2019 termina assim, por Benedito Costa

Somos 24 milhões de brasileiros na informalidade, fazendo Uber, entregado Ifood, catando latinhas, o que para o jornalismo da Globo é empreendedorismo.

2019 termina assim

por Benedito Costa

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Meu vizinho decidiu não viver mais. Deixou mulher e filho. Tinha menos de 40 anos. Trabalhava com Uber após uma demissão que o deixou na lama.

Certamente, as pessoas dirão: “ah, mas não foi só por isso!”. Eu gostaria de frisar o “só por isso”. Em relação aos suicidas, o primeiro pensamento que vem é o da covardia e depois o do pecado. Continuamos enterrando os suicidas fora dos campos santos.

Fui com ele até meu trabalho, em novembro. Conversamos bastante, durante os 40 minutos da viagem. Ele, como eu, fora demitido sem receber nada de uma empresa. Assim como eu, teve ex colegas de trabalho que foram defender os patrões, frente a um juiz claramente patronal. Assim como eu, não não foi amparado pela justiça trabalhista e assim como eu teve de pagar as custas processuais. Há dois anos.

E as pessoas dirão: “ah, mas a justiça trabalhista tava cheia de gente vivendo às custas das causas; gente vagabunda”. Amigo leitor, nem eu nem meu vizinho somos vagabundos. Trabalhamos desde muito jovens.

Assim como eu, ele ficou depressivo. Assim como eu, foi parar no hospital muitas vezes (este, ano, no meu caso, umas dez vezes, sendo uma delas cinco dias de UTI). Assim como eu, muitos de seus amigos sumiram. Assim como eu, ele perdeu a dignidade que o mercado dá a quem tem um emprego regular, salário, os “direitos trabalhistas” que a justiça atual insiste em retirar. Assim como eu, ele ouvia “você precisa levantar da cama”. Assim como centenas de milhares de brasileiros vitimados pelo sistema nos últimos anos.

Somos 24 milhões de brasileiros na informalidade, fazendo Uber, entregado Ifood, catando latinhas, o que para o jornalismo da Globo é empreendedorismo. São milhões sem fundo de garantia, sem férias, décimo-terceiro — e o jornalismo, a despeito dos gritos dos pequenos lojistas, mostra que as vendas cresceram. Uma mera comparação com os números do ano passado mostram que não. Não crescemos, não vendemos, e alimentamos um mercado com “empreendedores sem patrão”.

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A uberização deixa a sociedade instável. Sem poder de compra, sem fundo, sem nada, com os ganhos flutuantes, não há como planejar… E alguém dirá: “ah, mas basta trabalhar bastante, que o Uber dá, sim”. Meu! trabalhe 15, 18 horas num dia! É voltar ao começo da industrialização!

Diferentemente de mim, que tenho amparo, meu vizinho não teve. Diferentemente de mim, ele não conseguiu trabalho. Foi um processo para o chão, para o buraco, para o escuro para ele.

Era um cara estudado. Em nossa conversa, vi que comungávamos de uma mesma visão de mundo: éramos e continuamos sendo contra um governo miliciano, assassino, que retira as poucas conquistas que tivemos nas últimas décadas.

Como eu, ele via que estamos perdendo tudo: a natureza, a saúde, a educação formal (e, eu diria, a informal), a paz. Os números de feminicídios e assassinatos de da população LGBT aumentaram. As invasões de terras indígenas, quilombolas e de terreiros aumentaram.

E há quem diga que meu vizinho tirou a vida por ser fraco, por ser covarde, por não ter tido esperança, por não pensar no filho.

Era um cara sorridente, amável. Deixei minha casa aberta. Faço isso com pouquíssimas pessoas. Eu creio que poderia ter estendido a mão mais firme.

Num ano que começou com a frase “ninguém solta a mão de ninguém”, ele percebeu que isso era impossível porque ninguém segurava a mão de ninguém. Assistimos passivamente todas as perdas, a iniquidade, a violência estatal, a violência urbana e fizemos muito pouco.

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Meu vizinho não teve a ajuda da Justiça, da religião (preocupada com as coisas da “alma”, enquanto precisamos de feijão e pagar o colégio dos filhos), dos amigos, da família.

Bom, em memória dele, dessa vez não posso terminar o ano com frases bonitinhas e feitas. Estou bem triste.

Mas espero que 2020 seja um ano de luta, para que heróis como ele permaneçam vivos.

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2 comentários

  1. No dia 24 último, o UOL publicou uma matéria sobre o sofrimento por que passam as pessoas que perderam o Bolsa Família. Quando a acessei, já havia mais de 1700 comentários que, em sua esmagadora maioria, acusava os pobres de vagabundos e preguiçosos, culpando-os por sua desdita. A maioria da classe média tradicional não conhece um pobre. Conhecer no sentido de saber como é sua vida, suas dores e angústias e acham que a vida se resolve na base dos ditados que o capitalismo criou para que acreditemos que “querer é poder”. E certamente a maioria dessas pessoas, à noite, em volta de fartas ceias, celebram o “espírito de natal”.
    A uma mulher que dizia não ter apresentado os documentos pra atualizar o cadastro por falta de dinheiro para pagar o transporte, um cidadão respondia: “Tem de cortar mesmo…na própria reportagem diz que não levou declaração exigida porque não tem dinheiro pro ônibus…se vira gente…vai a pé….de carona…povo folgado recebe programa social e ainda não quer cumprir requisitos…a teta da folga secou..ou cumpre ou corta mesmo mais que correto”
    Tenho 74 anos e quem me conhece sabe que raramente desanimo. Mas confesso que ultimamente me bate um grande cansaço de espírito

  2. No dia 24 último, o UOL publicou uma matéria sobre o sofrimento por que passam as pessoas que perderam o Bolsa Família. Quando a acessei, já havia mais de 1700 comentários que, em sua esmagadora maioria, acusava os pobres de vagabundos e preguiçosos, culpando-os por sua desdita. A maioria da classe média tradicional não conhece um pobre. Conhecer no sentido de saber como é sua vida, suas dores e angústias e acham que a vida se resolve na base dos ditados que o capitalismo criou para que acreditemos que “querer é poder”. E certamente a maioria dessas pessoas, à noite, em volta de fartas ceias, celebram o “espírito de natal”.
    Para uma mulher que dizia não ter apresentado os documentos pra atualizar o cadastro por falta de dinheiro para pagar o transporte, um cidadão respondia: “Tem de cortar mesmo…na própria reportagem diz que não levou declaração exigida porque não tem dinheiro pro ônibus…se vira gente…vai a pé….de carona…povo folgado recebe programa social e ainda não quer cumprir requisitos…a teta da folga secou..ou cumpre ou corta mesmo mais que correto”
    Tenho 74 anos e quem me conhece sabe que raramente desanimo. Mas confesso que ultimamente me bate um grande cansaço de espírito

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