já tinha percebido o potencial da saúde. Dirigindo o Bozzano Investimentos, antes de assumir o Ministério, investiu em 8 empresas na área de prive equity, cinco na área de saúde e educação.

Matéria do The Intercept desbastava os investimentos de Guedes e trazia uma informação adicional: sua participação da Estapar, a empresa de estacionamento que conseguiu o monopólio na venda de Zona Azul em São Paulo – operação denunciada pelo GGN.

Outro setor prioritário foi o da energia, confiando na privatização do setor. Ao lado da Black Rock, o fundo Bozzano – dirigido por Guedes – participava do capital da Equatorial, a principal candidata à compra da Eletrobras.

Em princípio, nada de suspeição. Apenas elementos para mostrar que Guedes compartilhava da mesma lógica de negócios da Black Rock.

Peça 2 – a Black Rock

Trata-se da maior gestora de investimentos do planeta. Assim que foi confirmada a nomeação de Guedes para a Economia, houve uma entusiasmada reação de Will Sanders, diretor de mercados emergentes do fundo.

“A equipe econômica sendo formada pelo novo governo está seguindo o que esperávamos – atraindo pessoas respeitadas, comprometidas com o plano do futuro ministro Paulo Guedes, e ao mesmo tempo mantendo aqueles que já vinham desempenhando esse papel no governo atual”, declarou em entrevista ao Money Times.

Assim como o amigo londrino de Paulo Guedes, a Black Rock percebeu rapidamente o potencial de negócios trazido pela pandemia. No dia 5 de fevereiro de 2020 adquiriu 8% do capital da Astra Zeneca, confiando em uma tacada, a fusão com a Pfizer. Os controladores da empresa se negaram a fundir.

Peça 3 – a operação de Guedes

A operação montada pelo governo Bolsonaro – com o inacreditável aval da CGU, da AGU e do Ministério da Saúde – foi claramente direcionado para a Block Rock Brasil. Não haveria outro motivo para a nota ser encaminhada a ela e à empresa importadora.

A venda foi nevada pela Astra Zeneca por razões óbvias:

“No momento todas as doses da vacina estão disponíveis por meio de acordos firmados com governos e organizações multilaterais ao redor do mundo, incluindo da Covax Facility não sendo possível disponibilizar vacinas para o mercado privado”, diz a farmacêutica.

Era evidente que o excesso de demanda não conseguia ser atendida pelo laboratório. Essa informação obviamente estava disponível para a Black Rock, um de seus principais investidores privados.

Ora, o aval do governo brasileiro era para uma quantidade definida de 33 milhões de doses. Qual a lógica? A única explicação é que a Block Rock, no Brasil, montou uma operação que poderia ser muito rentável, tendo como trunfo o aval do governo brasileiro. O documento não visava liberar as empresas brasileiras para adquirir as vacinas, mas permitir à Black Rock pressionar e ter argumentos para convencer a Astra Zeneca para separar uma parte dos estoques vendidos para uma operação coordenada diretamente pelo fundo.

Ora, a Astra Zeneca iria desviar encomendas dos países europeus ou da Organização Mundial da Saúde? É evidente que não. Qual o único país propenso a facilitar a compra de vacinas pelo setor privado? Obviamente o Brasil.

Se houvesse uma Controladoria Geral da República séria, que não se limitasse a investir contra reitores de universidades públicas, a esta altura estaria exigindo o contrato firmado entre as empresas e a Block Rock para levantar como se daria a repartição do butim.

Quanto muito, para comprovar que entraram nesse negócio por ignorância, não por cumplicidade.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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