Fundo Partidário mancha a honra do Congresso brasileiro, por J. Carlos de Assis

 

Fundo Partidário mancha a honra do Congresso brasileiro

J. Carlos de Assis*

Não há nada mais abjeto na estrutura política brasileira que a existência do chamado Fundo Partidário. A sociedade brasileira não sabe disso, ou sequer tomou plena consciência desse cancro instituído em favor de aristocracias partidárias que se valem do Fundo para se locupletarem de dinheiro público a partir dos cartórios conquistados na base de fraudes de assinaturas de eleitores fantasmas, que formam a base de partidos de aluguel.

A existência  de Fundo Partidário não tem qualquer fundamento moral, democrático e mesmo político. Qual o sentido em que a sociedade como um todo direcione dinheiro público para partidos que são, como o nome diz, uma parte dela? Que sentido existe no financiamento da parte pelo todo que é constituído pela soma das partes? O dinheiro do Fundo serve para quê? Para que uma parte da sociedade, o partido, tome o poder político geral? Mas isso não é uma contradição? E os outros partidos, também são financiados para tomar o poder total?

Neste momento em que todas as estruturas da República, Executivo, Legislativo e Judiciário, estão sendo moídas pelo descrédito e pela falta de respeito da opinião pública, é fundamental que surja no Congresso, onde as decisões políticas finais são tomadas, pelo menos uma fração que levante a necessidade da extinção do Fundo e obrigue os demais, mediante um rolo compressor moral, a seguir o mesmo caminho.

Dizer que o Fundo Partidário é um instrumento da democracia é um engodo. Na verdade, ele é nada mais nada menos que um cartório manipulado por aristocracias partidárias que manipulam em seu favor o sistema eleitoral do país. Em algum tempo no passado, Lula havia dito que o Congresso tinha uns 300 picaretas. Na vigência do Fundo Partidário, praticamente todos os congressistas se tornam legalmente picaretas.

Se a desejada reforma política não acabar com o Fundo Partidário – que os congressistas decidiram desavergonhadamente, há algumas semanas, aumentar para mais de R$ 800 milhões ao ano -, será uma confissão aberta de inidoneidade. Mas como um grupo de pessoas, acobertados pelo anonimato de um colegiado maior, tomaria uma decisão que, em tese, contrariaria seus próprios interesses, mesmo que escusos?

Minha sugestão é que a sociedade crie um mecanismo de pressão para que os próprios congressistas, ou pelo menos a maioria deles, tome nesse caso uma decisão favorável à decência. Eu próprio não tenho habilidades na internet, e menos ainda notoriedade, para conseguir seguidores aos milhões numa campanha contra o Fundo. Assim, peço aos internautas mais competentes do que eu e movidos pela mesma indignação que usem ferramentas como o facebook ou o twitter, ou os dois, para mobilizar milhões a fim de trazer os parlamentares, como dizia Gramsci, para uma posição (contra o Fundo) da qual eles só possam recuar com desonra.

J. Carlos de Assis – *Economista, professor, doutor pela Coppe-UFRJ, autor de mais de vinte livros sobre economia política brasileira.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

11 comentários

  1. Discordo do economista em sua

    Discordo do economista em sua posição. O Fundo Partidário é necessário para a democratização do sistema política e para o estímulo à criação de novas legndas que pluralizem o debate no País. Se não houvesse o Fundo partidário, apenas os grandes partidos sobrevivieriam no cenário políico, o que traria uma situação de uma aparente democricia, sem a saudável convivência de diferentes linhas de pensamento. No âmbito do Congresso, a formação de blocos partidários tem se mostrado a melhor forma de se estabelecer um diálogo político entre governo e oposição e fortalecido a democracia brasilera, tornando-a um exemplo para os demais países.

  2. A partir do momento que os

    A partir do momento que os partidos políticos estão institucionalizados e até uma justiça eleitoral, muito mais dispendiosa, implantada, não vejo com tanta severidade esse fundo partidário. Embora não se possa discordar do J. Carlos de Assis em vários de seus argumentos como o das castas que se mantém, a exemplo de muitos sindicatos e associações, como se todos delas fossem, penso que o funcionamento dos partidos quanto aos seus fins é que deveria ser observado. Como o nosso estado “laico” consequiu proliferar tantos políticos vinculados às igrejas, cujos financiamentos delas advém, é uma outra questão não respondida e que se agrava. Ou a pluralidade ficará só no discurso? Se esse segmento melhorou a política e ajudou a diminuir a corrupção, não se sabe. Tanto a mídia como a academia se esforçam para nos mater desinformados. Qualquer organismo precisa de recursos para se manter e funcionar. Como a lei de Murphy é muito presente no nosso Brasil, até um ditado já desenvolvemos: Ruim com eles, pior sem eles. 

  3. Não sei não, caro Assis. O

    Não sei não, caro Assis. O pessoal que é a favor do financiamento eleitoral por empresas privadas pode pegar carona nessa campanha. Dizendo que quem quer proibir o financiamento privado é porque quer dar dinheiro público para “político ladrão (todos)”.

    Botar tudo no mesmo pacote, confundindo a opinião pública, o pig faz sem pensar duas vezes. Talvez o momento não seja esse para sua campanha

  4. Num intindi…  as eleições

    Num intindi…  as eleições custeadas exclusivamente com recursos públicos seria uma ampliação dessa imoralidade reputada pelo autor do post… ou ele quer que os partidos deixem de existir fora do período eleitoral?

  5. Prezado Assis,
    Se

    Prezado Assis,

    Se financiamento privado promove a interferencia do capital sobre a democracia e aumenta a corrupção e financiamento privado no presta como deve ser o sistema ideal? 

    Criticar é fácil, vamos contribuir e não apenas semear mais confusão!

    Ate a democracia é passivel de criticas!

  6. Prezado Assis,
    Se

    Prezado Assis,

    Se financiamento privado promove a interferencia do capital sobre a democracia e aumenta a corrupção e financiamento privado no presta como deve ser o sistema ideal? 

    Criticar é fácil, vamos contribuir e não apenas semear mais confusão!

    Ate a democracia é passivel de criticas!

  7. Lamento, mas não espere esse

    Lamento, mas não espere esse tipo de postura do congresso, particularmente desta composição. Se alguém pode fazer pressão para extinção desse cancro é a sociedade civil.

  8. Excelente texto

    quando o aumento do fundo partidário foi aprovado, um monte de gente saiu em sua defesa dizendo que a democracia tem o seu preço. Isso não tem nada a ver com democracia, é só mais uma mamata que os políticos se auto-concederam sem cancelar o financiamento privado de campanha, origem de muita da nossa corrupção. Quando e se acabarem com o financiamento privado, eu serei a favor do financiamento publico, até lá eu acho que isso só é mais uma afronta ao povo que sempre paga a conta.

  9. Fui um dos primeiros a

    Fui um dos primeiros a criticar o mega aumento do Fundo Partidário  ,aqui  neste blog mas não tive a capacidade para criticar essa aberração com o brilhantismo do Sr .J.Carlos de Assis.Obrigado por dizer tudo  e mais

    um pouco ,que precisava ser dito .È claro que os mais de 30 partidos  se beneficiam com essa aberração ,que é a primeira causa para a existencia de tantos partidos  ,partidos esses em grande parte instrumento de enriquecimento de muitos políticos espertos por demais .Lembro também que o Sr Diogo Costa também criticou brilhantemente  o absurdo de tantos partidos .

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome