18 de junho de 2026

Como responder a uma fascista, por Jean Wyllys

 
 
Por Jean Wyllys
 
 
Como responder a uma fascista (ou um pedido de desculpas a Eduardo Suplicy e a Fernando Haddad)

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Amigos e seguidores me questionaram privada ou publicamente se Celene Carvalho – a fascista que insultou, aos gritos, Eduardo Suplicy e o prefeito Fernando Haddad na Livraria Cultura, em São Paulo, há alguns dias, e cujo vídeo da agressão viralizou na internet – é mesmo filiada do PSOL. Como, no momento do questionamento, eu não sabia a resposta (afinal de contas, o PSOL tem representação em quase todo o Brasil e eu não conheço nem um centésimo dos seus filiados), eu me calei e fui pesquisar.

Para minha surpresa e infelizmente, Celene era, sim, filiada ao PSOL de São Lourenço, Minas Gerais. Ela inclusive foi candidata pelo partido numa das eleições passadas. A representação do PSOL em Minas informou que já havia pedido o afastamento da fascista. Porém, como o pedido de afastamento não fora devidamente encaminhado à Comissão de Ética da direção nacional do partido, Celene continuava constando da lista de filiados do PSOL. Mas, com esse episódio, a direção nacional do partido vai acelerar a expulsão da fascista.

Apesar de criterioso e rigoroso em seu processo de filiação, o PSOL não está imune a infiltrações de pessoas que nada têm a ver com seu programa nem ideologia. Algumas dessas infiltrações se devem à disputa interna ao partido entre suas diferentes tendências; outras se devem a tentativas deliberadas, por parte de outras legendas, de desqualificar um partido cada dia mais respeitado pela opinião pública.

Creio que se Celene tenha se infiltrado no PSOL devido às disputas internas. Tendo em mente apenas a informação de que o partido nascera de uma dissidência do PT, a fascista deve ter achado que o PSOL seria terreno fértil para seu antipetismo doentio e certamente contou com o apoio de algum dirigente que pretendia usá-la nas disputas internas. 
Celene nada tem a ver com o PSOL nem com suas figuras públicas. Ela está mais bem próxima do demo-tucanato (ou seja, das ideias antipetistas comuns ao PSDB e ao DEM) e dos fascistas com colunas na “grande mídia”, tanto que, em seu perfil no Facebook, pululam selfies com Aécio Neves, Reinaldo Azevedo et caterva, sem falar de sua idolatria ao juiz Sérgio Moro.

O PSOL que meus companheiros de bancada e eu representamos está tão longe de Celene que os grupelhos de analfabetos políticos pró-impechment de Dilma que atuam na internet em sintonia com parlamentares do DEM e do PSDB (grupelhos que a fascista tanto admira e dos quais compartilha postagens em seu perfil na rede social) vivem nos acusando de “linha auxiliar do PT” e duvidando da oposição que fazemos ao governo da presidenta Dilma.

Celene cabe perfeitamente naquela já clássica fotografia em que parlamentares do PSDB, DEM e PPS e outros do baixíssimo clero da Câmara Federal e “líderes” dos grupelhos de analfabetos políticos pró-impechment aparecem sorridentes e de dedo em riste ao lado do presidente da casa, Eduardo Cunha, denunciado formalmente – e com robustas provas – pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro (inclusive em igreja evangélica) e evasão ilegal de divisas. Celene comunga da mesma indignação seletiva dessa gentalha que quer o impechment de uma presidenta da República sobre qual não pesa qualquer denúncia de crime algum, mas apoia um presidente da Câmara Federal que todos sabemos ser, devido investigações dos ministérios públicos suíço e brasileiro, um criminoso contumaz e cínico.

Aliás, graças a esse apoio, os grupelhos de analfabetos políticos ganharam, de Eduardo Cunha, o direito de violarem, com a complacência e a proteção da Polícia Legislativa, o Ato da Mesa, em vigor desde 2001, que proíbe acampamentos e palanques em frente ao Congresso Nacional. O patrimônio histórico e cultural se encontra manchado pelo verde-oliva das barracas de camping caras erguidas sobre o gramado pelos grupelhos pró-impechment (ao mesmo tempo, a Polícia Legislativa proibiu que sem-teto, indígenas e movimentos que pedem o afastamento de Cunha ali se instalassem!). A imprensa não disse o “a” a respeito dessa ilegalidade! (Imaginem o que diriam se fossem as barracas do MST!)

Antes de insultar Suplicy e Haddad, Celene fizera parte de um grupo que tentou constranger Dilma e Lula durante uma festa de casamento para qual foram convidados. Sua postura, entretanto, não é isolada nem está fora do contexto de crise política que vivemos. Ela é parte do “cotidiano autoritário” que se engendrou no Brasil durante e após as eleições de 2014 em função da linha de atuação adotada pelo PSDB e que é analisado pela filósofa Marcia Tiburi em seu novo e necessário livro “Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro” (Editora Record), do qual tive a honra de assinar o prefácio.

Celene é produto da desonestidade intelectual e da má fé de editores, colunistas e articulistas que atuam na chamada “grande mídia” e que deformam o imaginário e o caráter de sua audiência com coberturas parciais, meias-verdades, boatos alçados à condição de fatos, declarações selecionadas e mentiras deliberadas. Não preciso citar seus nomes. Celene é fruto da canalhice e da demagogia da oposição de direita na Câmara Federal e no Senado, blindada por editores, articulistas e colunistas da “grande mídia”.

O episódio de Celene dá sequência ao macartismo tupiniquim (muito em vigor durante a ditadura militar!) e que já vitimou Guido Mantega, Alexandre Padilha, José Eduardo Cardoso, Stédile, Jô Soares, Marieta Severo, o rapper Flávio Renegado, os médicos cubanos, os imigrantes haitianos e o casal de intelectual de Perdizes. O mesmo macartismo que, ontem, decidiu, numa expressão sem precedentes da burrice motivada ou da má fé deliberada, atacar o último ENEM por conter questões sobre a persistente violência contra a mulher e sobre o racismo na sociedade brasileira.

Em seu maravilhoso “Como conversar com um facista”, Marcia Tiburi chama atenção para o papel da burrice – aquilo que Hannah Arendt caracteriza como “vazio do pensamento” – na banalização do mal a que assistimos ora chocados ora silentes. O fascista não pensa nem reflete criticamente: apenas repete afirmações que estão de acordo com os preconceitos que carrega em si há tempos e dos quais não conseguiu se livrar. “O fascismo é a máscara mortuária do conhecimento”, explica a filósofa em seu livro.

Os que se calam hoje diante da escalada do fascismo no Brasil, por conveniência, preguiça ou egoísmo, não têm ideia do que lhes espera no futuro se esse mal não for devidamente contido. O fascismo e o nazismo aniquilaram milhões de seres humanos com requintes de crueldade pelo simples fato de estes serem judeus, homossexuais, ciganos e comunistas. Não se esqueçam disso!

Peço muitas desculpas a Suplicy e a Haddad, homens públicos que gozam do meu respeito e da minha admiração. O PSOL repudia veementemente não só as agressões de Celene como também o antipetismo odioso expresso pela “grande mídia”, pelos partidos de oposição de direita e pelas hostes fascistas na internet (sempre juntos e misturados!). Só a parte obtusa da militância petista nas redes sociais – obtusa e adepta da má fé como sua contraparte tucana – pode achar e dizer que o PSOL endossaria essa barbárie. Por outro lado, o demo-tucanato pode me chamar à vontade de “linha auxiliar do PT” se isso significar se colocar contra a estupidez e a desonestidade intelectual dos que atacam a agenda e as figuras públicas petistas comprometidas com a justiça social! 

Jamais sejamos complacentes com fascistas. Reajamos sempre às suas ações. Mas, num gesto humanitário que nos cabe, apiedemo-nos dessas almas pequenas; elas foram envenenadas por canalhas que, ao contrário de nós, estão pouco interessados num mundo mais justo e humano.

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

39 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Arnaldo Costa

    27 de outubro de 2015 10:12 am

    Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia.

    Essa mulher é uma desequilibrada, doente.  Tem que internar. Mistura ignorância com desvio de comportamento. Também, quem mandou não estudar. Falta senso crítico. Infelizmente, essas pessoas sem formação tornam-se presas fáceis para a nossa imprensa partidária e para a máfia demotucana, que montou todo esse circo contra a esquerda. A que ponto chegamos! Cansamos de ser enganados!

     

    “Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia.”

  2. alexis

    27 de outubro de 2015 10:13 am

    falou tudo

    clap, clap, clap!

    Parabéns Jean, da parte de um petista que também lhe respeita.

  3. leodffff

    27 de outubro de 2015 10:18 am

    Infelizmente, o Pissol não passa disso ainda

    Infelizmente, o Pissol não passa disso ainda. 

    Uma bandeira antipetista.

    Falta amadurecer e muito.

    “Creio que se Celene tenha se infiltrado no PSOL devido às disputas internas. Tendo em mente apenas a informação de que o partido nascera de uma dissidência do PT, a fascista deve ter achado que o PSOL seria terreno fértil para seu antipetismo doentio e certamente contou com o apoio de algum dirigente que pretendia usá-la nas disputas internas.”

  4. vera lucia venturini

    27 de outubro de 2015 10:31 am

    Jean Wyllys é o meu querido

    Jean Wyllys é o meu querido da vez. Pena que é do Rio e eu voto em São Paulo. E se sai candidato a presidente a Câmara perde um parlamentar lúcido, honesto e corajoso . Portanto não é a toa que estão perseguindo seus doadores de campanha e os doadores de Cunha continuam tranquilos. Os tribunais de exceção em que se transformou a Justiça do Brasil servem pra isso mesmo: cassar a tiro quem é honesto para permitir que os verdadeiros ladrões se locupletem pra todo o sempre.

     Um beijo pra ele.

  5. Aline C Pavia

    27 de outubro de 2015 10:38 am

    Melhor quadro do PSOL

    Não à toa é fluente em quatro idiomas e se não me engano tem mestrado e doutorado pela UFBA.

    Jean Wyllys tem uma qualidade raríssima, que Haddad também tem: a capacidade de concluir um raciocínio oral enquanto pensa na resposta a um outro tema paralelo, como se estivesse lendo as respostas na mão.

    Mais caprichada que sua dialética é sua expressão escrita. Foi eleito pela terceira vez consecutiva o melhor parlamentar do Congresso com muitos méritos; como ninguém é perfeito, às vezes exagera e radicaliza em suas posições e militância; mesmo assim é um político como pouquíssimos neste país, em quem competência, inteligência e compaixão andam juntas.

    Parabéns Jean.

  6. CB

    27 de outubro de 2015 10:44 am

    O PSOL é linha auxiliar da

    O PSOL é linha auxiliar da direita

    http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/202581/Randolfe-pede-quebra-de-sigilo-de-empresa-do-filho-de-Lula.htm

    1. CB

      27 de outubro de 2015 11:11 am

      Tá certo, pra não dizer que

      Tá certo, pra não dizer que não falei das flores, não vou omitir que o tal de randolfe pelo menos se bandeou mesmo para o novo partido de direita, A Rede. O PSOL precisa se refundar…

    2. victorf

      27 de outubro de 2015 11:38 am

      O RANDOLFE É DA REDE! PRESTE

      O RANDOLFE É DA REDE! PRESTE ATENÇÃO, Ô MANÉ!

  7. Maria Kenny

    27 de outubro de 2015 10:49 am

    Parabéns ao Jean e ao PSOL.

    Parabéns ao Jean e ao PSOL.

  8. marcio valley

    27 de outubro de 2015 10:52 am

    Jean WIllis cresce a cada

    Jean WIllis cresce a cada dia. Parabéns.

  9. Ermame

    27 de outubro de 2015 10:54 am

    Enxergar a situação passa por reconhecer nossa parcela de culpa

    Não podemos olhar para um cidadão e achar que o problema esteja localizado. A sociedade brasileira tem valores nazistas e ponto. A nossa estrutura política é formada por um órgão que faz parte de poder mas se apresenta como instituição, e mais elemento de estabilidade da democracia. Um órgão de sobrepoder, que não se limita a qualquer norma, e nenhum tipo de controle, antes controla todos os demais. Um órgão que se faz presente como presidente da fiscalização eleitoral e se faz presente na presidência da fiscalização administrativa do poder judiciário. Todos se submetem às decisões dele, menos ele mesmo. Seria a instituição da decisão, pois na literatura de formação da nossa sociedade há uma singela obra que afirma que o melhor é a decisão no caso concreto. O nome do referido órgão, no meu ponto de vista, é “fürher”. Com todo respeito: o que esperar de uma sociedade que adota Mezger e Schmitt como literatura básica sem contextualizar de forma adequada o passado. A nossa sociedade é nazista e nossas instituições precisam deixar de ser. 

  10. marco aurélio barroso

    27 de outubro de 2015 10:59 am

    Fascista

    Quando você diz que o PSOL é criterioso e rigoroso em seu processo de filiação, você é menriroso e pusilânime diariamente ou só às 3as feiras?  

  11. marlon

    27 de outubro de 2015 11:01 am

    Celene é a idealizadora do Pixuleco (boneco de Lula)

    Nassif e demais colegas,

    chamo a atenção para o fato de esta senhora ser a idealizadora do Pixuleco, o boneco infláveli gigante do presidente Lula trajado de presidiário. Esse é o trabalho atual dela: militante do golpe profissional, ela viaja ao Brasil com seu boneco no porta malas. Vive de venda dos bonequinhos e da “ajuda” de militantes. Seu ódio ao PT é o que a mobiliza. Tudo isso está num perfil dela na Revista Piauí deste mês que trata, inclusive, do episódio de sua filiação ao PSOL (não sou de partido algum, mas antes de acusá-lo aqui, leiam como se deu sua filiação e sua candidatura sem sucesso). O deputado Jean Wyllys deve lê-la, sem dúvida.

    abraço, Marlon

     

    Celene Carvalho é católica, foi imigrante ilegal nos Estados Unidos e entende de carro. Tem rodado pelo Brasil levando o Pixuleco no porta-malas para as manifestaçõesEDIÇÃO 109 | OUTUBRO DE 2015

    _vultos infláveis da República

    NA ESTRADA COM PIXULECO

    Entre facadas e aplausos, o boneco gigante do ex-presidente Lula faz sua turnê pelo Brasil

    ROBERTO KAZ

    TAMANHO DA LETRA

    A-A+A Celene Carvalho é católica, foi imigrante ilegal nos Estados Unidos e entende de carro. Tem rodado pelo Brasil levando o Pixuleco no porta-malas para as manifestaçõesFOTO: ROBERTO KAZ

    “Joinha”, disse Celene Carvalho, ao telefone. “Vê aí a próxima parada para eu poder ter rumo aqui. Vamos esquematizar Porto Alegre. Tem que ter gradil e segurança.” Ao desligar, comentou, preocupada, que antes seria preciso reparar o estrago. Fez um apelo aos céus: “Deus, protege e ajuda para que a gente possa costurar o Pixuleco tranquilamente.”

    Eram duas da tarde de um sábado recente em Caxias do Sul. Fazia pouco que o Pixuleco – o boneco inflável do ex-presidente Lula vestido de presidiário – fora enchido, exposto e esfaqueado na praça mais movimentada da cidade. Ele havia descido de São Paulo à Serra Gaúcha em companhia de Carvalho para participar da semana que comemora a Guerra dos Farrapos. Acabou vitimado pela tempestade e, logo em seguida, pelo atentado.

    “Como chovia muito, achei melhor esvaziá-lo”, explicou Carvalho, relembrando a cena. “A turma correu para debaixo de uma marquise e eu fui comprar meias Kendall na farmácia.” Foi quando, na ausência de um guarda-costas, surgiram dois rapazes encapuzados. Agacharam-se sobre o boneco, que estava sozinho, murcho, dobrado na calçada, e passaram a apunhalá-lo.

    Houve correria. Alguém chamou a polícia. Ninguém foi capturado. Suspeitou-se de um homem que se aproximara aos berros, horas antes, chamando todos de “golpistas” e “safados”. O empresário Alexandre Lima, que ajudara a organizar a ida do boneco a Caxias do Sul, se dizia entristecido: “Isso mostra que a cidade abriga criminosos. Um cara que apunhala um boneco com uma faca pode qualquer coisa.” Celene Carvalho parecia menos abalada: “A gente já está preparada. O Pixuleco não é um coitado. Ele é um gorila, está aí pra briga.”

    O boneco acabou sendo colocado na caçamba de uma carreta, que o transportou a um galpão, onde seria costurado.

     

    OPixuleco veio ao mundo em agosto, numa fábrica de objetos infláveis emSão Paulo. Nasceu grande – tinha 15 metros de altura – e pesado – 100 quilos, vazio, ou meia tonelada, quando inflado. Começara a ser concebido dois meses antes, na sede do Movimento Brasil, em Maceió. O grupo, que se define como defensor da democracia, da ética, da honestidade, do civismo, do patriotismo, do antibolivarianismo e da brasilidade, foi um dos vários que surgiram nos últimos anos em oposição ao governo federal.

    O empresário Paulo Gusmão, de 52 anos, é quem responde pelo marketing do Movimento Brasil. “O sucesso das manifestações estava sendo medido pelo número de pessoas”, contou-me por telefone. “Mas o brasileiro é acomodado, não vai para a rua. Ficava aquela comparação maldosa dizendo que o movimento tinha esfriado.” A diretoria do grupo pensou ser necessário criar um símbolo – ou, como explicou Gusmão, “alguma coisa que tirasse a importância do número de manifestantes”. O símbolo seria um gigantesco Lula inflável.

    Orçaram a ideia e organizaram uma vaquinha para bancar o custo de 12 mil reais. Gusmão passou a rascunhar o boneco. Definiu, com sua equipe de marketing, que ele deveria ser grisalho, ter quatro dedos na mão esquerda e possuir um semblante triste e algo assustado. Usaria uniforme de detento, cujo número – 13-171 – uniria a legenda do PT ao artigo do Código Penal para o crime de estelionato. Estaria acorrentado à réplica de uma bola de chumbo com o nome da Operação Lava Jato, a investigação da Polícia Federal sobre o esquema bilionário de desvio de recursos na Petrobras. “Fizemos uma gestão de equipe”, explicou o empresário. O resultado, que lembra um personagem do desenho South Park, foi então enviado à fabrica, em São Paulo.

    Faltava batizar a criatura. Pensaram em Luleco, e depois em Pixuleco – eufemismo que o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, empregava ao cobrar propina de empresas ligadas à Petrobras. O termo também designava uma fase recente da Operação Lava Jato. “Tínhamos que promover a expressão”, contou-me Celene Carvalho quando a encontrei em Caxias do Sul. “Era preciso dar ênfase ao crime, não ao cara.” Venceu Pixuleco.

     

    Na sexta-feira, 14 de agosto, o boneco deixou São Paulo socado entre malas e caixas no bagageiro de um ônibus. Tinha estreia marcada para dali a dois dias, durante o protesto nacional que estava sendo arquitetado contra o governo Dilma. Seria inflado às nove da manhã na Esplanada dos Ministérios, deixando para trás a condição de anonimato.

    O sucesso foi tão instantâneo quanto fugaz. Pouco depois de erguido, uma rajada de vento levantou o boneco. Foi um corre-corre atrás das cordas que o prendiam ao chão, na tentativa de contê-lo. A força contrária acabaria abrindo um rasgo de um metro na altura do pescoço. Como planejado, o Pixuleco saiu em jornais, revistas e sites. Depois voltou a São Paulo – onde ficaria sob a tutela de Carvalho –, para ser remendado na fábrica.

    O roteiro de rasgo e remendo se tornaria constante. Na manhã de sexta, 28 de agosto, o boneco foi montado na capital paulista, em meio à ponte estaiada, na Zona Sul da cidade. Rasgou. Recebeu ajustes. À tarde reapareceu em frente ao prédio da Prefeitura. Lá, pela primeira vez, seria esfaqueado. A diligente Carvalho providenciou o conserto, enquanto a manifestante Meire Lopes – que integra os movimentos Revoltados On Line, Brasil Melhor e SOS Brasil – ia à 3ª Delegacia de Polícia registrar um Boletim de Ocorrência. Cauteloso, o delegado Renato Velloso pediu um exame de corpo de delito: “O boneco citado não chegou a ser apresentado nesta distrital, porém, ad cautelam, e com orientação para tal, determinou-se a expedição de requisição pericial a ser realizada pelo Instituto de Criminalística.” Como já estava recebendo reparos na fábrica, o boneco acabou não sendo periciado.

    A partir de então, protetora e criatura virariam unha e carne. No domingo, dia 30, Carvalho o levou para desfilar na avenida Paulista: “Todo mundo tirava foto. Um rapaz deu 200 reais para ajudar a causa.” Na terça seguinte, foram a Curitiba: “Primeiro paramos em frente à carceragem da Polícia Federal. O pessoal desceu para agradecer. Depois seguimos para o prédio da Justiça Federal, onde o Moro trabalha.” (O juiz Sérgio Moro, que julga os réus da Operação Lava Jato, é idolatrado por dez entre dez integrantes do movimento.)

    A dupla voltou a São Paulo e, após uma breve parada, seguiu de carro para o desfile de 7 de setembro em Brasília. Lá o boneco encontraria seu alter ego feminino – um inflável de Dilma Rousseff, também encomendado pelo Movimento Brasil, que acabaria não alcançando o mesmo sucesso. Novo rasgo, nova cicatriz, nova baixa na fábrica. No domingo seguinte, a guardiã o levou direto da oficina para um jogo de futebol da série D, em Ribeirão Preto. “É bom ele ir a um estádio, para que as pessoas saibam o que está acontecendo no país”, explicou. “Além disso, Ribeirão Preto é a terra do Palocci.”

    No dia 16 de setembro, aniversário de um mês do Pixuleco, os dois viajaram de carro para Presidente Prudente, onde a presidente da República entregava 2 mil casas. “No meu hotel tinha quarenta pessoas da comitiva da Dilma. Fiquei preocupada”, lembrou Carvalho. O boneco foi inflado duas vezes, de manhã e à tarde, e nas duas ocasiões precisou ser costurado. “É um estouro danado quando rasga.”

    Celene Carvalho esperava retornar a São Paulo em seguida, mas acabou convencida por Daniel Santos, representante do Movimento Brasil em Caxias do Sul, a levar o boneco ao encerramento da comemoração da Farroupilha. Dobrou seu companheiro de viagem, enfiou-o mais uma vez no porta-malas e, ao som de Elis Regina, afundou o pé na tábua. Dias depois me diria: “Para mim, mil quilômetros já virou piada.”

     

    Às duas e meia da tarde, Carvalho chegou ao galpão onde repousava o Pixuleco, depois de ter sido esfaqueado em Caxias do Sul. O boneco, que amanhecera imponente, em praça pública, cercado de correligionários, agora não passava de um amontoado de lona suja, retorcida, molhada e perfurada. Foi tirado da carreta e estendido no chão para ter os danos avaliados. “Vai dar trabalho isso aí. Está muito cortado”, comentou sua companheira, enquanto fotografava cada buraco.

    Ela voltou ao carro e tirou do porta-malas dois pedaços de lona – um preto e um branco. Notou que havia esquecido em Presidente Prudente o kit de costura que costuma levar nas viagens. Ligou para Daniel Santos, do Movimento Brasil: “Daniel, traz agulha e linha. Meu kit de costura está furado.” Depois explicou: “Sempre peço para deixar uma costureira de plantão. O Pixuleco rasga fácil.”

    O galpão estava movimentado. Além de Carvalho, havia um repórter do Wall Street Journal e uma equipe do Pioneiro, o maior jornal de Caxias do Sul. Também estavam o dono da empresa, Felipe Santos, e a ativista Carla Zambelli, porta-voz dos movimentos pelo impeachment. Zambelli viera de São Paulo naquela manhã para participar da manifestação. “Eu já tinha visto o Pixuleco em Brasília”, explicou. “Mas esse ato de hoje era simbólico. A Revolução Farroupilha tem muito a ver com o que está acontecendo no país. Foi uma luta contra os impostos.”

    Santos chegou com as costureiras – sua mãe e sua sogra –, que examinaram os rasgos, alguns com quase 1 metro de comprimento, e vaticinaram: “Isso na mão não serve.” Ele foi incumbido de achar alguém que tivesse uma máquina de costura. Diante da demora, as duas senhoras, com a ajuda de Carvalho e Zambelli, começaram a costurar.

    “Eles acham que rasgando o Pixuleco vão parar a gente”, resmungou Carvalho, enquanto dava um ponto na lona. Carla Zambelli aproveitou a deixa: “Acho que a gente tem que fazer um vídeo nesse sentido. Alê, vamos fazer um vídeo?” O empresário Alexandre Lima pegou a câmera para filmar Zambelli costurando o boneco. Ele foi o primeiro a falar: “Nós não esmorecemos frente a agressões. Nós não esmorecemos frente a atos de violência que são praticados contra nós.” Ela emendou: “Sempre terá alguém para nos ajudar. Sempre terá alguém lutando ao nosso lado contra o PT, e contra as mazelas da corrupção. A gente vai consertar o boneco, e ele estará de pé novamente rodando o Brasil para que a gente possa colocar o Lula na cadeia e tirar a Dilma de uma vez da Presidência da República. É impeachment já.” Terminado o vídeo, Zambelli deixou a costura de lado.

     

    Às cinco da tarde, a máquina e uma terceira costureira finalmente chegaram. O dono do galpão colocou um disco de sua banda, a The Mennas. Carvalho comentou que na semana seguinte ficaria pronto o jingle do Pixuleco. Foi interrompida por Daniel Santos, que exclamou eufórico: “Celene, a Dilma está indo para Porto Alegre!”

    “Quando?”

    “Hoje”, respondeu. “Querem levar o boneco para a frente da casa dela.”

    “É muito invasivo”, ponderou Carvalho. “Acho que a gente não deve cutucar tão de perto.” Após um tempo em silêncio, mudou de ideia: “Mas, olha, diante dessa agressão, seria um troco interessante. É uma coisa de honra. Vamos meditar.”

    A companheira do boneco conectou o celular ao wi-fi (ela se comunica quase sempre por WhatsApp e, por falta de crédito no telefone, só checa as mensagens quando encontra uma rede grátis). Entraram dezenas de mensagens. “A turma está apavorada perguntando sobre o Pixuleco”, explicou. “Esqueci de mandar feedback.” Decidiu filmar o boneco sendo remendado: “Pessoal, estamos aqui em Caxias do Sul. Pixuleco foi ultra-atacado com quinze facadas. Está sendo costurado por três senhoras; as meninas são maravilhosas, estão firmes e fortes. Foi só mais uma agressão dos petralhas. Mas se eles acham que atacando o Pixuleco vão nos parar, estão enganados. Ele vai continuar fazendo a turnê dele pelo Brasil. Está apenas começando.”

    As costureiras terminaram. O boneco foi estendido de ponta a ponta no galpão, para uma última checagem. “Pixuleco já em posição aqui. Pessoal, vamos inflá-lo para ver o que acontece”, ordenou a escudeira. As duas bombas que o abastecem foram ligadas. Enquanto ele era enchido, Santos descobriu que Dilma voltaria a Brasília. Carvalho pegou o telefone: “Pessoal, vai ser abortado. Dilma volta hoje para Brasília. Pixuleco retorna para São Paulo.” Ao ver o boneco pronto, abraçou cada costureira: “Vocês salvaram o Pixuleco. Quem agradece não sou eu. Quem é agradece é o Brasil.”

     

    Celene Salomão Carvalho é filha de Célio com Marlene. Nasceu há 50 anos em São Lourenço, Minas Gerais, mas passou a infância e a adolescência no Rio de Janeiro – primeiro no Méier, depois em Ipanema e por fim na Barra da Tijuca. Hoje mora em São Paulo, onde aluga um flat pequeno, de quarto e sala, no bairro da Liberdade. Na sala, tem uma foto do papa Francisco e um livro do padre Juarez de Castro, responsável pela paróquia que ela frequenta. Vai à igreja todo domingo, “a não ser quando tem manifestação”.

    Econômica, pede desconto em restaurante, hotel e posto de gasolina. Prefere abastecer o carro nos postos da bandeira Shell – quando é Shell, com o litro a 3,09 reais, se vê impelida a parar. Dirige bem, entende de carro. “Esse Nissan novo eu não tinha visto ainda, o Murano”, comentou certo dia. Abraça, decora nomes, tem um jeitão simpático de tia do interior. Abusa dos diminutivos: “turminha”, “quilometrinhos”, “joinha”. Também adora o termo “nesse ínterim”. É solteira, não tem filhos. A mãe, os dois irmãos e a irmã moram no Espírito Santo. O pai, de quem era próxima, faleceu há vinte anos.

    Sua vida, pela quantidade de reviravoltas, tem um quê de Forrest Gump. Aos 15 anos ela viajou com o pai pelos países comunistas da Europa. “Foi meu presente deaniversário”, contou. “Meu pai tinha nascido pobre, trabalhado muito, comprado um hotel. Quis me mostrar que o comunismo não funcionava.” Visitaram Rússia, Bulgária, Alemanha Oriental, Romênia e Iugoslávia. “Fomos até numa reunião dos camaradas. Ele fingia ser comunista para participar”, disse. “Nos serviram bofe, que é pior que carne de terceira. Era carne que dávamos para cachorro. Aquela ideologia nunca me agradou.”

    Finda a escola, resolveu estudar hotelaria. Estagiava no hotel Sheraton, no Rio, quando uma prima, recém-diagnosticada com câncer, pediu-lhe que a acompanhasse durante o tratamento nos Estados Unidos. “De todos na família, eu era quem melhor falava inglês”, explicou. “E nem todo mundo se dava com ela.” Aceitou viajar, sob a condição de ganhar, na volta, um bilhete de avião para a Noruega. “Eu tinha uma amiga norueguesa. Sempre quis morar lá.”

    Em 1991 partiu, com a prima, para um período de três meses em Pittsburgh. Servia de tradutora, amiga, guia turística. No hospital, conquistou a simpatia dos médicos, que passaram a lhe pedir ajuda para lidar com outros pacientes brasileiros. Houve ciúmes, a promessa da passagem foi rompida. A prima voltou, a acompanhante ficou.

    Ilegal, passou a trabalhar numa pizzaria. Lavava prato, preparava sanduíche e, vez por outra, entregava pizza em algum set de filmagem. “Pittsburgh é importante no cinema”, disse. “Vi a Jodie Foster fazendo O Silêncio dos Inocentes. Também entreguei numset que tinha o Bruce Willis.”

    Os três meses viraram dez anos. Ganhou dinheiro, comprou casa. No apuro de conseguir um visto permanente, pagou 5 mil dólares para casar com um americano que não conhecia. Arrependeu-se, divorciou-se, continuou na ilegalidade. Em 2000, foi denunciada à imigração. “Tive medo de ser deportada. Fiz o que não devia ter feito”, contou. “Vendi tudo e voltei ao Brasil.” Seu coração continuou nos Estados Unidos: “No 11 de Setembro fiquei tão triste que fui comer no McDonald’s. Foi minha forma de prestar solidariedade.”

    De volta, escolheu São Paulo. Gerenciou um restaurante nos Jardins, um flat na Bela Vista e um estacionamento em Pinheiros. “O que aparece eu faço”, explicou. “Adoro pegar troço caído e levantar.” Foi o caso do estacionamento, até então deficitário. Pintou golfinhos na parede e um polvo na guarita. Pediu a um amigo, mergulhador, que trouxesse conchas para presentear as crianças. O local foi rebatizado de Aquarium Park. “Ficou um show de estacionamento”, lembrou, orgulhosa. “O pessoal fazia fila para parar.”

    Em 2005, após fundar uma associação de moradores, expulsar invasores de um prédio vizinho e ter a casa invadida, decidiu mudar de vida. Abriu uma loja de bijuteria em São Lourenço, onde nasceu. Talvez pelo interesse político – ou talvez por servir um café de cortesia –, acabou virando a ouvidora informal dos 50 mil moradores da cidade. “Eu era um para-raios de reclamações”, contou. “De noite, o pessoal deixava documento de denúncia por baixo da porta.” Criou um movimento, denunciou o prefeito. Seis anos depois, por insistência dos amigos, decidiu ela mesma se candidatar.

    “O problema é que só tinha um partido disponível na cidade”, contou. O partido era o PSOL. “Fui a São Paulo conversar com o Plínio de Arruda Sampaio. Disse: ‘Plínio, eu não concordo em nada com o seu partido.’” Acabou convencida. “Fingi que era um partido novinho meu. Na minha ilusão, achava que poderia salvar a cidade.” Ficou em último lugar, com 370 votos. Depois, mais uma vez, voltou a São Paulo.

     

    Um dia depois de o Pixuleco ser remendado, Celene Carvalho voltou ao galpão em Caxias do Sul. Encontrou Felipe Santos, Daniel Santos e Alexandre Lima de rodo na mão, limpando o boneco. Ouviu deles que a prefeitura, preocupada com a chuva, cancelara o desfile da Farroupilha. Na falta de público, Carvalho achou por bem rumar para casa.

    Pediu aos rapazes que a ajudassem a guardar o Pixuleco. Começou pelas mãos e orelhas, que dobrou para dentro como se fossem mangas de camisa. Continuou dobrando, até que a largura da lona atingisse 1 metro (mantendo, no entanto, os 15 metros de comprimento). “Agora tem que enrolar igual a um charuto”, ordenou, apontando para uma das pontas. Reduzido a 1 metro quadrado, o boneco foi colocado no bagageiro do carro.

    A escudeira deu partida no Honda Fit preto, que tem mais de dez adesivos (“Movimento Brasil”, “Fora CorruPTos”, “#ForaDilma”, “#LulaNuncaMais”). Ligou o GPS, que respondeu em italiano:Procedere due chilometri, poi tenere la destra. “Me distrai”, explicou. “Acho tão bonita a língua. E quando eu for para a Itália, vou saber as direções.”

    A meu pedido, passou a falar de política. Sempre votou no PSDB, por ser o partido “com um histórico de gestão mais completo”. No ano passado usou o próprio dinheiro para apoiar Aécio Neves: “Larguei o trabalho para me dedicar à campanha. Pus uma caixa de som no carro e espalhei placas por várias favelas de São Paulo.” Foi quando passou a integrar o Movimento Brasil. “E quando o Aécio perdeu, o movimento continuou unido para combater o governo”, disse. Admira o vínculo do candidato com a família: “Ele respeita a mãe e as irmãs. Seria bom para o país do ponto de vista moral.”

    Celene Carvalho lê os blogueiros da Veja, embora tenha perdido o gosto por Reinaldo Azevedo, “que entrou numa de falar mal do Sérgio Moro”. Não gosta do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. “Por mim eu bateria muito no PMDB”, explicou. “Renan, Temer, Cunha, tudo farinha do mesmo saco.” Lamenta a falta de lideranças políticas. “Tirando Lava Jato, Ministério Público e Polícia Federal, nada funciona. Não vejo ninguém representando a nossa causa.”

    Vez por outra, virava para trás e falava com o pacote no bagageiro: “Tudo bem aí, Pixuleco?” Explicou que o boneco já não carecia de mídia: “Ele é internacional. A missão agora é levantar o astral e energizar a população.” Em vez de ir às grandes cidades, acha que o boneco tem que visitar “locais com pessoas como nós, que lutam contra a corrupção”.

    Quando é assim, o custo tende a ser compartilhado. Em Caxias do Sul, ganhou dos anfitriões a estadia no hotel, mas pagou combustível e pedágio. “A viagem já me custou uns 1 300 reais”, explicou, mostrando-se habituada a esse tipo de filantropia. “Se tem uma coisa que não me importo é de usar meu dinheiro. Quando encontrei o Aécio em Brasília, depois das eleições, ele me disse: ‘Nossa, ouvi falar demais de quanto você trabalhou por mim.’”

    Para não ficar no vermelho, ela vende bonecos infláveis pequenos nas cidades por onde passa – em Presidente Prudente foram 222, a 20 reais cada. “De vez em quando também pinga uma tradução aqui e ali”, explica. Em outubro, vai gerenciar o café do flat onde mora: “Sou amiga do proprietário, eu o conheci em Pittsburgh, quando a mulher dele foi tratada.”

    Paramos num posto em Santa Catarina (da Shell). Um frentista elogiou o carro adesivado. Carvalho perguntou se ele conhecia o boneco do ex-presidente. Conhecia. Ela abriu o porta-malas, mostrou o pacote e deu a ele uma nota falsa de 50 reais – ou 50 pixulecos – com a imagem de Lula e Dilma. O frentista se animou, chamou mais gente. “E assim eu vou testando a popularidade dele”, ela comentou, feliz.

     

    Na madrugada de sexta para sábado, 26 de setembro, o Pixuleco voltou a deixar São Paulo. Tinha compromisso em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, para onde seguia após nova semana de reparos. Como a viagem era longa e tinha sido decidida em cima da hora, a guardiã do boneco contratou um motorista por 2 200 reais. Chegaria ao destino às duas da tarde de sábado.

    “Olha o Pixuleco aí!”, gritou, ao descer do carro em frente ao Aquário do Pantanal. Cumprimentou cada uma das vinte pessoas que a aguardavam – integrantes dos movimentos Pátria Livre e Maçons BR. O Pátria Livre, que reúne vários médicos descontentes com o Programa Mais Médicos, havia desembolsado 3 mil reais para trazer o boneco. Quase todos vestiam preto.

    Um homem usava um boné escrito “Eu <3 Brasil”. Uma mulher andava com a bandeira presa às costas, como se fosse uma espada. O motivo nacional também aparecia em camisas e capinhas de celular. No gradil que protegeria o Pixuleco – exigência de Carvalho para que o público hostil não se aproximasse – havia banners amarrados: “Não mexam com a Lava Jato”, “O Brasil não será uma nova Cuba”, “#LulaNuncaMais, aqui teve Pixuleco”.

    O pacote foi tirado do carro. “Vamos abri-lo”, ordenou Carvalho. “Ele vai ficar de costas para o chão e de barriga para cima.” Os dois motores de ar foram acionados; o boneco, já estendido, começou a desabrochar. Um homem entoou um grito de guerra: “Fora petista, bolivariano! A roubalheira do PT está acabando.”

    Carvalho passou a andar de um lado para o outro proferindo ordens: “Aqui tem que ter mais gente”, “Segura a corda que ele vai querer voar.” Verificava cada detalhe. “Esse ventinho está perigoso”, observou. “O gradil tem que ficar mais espalhado.” Em quinze minutos, o boneco pulou de 100 para 500 quilos, o apogeu de sua forma. Restava levantá-lo.

    Um grupo de cinco pessoas o ergueu pela cabeça. Outro grupo puxou as cordas que pendem de seus ombros e orelhas. O boneco, ainda que bambo, ficou ereto. “Segura atrás”, gritou Carvalho. “Tem que estabilizar.” As cordas foram fincadas no gramado – e a lona sem vida agigantou-se, transformando-se num monstruoso Lula inflável.

    “O Pixuleco está de pé!”, gritaram as pessoas. “Bravo! Esse é o imbatível!”, complementou Carvalho. Olhou-o com orgulho materno: “A gente trocou várias partes porque depois ele vai pro Nordeste. Parece até que as facadas ajudaram. O bicho está imponente.”

    O gradil em torno do boneco foi fechado com cinco seguranças dentro. O movimento Pátria Livre armou uma barraquinha, onde vendia camisas, adesivos e infláveis. Uma integrante passou a colher assinaturas de quem passava. Pedia apoio às dez medidas apresentadas pelo Ministério Público Federal, em março, para o combate à corrupção. É assim toda vez que o Pixuleco é inflado. O projeto – que propõe a criminalização do caixa 2 e a pena de crime hediondo para o desvio de altos valores – deve ser levado ao Congresso quando chegar a 1,5 milhão de assinaturas.

    Mais calma, Carvalho passou a circular pela área. Viu um rapaz apoiando as medidas: “Vamos assinar! Chegando em casa, com calma, no ar-condicionado, você lê cada uma delas.” Também viu um homem com a filha tentando tirar foto do Pixuleco: “Quer que eu tire uma aí, pai? Eu tiro!” Falava da Lava Jato a cada nova conversa.

    Por volta de seis da tarde, cantou com o grupo, diante do boneco: “Olê, olê, olê, olê, estamos na rua pra derrubar o PT.” Logo depois, as bombas de ar que o alimentam foram desligadas. O Pixuleco esmoreceu lentamente, tombando de lado. Sua companheira andou até a região da nuca e abriu um fecho de velcro para ajudar a esvaziá-lo. Botou a cabeça lá dentro e gritou: “Pixuleco! Você vai preso!”

    ROBERTO KAZ

    Roberto Kaz é jornalista. Foi repórter de piauí de 2007 a 2010

     

     

    1. Almeida

      27 de outubro de 2015 12:50 pm

      A reportagem dá a versão dela apenas.

      É interessante para ver a hipocrisia dos atuais cobradores da lisura alheia, pelo respeito das regras e da lei. Ela diz que “sempre votou no PSDB”, mas se filiou num partido sem concordar com ele – “Fingi que era um partido novinho meu” – para seu projeto pessoal de candidatura. Uma oportunista que se vale de fingimento, mentiras e fraudes. Viveu na ilegalidade no EUA e, confessa, comprou um casamento lá por 5 mil dólares, com um homem que não conhecia, para burlar as leis daquele país que ela diz admirar e respeitar. Imagina se não gostasse, como demonstra em relação ao país em que nasceu, onde endossa manifestações em favor de golpes e protagoniza cenas grosseiras de achincalhe, a pessoas públicas de reputação muito honrada, sérias e dedicadas a causas sociais. Acredita na reportagem e nesse trubufu quem quiser, não sei se é seu caso.

    2. André STK

      27 de outubro de 2015 1:33 pm

      Esse povo tem na cabeça o

      Esse povo tem na cabeça o mesmo conteúdo do Pixuleco.Ou seja;Ar.

      ¨No dia 11 de setembro fiquei tão triste que fui comer no McDonald´s.Foi minha forma de prestas solidariedade.¨

      Hilário

  12. jasantos

    27 de outubro de 2015 11:13 am

    Não ao fascismo!!!
    Não vamos tolerar este tipo de comportamento.

    Essa pessoa é resultado de anos de manipulação, de odio do PIG. Mas não é uma coitada não, é só uma imbecil.
    Sei que a direita vai querer se aproveitar do acontecimento.

    Falando em fascismo li há ums meses atrás o livro “Liçoes sobre o fascimo” de Palmiro Togliatti. Lá so descritos os metodos. Recomendo a leitura.

  13. nilo

    27 de outubro de 2015 11:32 am

    Essa senhora deve ser

    Essa senhora deve ser criminal e civilmente processada. Crítica não é um pode tudo, um agressivo desrespeito às autoridades constituidas. A leniência a comportamentos como tais, afrouxa a democracia.

  14. Negrão

    27 de outubro de 2015 11:54 am

    E ele chama os outros de

    E ele chama os outros de fascistas, mais ao explicar ter tido essas coisas, afirma que esta protegido com a imunidade parlamentar.

    Jean é o verdadeiro fascista.

    “Espero que os estados laicos do Ocidente não cedam à pressão desse genocida em potencial; respeitem suas constituições e os direitos humanos”.

    “No Brasil, ao fundamentalismo neopentecostal, soma-se a aterrorizante direita católica, fanática e dada a campanhas difamatórias sujas”.

    “Um negro gordo se opondo a um projeto antidiscriminação de minorias é mais do que burrice, é o fim do mundo”.

  15. Claudio Soares de Sousa

    27 de outubro de 2015 12:11 pm

    Pagando pelo que não fez

    Penso que se houvesse um propósito ao menos politicamente honesto na maior parte dos comentários anteriores, ficariam mais claro que não existe NENHUMA conexão entre a atitude altamente recriminável, porém individual, daquela criatura infeliz e a postura crítica do PSOL perante o PT. Esta, crítica de natureza essencialmente político-ideológica, de um partido que, enfim, proveio de dissidências das hostes petistas (em sua maioria), enquanto aquela manifestante é tão somente uma ex-filiada do PSOL de um pequeno município mineiro, devidamente expulsa em março dessa ano, portanto antes do lamentável episódio. A realidade é essa, o resto é apenas exploração da ingenuidade de uns e outros.

    1. Anarquista Lúcida

      27 de outubro de 2015 9:12 pm

      O problema é que existe conexao sim

      Só eu tive recentemente duas experiências particulares disso. Nao de gritos fascistas como o daquela senhora, mas de ver psolistas participando da “execraçao ao PT” estimulada pela mídia. Nao se tratava de críticas, o contexto nao era esse. A última experiência foi há poucos dias no lugar em que trabalho. Estava havendo uma eleiçao entre um candidato da situaçao (conservadoríssima) e uma chapa formada sobretudo por psolistas. Eu inclusive ia votar na chapa, o episódio me fez anular o voto. Entrei no hall dos elevadores, e alguém tinha chamado o cara que distribuía panfletos de petista. Ele podia, claro, dizer que nao era petista. Mas nao se limitou a isso. “Nós nao somos petistas, de jeito nenhum, a outra chapa é que é apoiada por eles e etc e tal”. Com tom de indignaçao diante da suposiçao “insultuosa”. B*b*c*a. Perdeu um voto.

      E todas as críticas ao “mensalao”, apoiando as teses da mídia? E o Plínio dizendo que nao fazia diferença votar em Serra ou Dilma? Se aliam à Direita, depois dizem que nao.

      Diga-se de passagem, o Wyllys é um bom quadro deles. Bem melhor que Luciana Genro. E nao sou completamente anti-psolista, votei em Freixo e talvez vote nele de novo, o PT do Rio é meio desanimador. Mas jamais candidatos ao Congresso, já há lá antipetistas demais. 

  16. Mutema

    27 de outubro de 2015 12:27 pm

    Quem está por trás do fascismo bossal

    De certa forma, essa senhora é digna de pena: ignorante, manipulável, mal educada etc. Meu argumento é: quem está por trás desse patrocínio ao ódio? Basta ler as manchetes tendenciosas dos jornais, ver as operações tendenciosas da polícia federal, ver o comportamento tendencioso da justiça na operação Lava-jato e no caso do mensalão. Esse nível de ódio é semeado, plantado e germina em terrenos onde existe ignorância e falta de reflexão.

  17. Fabio SP

    27 de outubro de 2015 12:56 pm

    Cuidado Aero-Willis… talvez

    Cuidado Aero-Willis… talvez seja vc que está no partido errado…

    1. vera lucia venturini

      27 de outubro de 2015 2:19 pm

      Não, é você que não tem noção

      Não, é você que não tem noção do que seja a prática da política. Ou é doutrinado pelas mesmas leituras da fascista Celene.

      E que bobagem é essa de aero willis?

       

      1. Nira

        27 de outubro de 2015 2:58 pm

        Gracinha datada. Esse era um

        Gracinha datada. Esse era um automóvel pré-histórico.

  18. jc.pompeu

    27 de outubro de 2015 1:05 pm

    esse PSOL nem saiu ainda de o

    esse PSOL nem saiu ainda de o/nanismo político e já desfila na mídia & opinião cheio de tendências no salto alto…

    1. Free Walker

      27 de outubro de 2015 12:25 pm

      Copiando o baixinho da língua

      Copiando o baixinho da língua presa, o PSOL nem treina entre os titulares é e já quer sentar na janelinha…

    2. Astakad

      27 de outubro de 2015 1:04 pm

      Creio que você não entendeu nada…

      Creio que você não soube interpretar o texto. Sinto muito meu amigo. Leia mais vezes.

  19. Conde de Rochester

    27 de outubro de 2015 1:07 pm

    Titanic

    Se se não mudar o discurso o navio afunda mais rapidamente.

    O PT como partido politico segue o mesmo destino dos antecessores que hoje estaõ no ostracismo. A população sente-se órfã de representatividade politica. É mentira isto? Não é FATO?

    De cada lado do atual espectro politico, o s militantes se pintam cada um de caracteres diferentes.

    De um lado estão os comunistas, bolivarianos.

    De outro estão os facistas.

    O comum cidadão segue o confronto, ora divertido, ora perplexo.

    A politica continua a mesmíssima coisa de sempre. Igualzinho como é nas eleições, todo mundo acusa todo mundo. Projeto social, politico e econômico não tem nenhum.

    O barco faz agua e a contenda não diminui. Pra oposição não é negócio, prefere o barco no fundo do que ele navegando com o atual comandante. Pra situação, desprevenidos, a mercê da fúria dos elementos sem rumo, correm para todos os lados do tombadilho. E a tempestade não da sinais de diminuir. Sugere-se para a tripulação do barco que afunda para agirem com a dignidade dos músicos do Titanic, continuaram tocando até o momento derradeiro.

    Esta troca de insultos é evidencia que nenhum dos lados sabe realmente qual o verdadeiro desfecho da situação dramática momentânea. É briga de foice no escuro.

    A corda tem que romper de um lado, pra começar nova disputa?

    Tem que ser assim?

  20. Juliano Santos

    27 de outubro de 2015 1:07 pm

    Como apoiador e eleitor do

    Como apoiador e eleitor do PT, mas não filiado, desde 89, repudio os petistas radicais que atacaram o Psol por este ter entre seus filiados essa energúmena aí que se assume coxinha (é o que está no vídeo).

    Critico e já critiquei certas atitudes do Psol, mas é verdade que não dá para ser responsável pelos atos de todos os filiados. E o momento é de união das esquerdas, pois o facismo cresce assutadoramente. Independente de em quem vou votar em 2016 ou 2018m, estou do mesmo lado do Jean Wilys.  

  21. evandro condé de lima

    27 de outubro de 2015 1:12 pm

    Eu tenho algumas dúvidas

    Até que ponto essas manifestações são de uma pessoa facista ou de uma pessoa doente. Será que é tênue a diferença que eu não consigo distinguir?

  22. Fabio SP

    27 de outubro de 2015 1:18 pm

    ‘O episódio de Celene dá

    ‘O episódio de Celene dá sequência ao macartismo tupiniquim (muito em vigor durante a ditadura militar!) e que já vitimou Guido Mantega, Alexandre Padilha, José Eduardo Cardoso, Stédile, Jô Soares, Marieta Severo, o rapper Flávio Renegado, os médicos cubanos, os imigrantes haitianos e o casal de intelectual de Perdizes.”

    A Yoane Sanchez não?!?!

     

    1. Alan Souza

      27 de outubro de 2015 3:43 pm

      Olha quem apareceu!

      Este troll da Direita andava desaparecido!

      (Mas segue a orientação, mesmo para os ressurgidos das trevas: não alimente o troll!)

       

    2. Jossimar

      27 de outubro de 2015 10:51 pm

      O que vai ser da tal Yoanne

      O que vai ser da tal Yoanne Sanchez agora que os americanos e cubanos reataram relações diplomáticas?

      Fico a pensar que será rejeitada tanto pelos EUA quanto por Cuba.

  23. Maria Silva

    27 de outubro de 2015 2:10 pm

    Esse menino me surpreende a cada dia …

    Excelente avaliação de Jean Wyllis. Não confio no  PSOL, considero-o um bando de hienas cercando o suposto “cadaver” do PT. Mas o deputado federal Jean Wyllis tem se mostratdo completamente diferente dos seus pares. Moderado, culto, alinhado politicamente com as causas humanitárias, não confunde oposição com anarquia. Muito diferente de Chico Alencar, que é um eterno ressentido, demagogo  e intelectualmente desonesto. Prabens deputado Jean. Voce tem o meu respeito e minha admiração.

  24. gmello

    27 de outubro de 2015 2:13 pm

    A cabeça oca só queria aparecer

    E apareceu. E como…

    1. vera lucia venturini

      27 de outubro de 2015 2:21 pm

      Sei não. Mas com tanto

      Sei não. Mas com tanto histerismo, eu acho ela é mal amada mesmo. Precisa de atençao: nem que seja da forma mais negativa.

    2. Nira

      27 de outubro de 2015 2:56 pm

      Não sei se é cabeça oca. Vai

      Não sei se é cabeça oca. Vai ver ela recebe por avaliação de desempenho.

  25. André STK

    27 de outubro de 2015 4:14 pm

    Que oposição mais ¨chinfrim¨.

    ¨No dia 11 de setembro fiquei tão triste que fui comer no McDonald´s.Foi minha forma de prestar solidariedade¨.

    Celene Carvalho

    Revoltada e sentimental

    1. Ronalbar

      28 de outubro de 2015 2:06 pm

      Resposta
      A senhora fez um péssima escolha indo ao MC Donald, foi negligente com sua saúde.

Recomendados para você

Recomendados