Covid-19 – Um balanço, um alerta (como e por que a situação é preocupante) e algumas notas, por Felipe Costa

Em números absolutos, os 20 países mais afetados estão a concentrar 73% dos casos (de um total de 525.543.152) e 66% das mortes (de um total de 6.277.079)

Covid-19 – Um balanço, um alerta (como e por que a situação é preocupante) e algumas notas.

Por Felipe A. P. L. Costa [*].

RESUMO. – Este artigo atualiza as estatísticas mundiais a respeito da pandemia da Covid-19 divulgadas em artigo anterior (aqui). Em escala mundial, já são 525 milhões de casos e 6,27 milhões de mortes. No caso específico do Brasil, o artigo também atualiza os valores das taxas de crescimento. Entre 16 e 22/5, os valores ficaram em 0,0478% (casos) e 0,0152% (mortes). Ambos caíram em relação à semana anterior. Mas esses resultados podem ser enganosos. Além de um precipitado e irresponsável afrouxamento nas medidas de proteção, o monitoramento da pandemia está sendo degradado, seja pela popularização dos autotestes, seja pela deliberada omissão das estatísticas. Por fim, o artigo tenta esclarecer o significado de certos termos que têm gerado alguma confusão entre os leitores.

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1. UM BALANÇO DA SITUAÇÃO MUNDIAL.

Levando em conta as estatísticas obtidas na noite de ontem (22/5) [1], eis um balanço da situação mundial.

(A) – Em números absolutos, os 20 países [2] mais afetados estão a concentrar 73% dos casos (de um total de 525.543.152) e 66% das mortes (de um total de 6.277.079) [3].

(B) – Entre esses 20 países, a taxa de letalidade (ver Apêndice) está em 1,1%. A taxa brasileira segue em 2,2%. (Dois países vizinhos que também estão no topo da lista mostram os seguintes valores: Argentina, 1,4%; e Colômbia, 2,3%.)

(C) – Nesses 20 países, 363 milhões de indivíduos receberam alta, o que corresponde a 94% dos casos. Em escala global, 497 milhões de indivíduos já receberam alta [4].

2. O RITMO DA PANDEMIA NO PAÍS.

Ontem (22/5), de acordo com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, foram registrados em todo o país mais 12.613 casos e 99 mortes (mas ver Nota 9). Teríamos chegado assim a um total de 30.791.220 casos e 665.627 mortes.

Na semana encerrada ontem (16-22/5), foram registrados 102.830 novos casos e 709 mortes. (Na semana anterior, foram 123.854 casos e 779 mortes.)

3. TAXAS DE CRESCIMENTO.

Em dois anos (2020-2022) de esforço visando monitorar de perto o ritmo e o rumo da pandemia [5], sigo a usar como guias as taxas de crescimento no número de casos e de mortes. Ambas caíram em relação aos valores da semana anterior (ver a figura que acompanha este artigo).

Vejamos os resultados mais recentes.

A taxa de crescimento no número de casos caiu de 0,0578% (9-15/5) para 0,0478% (16-22/5) – interrompendo assim uma sucessão de três escaladas [6, 7].

A taxa de crescimento no número de mortes, por sua vez, caiu de 0,0167% (9-15/5) para 0,0152% (16-22/5) – revertendo, assim, a escalada observada na semana anterior.

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo ilustra o comportamento das médias semanais das taxas de crescimento no número de casos (pontos em azul escuro) e no número de óbitos (pontos em vermelho escuro) em todo o país (valores expressos em porcentagem), entre 12/9/2021 e 22/5/2022. (Para resultados anteriores, ver aqui.) Note que alguns pares de pontos são coincidentes ou quase isso.

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4. CODA.

As médias semanais das taxas de crescimento (casos e mortes) caíram. Em condições normais de temperatura e pressão, esta seria uma boa notícia [8]. Ocorre que a inércia e a má-fé de alguns governantes estão a nos empurrar para um buraco ainda mais fundo e sombrio.

O que se passa é que determinados processos (ora em curso) têm a capacidade de confundir as estatísticas e, por extensão, de distorcer as métricas (ver Apêndice). Estou aqui a pensar, mais especificamente, em dois fatores. São eles:

(1) a popularização dos autotestes, cujos resultados não são incorporados às estatísticas oficiais, pois não são de notificação obrigatória; e

(2) as reiteradas omissões de algumas estatísticas estaduais. Os totais de ontem (22/5), por exemplo, não contavam com os números de 12 unidades da federação (AC, AP, CE, DF, MA, MG, MT, PI, RJ, RO e RR). Levando em conta o peso relativo que essas unidades têm na contabilidade total, é possível que até um terço das estatísticas esteja sendo temporária ou definitivamente omitida [9].

O número de governantes que estão de braços cruzados parece ter aumentado. Em artigos anteriores, eu já havia chamado a atenção para os casos de Minas Gerais e do Distrito Federal, onde (vergonhosamente) não há divulgação de estatísticas em feriados e fins de semana. Mas parece que a epidemia de inércia e má-fé – cujo epicentro sempre foi o Palácio do Planalto – está a se alastrar.

Em resumo, além de um precipitado e irresponsável afrouxamento nas medidas de proteção, o monitoramento da pandemia está sendo degradado, seja pela popularização dos autotestes, seja pela deliberada omissão das estatísticas.

É uma situação duplamente preocupante.

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APÊNDICE. – ALGUMAS NOTAS SOBRE A TERMINOLOGIA.

Bem ou mal, as autoridades sanitárias estão a divulgar, diariamente, estatísticas e métricas a respeito da pandemia em terras brasileiras. Duas estatísticas que estou a acompanhar desde abril de 2020 são o número de casos e o de mortes. Com base nesses números, calculo as métricas que adotei como guias (taxas de crescimento nos números de casos e de mortes) em meus esforços visando monitorar a pandemia (ver o texto principal deste artigo).

Cabe aqui chamar a atenção para três das métricas que são divulgadas diariamente pelas autoridades sanitárias, a saber: a taxa de incidência, a de mortalidade e a de letalidade. Em primeiro lugar, devemos observar que cada uma destas métricas é o resultado de uma combinação envolvendo duas estatísticas. As estatísticas em questão são as seguintes:

(1) – O tamanho da população de interesse (representado pela letra N). No nosso caso, o interesse recai sobre a população do país. (Qual é a melhor estimativa que temos hoje para o tamanho da população brasileira? O Conselho Nacional de Secretários de Saúde está a trabalhar com o seguinte valor: 210.147.125.)

(2) – O número de novos casos (Nc) registrados em todo o país ao longo de um período fixo de tempo (digamos, 24 horas).

(3) – O número de óbitos atribuídos à Covid-19 (Nm) ao longo do mesmo período de tempo referido no item anterior.

Vejamos então como estas estatísticas são usadas no cálculo das três métricas referidas antes.

(1) – A incidência (ou morbidade), representada aqui pela letra C, é o resultado de uma simples operação aritmética, a saber: C = Nc / N. O resultado pode ser expresso de mais de um jeito – em percentual (e.g., C = 1,5%), por exemplo, ou em número de casos para cada grupo de 100.000 habitantes (e.g., C = 1.500 casos).

(2) – A mortalidade (M) é o resultado de outra operação, a saber: M = Nm / N. Como no caso anterior, o resultado pode ser expresso de mais de um jeito – em percentual (e.g., 0,015%), por exemplo, ou em número de casos para cada grupo de 100.000 habitantes (e.g., 15 óbitos).

(3) – A letalidade é o resultado de uma operação envolvendo um terceiro para de estatísticas, a saber: L = Nm / Nc. (Observe que o cálculo de L independe do valor de N.) O resultado obtido costuma ser expresso em percentual – e.g., 0,0015%. De fato, o que estamos a calcular agora é a força da mortalidade –i.e., levando em conta apenas e tão somente o número de casos já identificados, qual é a parcela deles que está indo a óbito?

As métricas acima estão em suas versões atemporais. Para corrigir isso, basta acrescentar uma dimensão temporal. As versões resultantes dessa operação podem ser apropriadamente referidas como taxas. No nosso caso, como as estatísticas são divulgadas diariamente, vamos começar falando em taxas diárias. A saber:

(1) – A taxa de incidência. Algo como o percentual de casos novos (em relação ao total da população) que são registrados a cada dia – e.g., C (taxa) = 1,5% / dia.

(2) – A taxa de mortalidade. O percentual de óbitos (em relação ao total da população) que são registrados a cada dia – e.g., M (taxa) = 0,015% / dia.

(3) – A taxa de letalidade. O percentual de casos que resultam em óbitos a cada dia – e.g., L (taxa) = 0,0015% / dia. De novo: Observe que esta métrica independe do tamanho da população. Há vantagens nisso, notadamente no fato de que as imprecisões a respeito do valor de N deixam de ser relevantes. O que, de resto, torna mais fácil e mais recomendável o uso de L (taxa) em estudos comparativos – e.g., na comparação do que se passa em dois ou mais países ou no monitoramento da situação de um país ao longo do tempo.

Um comentário final. O início da campanha de vacinação teve um impacto tremendo nas estatísticas. Após um esperado lapso inicial, os números de casos e de mortes passaram a cair. E de modo expressivo e consistente. Fenômeno semelhante foi observado em muitos outros países. Das três métricas referidas neste apêndice, a taxa de letalidade talvez seja aquela que, sozinha, melhor ilustra a discussão a respeito do impacto que a vacinação tem tido nas estatísticas (número de casos e de mortes).

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NOTAS.

[*] Há uma campanha de comercialização em curso envolvendo os livros do autor – ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para mais informações ou para adquirir (por via postal) os quatro volumes (ou algum volume específico), faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Vale notar que certos países atualizam suas estatísticas uma única vez ao longo do dia; outros atualizam duas vezes ou mais; e há uns poucos que estão a fazê-lo de modo mais ou menos errático. Acompanho as estatísticas mundiais em dois painéis, Mapping 2019-nCov (Johns Hopkins University, EUA) e Worldometer: Coronavirus (Dadax, EUA).

[2] Os 20 primeiros países da lista podem ser arranjados em 9 grupos: (a) Entre 80 e 85 milhões de casos – Estados Unidos; (b) Entre 40 e 45 milhões – Índia; (c) Entre 30 e 35 milhões – Brasil; (d) Entre 25 e 30 milhões – França e Alemanha; (e) Entre 20 e 25 milhões – Reino Unido; (f) Entre 15 e 20 milhões – Rússia, Coreia do Sul, Itália e Turquia; (g) Entre 10 e 12 milhões – Espanha e Vietnã; (h) Entre 8 e 10 milhões – Argentina, Japão e Países Baixos; e (i) Entre 6 e 8 milhões – Irã, Austrália, Colômbia, Indonésia e Polônia.

Olhando apenas para as estatísticas (casos e mortes) das últimas quatro semanas, eis um breve resumo da situação atual: (i) em números absolutos, a lista está a ser encabeçada agora pelos Estados Unidos, com 2,28 milhões de novos casos; (ii) a lista dos cinco primeiros tem ainda os seguintes países: Reino Unido (2,26 milhões), Alemanha (1,86), Austrália (1,26) e Taiwan (1,19). O Brasil (417 mil) está na 12ª posição; e (iii) a lista dos países com mais mortes está a ser encabeçada agora pelo Reino Unido (16,9 mil); em seguida aparecem EUA (10,5 mil), Alemanha (4,15), Rússia (3,44) e Itália (3,3). O Brasil (2,87 mil) está na 6ª posição.

[3] Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março de 2020, tanto em escala mundial como nacional, ver os volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado, vols. 1-5 (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

[4] Como comentei em ocasiões anteriores, fui levado a promover a seguinte mudança metodológica: as estatísticas de casos e mortes continuam a seguir o painel Mapping 2019-nCov, enquanto as de altas estão agora a seguir o painel Worldometer: Coronavirus.

[5] Para capturar e antever a dinâmica de processos populacionais, como é o caso da disseminação de uma doença contagiosa, devemos recorrer a um parâmetro que tenha algum poder preditivo. Não é o caso da média móvel. Mas é o caso da taxa de crescimento. Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março de 2020, tanto em escala mundial como nacional, ver qualquer um dos três primeiros volumes da coletânea mencionada na nota 3.

[6] Entre 27/12/2021 e 22/5/2022 (para as semanas anteriores, ver aqui), as médias semanais exibiram os seguintes valores: (1) casos: 0,0345% (27/12-2/1), 0,1472% (3-9/1), 0,2997% (10-16/1), 0,6359% (17-23/1), 0,7576% (24-30/1), 0,6544% (31/1-6/2), 0,5022% (7-13/2), 0,3744% (14-20/2), 0,2812% (21-27/2), 0,1389% (28/2-6/3), 0,1565% (7-13/3), 0,1268% (14-20/3), 0,1019% (21-27/3), 0,0750% (28/3-3/4), 0,0727% (4-10/4), 0,0474% (11-17/4), 0,0457% (18-24/4), 0,0494% (25/4-1/5), 0,0515% (2-8/5), 0,0578% (9-15/5) e 0,0478% (16-22/5); e (2) mortes: 0,0151% (27/12-2/1), 0,0196% (3-9/1), 0,0245% (10-16/1), 0,0471% (17-23/1), 0,0859% (24-30/1), 0,1212% (31/1-6/2), 0,1388% (7-13/2), 0,1320% (14-20/2), 0,1071% (21-27/2), 0,0661% (28/2-6/3), 0,0642% (7-13/3), 0,0463% (14-20/3), 0,0363% (21-27/3), 0,0275% (28/3-3/4), 0,0240% (4-10/4), 0,0152% (11-17/4), 0,0148% (18-24/4), 0,0187% (25/4-1/5), 0,0135% (2-8/5), 0,0167% (9-15/5) e 0,0152% (16-22/5).

[7] Sobre o cálculo das taxas de crescimento, ver qualquer um dos três primeiros volumes da referência citada na nota 3.

[8] Como escrevi em ocasiões anteriores, uma saída rápida para a crise (minimizando o número de novos casos e, sobretudo, o de mortes) dependeria de dois fatores: (i) a adoção de medidas efetivas de proteção e confinamento; e (ii) uma massiva e acelerada campanha de vacinação.

Cabe ressaltar que o ritmo da vacinação oscilou muito ao longo da campanha. Levamos 34 dias (24/8-27/9), por exemplo, para ir de 60% a 70% da população com ao menos uma dose da vacina. (Hoje, 22/5, este percentual ainda está em 85,64%.) Antes disso, porém, levamos 25 dias (9/7-3/8) para ir de 40% a 50% e apenas 21 dias (3-24/8) para ir de 50% a 60%. Sobre os percentuais, ver ‘Coronavirus (COVID-19) Vaccinations’ (Our World in Data, Oxford, Inglaterra).

[9] Juntas, essas 12 unidades respondem por algo como 33% dos casos e 34% das mortes registradas em todo o país. O que me leva a propor ao menos os seguintes ajustes nas estatísticas referentes ao dia de ontem: 6.235 casos e 50 mortes deixaram de ser informados.

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1 Comentário

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foi

- 2022-05-24 02:47:34

"a adoção de medidas efetivas de proteção e confinamento" Esta mesma estratégia poderia ser usada para reduzir o número de mortes em acidentes de trânsito, mas nem por isso é cogitada. A razão é simples: precisamos considerar o custo (econômico, social) e o benefício (reduzir o número de óbitos, já reduzido por causa da vacinação). Para compreender isso é necessário comparar as estatísticas com os dados de 2 anos atrás (maio de 2020) quando estávamos no auge da crise. Compare a taxa de ocupação hospitalar e o número de óbitos para perceber que era uma situação completamente distinta. Aquele momento justificava o confinamento. Hoje só precisamos da vacinação.

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