Prevent Senior fez “pacto” com o “gabinete paralelo” de Bolsonaro; “pacientes não sabiam que seriam cobaias”, diz advogada

Operadora de Saúde é acusada de impor tratamento precoce "potencialmente letal" para idosos com o objetivo de atender ao interesse maior do Ministério da Economia: evitar o lockdown

Jornal GGN – Caiu como uma bomba sobre a CPI da Covid nesta terça-feira (28) o depoimento da advogada Bruna Morato, que representa 12 médicos da Prevent Senior que fizeram denúncias sobre as diretrizes adotadas na pandemia pela operadora de saúde especializada no atendimento ao público idoso. As informações narradas por Bruna são “aterradoras e macabras”, resumiu o relator da comissão, senador Renan Calheiros.

A advogada alegou que a Prevent Senior, “alinhada ideologicamente” ao chamado “gabinete paralelo” do governo Bolsonaro, praticamente impôs aos médicos da rede a prescrição do chamado “kit covid” com cerca de 8 medicamentos sem eficácia cientificamente comprovada contra o novo coronavírus.

Pacientes tiveram o acesso facilitado ao coquetel, chegando a receber o kit em casa, enviado por um motoboy. Não havia possibilidade sequer de excluir itens da embalagem lacrada. Os médicos, afirmou Bruna, não tinham autonomia neste quesito, embora buscassem orientar, caso a caso, o que deveria ser administrado ou não.

A gravidade da insistência no kit covid foi salientada. A idade média do público alvo da Prevent Senior é 68 anos, disse Bruna. “São pacientes idosos com comorbidades associadas. Para aquela população, o kit era potencialmente letal.”

Além de trabalhar com um kit fechado, a operadora também não adotou total transparência nos tratamentos. “Um dos diretores pediu para não informar nem o paciente, nem os familiares do tratamento que estava sendo realizado. (…) Eles não sabiam que seriam feitos de cobaia. Eles sabiam que seriam parte de um tratamento diferente.”

Médicos que criaram problemas com as diretrizes da operadora foram punidos no bolso, com o número de plantões reduzidos, por exemplo. Aqueles que demonstraram resistência ainda maior foram demitidos em massa.

O PACTO DA PREVENT SENIOR COM O GOVERNO BOLSONARO

Segundo Bruna, os médicos relataram que a aposta no tratamento precoce ou no tratamento preventivo, como antes era chamado, ocorreu após a direção da Prevent Senior ter reuniões com assessores do chamado “gabinete paralelo” do governo Bolsonaro.

Os encontros foram motivados por críticas que a Prevent Senior sofreu do então ministro Luiz Henrique Mandetta, que ocupava a Pasta da Saúde, em conflito público e notório com o restante do governo, sobretudo o Ministério da Economia.

Deste conflito nasceu o gabinete paralelo, ou seja, vingou o time de conselheiros externos que emprestavam sua credibilidade no meio médico para dar sustentação às decisões de Bolsonaro na pandemia.

Em uma das reuniões da cúpula da Prevent Senior, representada na CPI pelo diretor-executivo Pedro Batista Junior, um plano foi traçado.

“Existia interesse do Ministério da Economia de que o País não parasse. Se entrássemos no sistema de lockdown, isso traria um abalo econômico muito grande. Então existia um plano para que as pessoas saíssem às ruas sem medo. Eles desenvolveram uma estratégia, através do aconselhamento de médicos”, narrou Bruna.

“Esses médicos”, continuou ela, “posso citar de forma nominal: eram o doutor Anthony Wong, responsável pelo conjunto medicamentoso atóxico; Nise Yamagushi, que deveria desenvolver informações a respeito da resposta imunológica, e Paulo Zanotto, para que tratasse da situação de forma mais abrangente. A Prevent Senior iria entrar para colaborar com essas pessoas. Alguns médicos me descreveram isso como uma ‘aliança’; outras, como um ‘pacto’.”

Os médicos denunciantes não reportaram o envolvimento direto do ministro Paulo Guedes. Mas “falavam de um alinhamento ideológico: a economia não poderia parar e as pessoas precisavam de uma esperança para sair às ruas. E essa esperança tinha um nome: hidroxicloroquina”, cravou a advogada.

“As informações que foram levadas aos médicos [da rede] foi a seguinte: existiria colaboração da Prevent Senior na produção de informações que convergissem com essa teoria, ou seja, de que seria possível ter um tratamento de prevenção. No começo se chamou de tratamento preventivo e depois mudou para precoce, porque não existe prevenção. Mas a população em geral, quando ouve a palavra ‘prevenção’, ela acha que pode sair às ruas porque se tomar esses remédios, ela ficaria imune. Os doentes tinham esperança de que não iriam morrer daquilo, e essa esperança se chamava hidroxicloroquina.”

Bruna reafirmou à CPI que houve, sim, mudança no código de registro de doença de pacientes com Covid-19 após duas semanas de sintomas, e a finalidade era justamente passar a “falsa sensação” de que o tratamento precoce estava funcionando.

Ela explicou também que os médicos procuraram a Prevent Senior antes de expor informações à CPI, demandando que a operadora de saúde tornasse as diretrizes públicas, esclarecesse a questão do kit covid e assumisse a responsabilidade em caso de processos de familiares de pacientes vítimas da Covid, já que os médicos não tinham autonomia para retirar itens da embalagem lacrada. Não houve pedido de acordo financeiro para evitar as revelações.

Quando questionada pelo senador Omar Aziz sobre o motivo de os médicos não terem recorrido antes ao Conselho Regional de Medicina e ao Conselho Federal de Medicina para denunciar as fraudes e irregularidades, Bruna Morato explicou que nenhuma das duas instituições aceitam denúncias anônimas, e os médicos sentem medo medo de maiores retaliações.

Além da discordância em relação ao kit Covid, os médicos reportaram à advogada a proibição de uso de EPI (equipamento de proteção individual) por alguns funcionários no começo da pandemia, com o objetivo de evitar que os pacientes entrassem em desespero com a situação. Ela lembrou do caso emblemático de um enfermeiro que faleceu nestas condições.

Ainda segundo Bruna, a Prevent Senior não tinha leitos próprios de UTI em quantidade suficiente e considerava “mais barato disponibilizar um conjunto de medicamentos do que fazer a internação do paciente” com Covid-19.

A polêmica da Prevent Senior motivou o pedido de instauração de uma CPI na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Na semana passada, em passagem pela assembleia geral da ONU, Jair Bolsonaro defendeu mais uma vez o tratamento precoce e fez pouco caso das vacinas desenvolvidas.

O Brasil acumula 595 mil mortes por Covid-19.

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3 Comentários

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Heraldo Campos

- 2021-09-30 10:37:40

Esse cenário de que os “pacientes não sabiam que seriam cobaias” parece que já vimos em algum lugar da história. Conheci somente há poucos dias esse artigo “Bolsonaro, o menino do Brasil”, do autor Abraham Nuncio, publicado em outubro de 2018 pelo portal Carta Maior [1] antes desse artigo que escrevi “Menino do Brasil” publicado originalmente em 20 de fevereiro de 2021 no blog do Cacá Medeiros Filho [2]. Essa coincidência do tema abordado revela o triste e perigoso país que vivemos. [1] https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Eleicoes/Bolsonaro-o-menino-do-Brasil/60/42105 [2] http://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2021/02/menino-do-brasil.html

Sebastião Claudino

- 2021-09-29 10:30:34

Prezado Nassif. Há um tempo comentei com amigos comuns (temos amigos comuns) um artigo em que voce criticava a PERSEGUICAO IMPLACAVEL à Prevent Senior. Fui muito criticado e até acusado de ter recalques contigo, o que era uma injustica com um admirador há quase 50 anos. Parece que na época já existiam evidencias do comprometimento da Prevent com as falcatruas envolvendo o governo federal e a abordagem criminosa da pandemia. Eu particularmente tenho uma visão de que muitos governos, não apenas o Bozo, utilizaram a pandemia para se livrar de nós velhos. É só olhar para o que aconteceu na Suécia. Não espero nenhuma autocrítica, mesmo porque não gosto dessa palavra, é apenas um alerta. Com o perdão do nosso amigo comum, vou postar o comentário que fiz na época. T, o Nassif depois do episódio da Escola de Base ficou um tanto obcecado com essa coisa de perseguição. A minha visão pessoal é que com essa pandemia os planos de saúde, TODOS ELES, encontraram uma maneira de se livrar, SEM CULPA , dos idosos principalmente aqueles com maiores comorbidades. Pode-se condenar a atitude de parte da mídia, inclusive da chamada imprensa independente em bater na prevent e deixar os outros planos de lado, mas investigações sérias levantam sérios indícios de que a Prevent está atolada na lama.

pe

- 2021-09-29 10:26:37

Prezado Nassif. Há um tempo comentei com amigos comuns (temos amigos comuns) um artigo em que voce criticava a PERSEGUICAO IMPLACAVEL à Prevent Senior. Fui muito criticado e até acusado de ter recalques contigo, o que era uma injustica com um admirador há quase 50 anos. Parece que na época já existiam evidencias do comprometimento da Prevent com as falcatruas envolvendo o governo federal e a abordagem criminosa da pandemia. Eu particularmente tenho uma visão de que muitos governos, não apenas o Bozo, utilizaram a pandemia para se livrar de nós velhos. É só olhar para o que aconteceu na Suécia. Não espero nenhuma autocrítica, mesmo porque não gosto dessa palavra, é apenas um alerta. Com o perdão do nosso amigo comum, vou postar o comentário que fiz na época. T, o Nassif depois do episódio da Escola de Base ficou um tanto obcecado com essa coisa de perseguição. A minha visão pessoal é que com essa pandemia os planos de saúde, TODOS ELES, encontraram uma maneira de se livrar, SEM CULPA , dos idosos principalmente aqueles com maiores comorbidades. Pode-se condenar a atitude de parte da mídia, inclusive da chamada imprensa independente em bater na prevent e deixar os outros planos de lado, mas investigações sérias levantam sérios indícios de que a Prevent está atolada na lama.

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