Crise de 2008 resultou em desindustrialização e crise fiscal no Brasil

Por Kelly Oliveira, Pedro Rafael Vilela e Wellton Máximo 
 
 
A regulação no sistema financeiro que não existia na maioria dos países desenvolvidos inicialmente salvou o Brasil da pior crise financeira global desde a Segunda Grande Guerra. No entanto, a desvalorização do dólar e medidas equivocadas de gestão da economia resultaram em desindustrialização e em rombo nas contas públicas brasileiras, segundo especialistas em economia internacional ouvidos pela Agência Brasil.
 
Professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV) Istvan Kasznar diz que o Brasil adotou um modelo de reação diferente do resto do mundo, na avaliação de especialistas em economia internacional. “Naquela época, o Brasil não foi afetado à primeira vista porque tinha atrasado a desregulação de aplicações econômico-financeiras”, diz. O principal problema, ressalta, ocorreu na introdução de renúncias fiscais enquanto outros países reduziram gastos e buscaram austeridade.
 
Para tentar manter a economia aquecida em meio à crise que tomou proporções mundiais, o governo brasileiro adotou uma série de medidas, como redução de impostos para estimular o consumo, congelou preços do petróleo, subsidiou as tarifas de energia elétrica e ampliou as desonerações. “Embora tenha havido uma política monetária austera e correta, a política fiscal é uma das piores heranças que temos hoje, decorrente de uma forma equivocada de se interpretar a evolução cíclica da economia”, afirma Kasznar.
 
Em meio à crise internacional, o governo anunciou a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis, eletrodomésticos e materiais de construção. Diante da escassez de crédito, houve redução dos depósitos compulsórios (dinheiro que os bancos são obrigados a recolher ao Banco Central) e do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), além de estímulo ao crédito por meio de bancos públicos.
 
Vulnerabilidades
A crise de 2008 desembocou no fim de uma das principais ajudas externas que alavancou o crescimento do Brasil nos anos 2000: o superciclo das commodities. A queda do preço internacional de produtos agrícolas e minerais expôs o país ao que o economista Reinaldo Gonçalves chama de “vulnerabilidade estrutural”. “Nos últimos 20 anos, o Brasil aprofundou o processo de reprimarização da sua economia, tornando-se um país ainda mais dependente [de produtos primários]”, argumenta.
 
A queda do dólar decorrente das injeções monetárias nos países desenvolvidos complicou o quadro. Com a moeda norte-americana barata, os brasileiros passaram a viajar mais para o exterior e a importar mais, deixando a indústria nacional sem condições de competir com os produtos estrangeiros. O fechamento de fábricas aprofundou a desindustrialização do país e levou à dependência cada vez maior de commodities.
 
Segundo Gonçalves, isso explica a dificuldade de retomada da economia brasileira, mesmo com a situação internacional mais favorável que há alguns anos. Ele diz que não há solução de curto prazo e defende um projeto de desenvolvimento de longo prazo. Segundo o professor da UFRJ, se o país apostar numa tentativa de ajuste fiscal muito forte e rápida, com cortes de gastos públicos e privatizações de grandes estatais, o cenário econômico pode agravar-se ainda mais nos próximos dois anos.
 
“A pretexto de querer resolver uma série de problemas que demandam o longo prazo, como a Previdência e o teto de gastos, o que pode ocorrer é um efeito bumerangue, atingindo os segmentos sociais mais vulneráveis. Os ricos estão se protegendo mandando dinheiro para fora, mas as medidas de austeridade vão atingir o pequeno empresário, o burocrata, o trabalhador, o desempregado. Há um risco de aumentar muito mais a tensão social, que já está elevada”, observa Gonçalves.
 
Diversificação
Professor de macroeconomia e economia internacional da Universidade Federal Fluminense (UFF) André Nassif diz que os impactos da desindustrialização ainda se manifestam sobre o Brasil. Ele reprova a política de desonerações para determinados setores praticada no primeiro governo da ex-presidente Dilma Rousseff, ainda sob pretexto dos estímulos econômicos iniciados em 2009, que reduziu a arrecadação sem resultar em crescimento.
 
“Esse tipo de política funciona por algum tempo, mas, no longo prazo, gera inflação e baixo crescimento. Não há garantias de que o empresário pegue o dinheiro das desonerações para gerar empregos. A inflação aumenta porque a demanda sobe, sem que a produção acompanhe o crescimento. A solução para o Brasil seria mudar a estrutura da economia, diversificando a produção e recuperando a indústria nacional”, analisa.
 
Gonçalves, da UFRJ, concorda e acrescenta que a cartelização da economia brasileira prejudica a inovação e os investimentos. “Nenhum grande grupo econômico brasileiro é referência em inovação e tecnologia. Aqui predomina a exploração de recursos naturais e a gestão de carteis, isso vai dos bancos, passando pelos setores do agronegócio, da mineração até pelo mercado imobiliário”, critica.
Leia também:  De volta ao país dos Bruzundangas, por Fábio de Oliveira Ribeiro

11 comentários

  1. Em que Mundo Vivem esses Economistas?

    Pergutem a eles:

    1. O que foram os QEs (Quantitative Easings) do G7?

    1.1. Não teria sido para Estimular o Consumo?
    1.2. Como estaria a Economia americana sem o QE?

    2. Dilma: Desoneração!!!

    Trump: Redução da Carga Tributária???

    2.1. É mais Chic falar em Redução/Desoneração na América

    3. Sim, a Política Cambial, desde o Plano Real, Acabou com a Idústria Brasileira.

    3.1. E, foi Melhor.

    Era só sucata.

    Vejam a Produtividade.

    Vejam a Automação.

    Vejam o Supply Chain

    – NÃO VEJAM A AI (INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL)…

     

    É por esses Acadêmicos que o Brasil não Acerta NEM O DIAGNÓTICO DOS PROBLEMAS ECONÔMICOS…

  2. Será?

    Será?

    Um diagnóstico destes em véspera de eleição…

    De 2008 até hoje dava tempo para que outros economistas escrevessem teorias com milhares de gráficos e análises estatísticas de grande acuidade…

    Esta muito solto esse troço…

    Esta parecendo teorias do FHC…

  3. Que babaquice. Falar em

    Que babaquice. Falar em desindustrialização sem apontar números e setores onde isso ocorreu é uma analise típica da emissora golpista.

    Dizer que o quantitative easy,a injeção de dólares promovida pelos golpistas mor,os falcões do norte,”complicou” o quadro,parece piada. Quer dizer que o problema foram as viagens dos manifestoches para Miami? Para com isso!

    Os golpistas do norte,já sem competitividade,mas ainda com sua maquininha de imprimir dólares funcionando muito bem,inundaram o mundo com sua moeda e provocaram uma queda brutal nas exportações,sobretudo de manufaturados,dos demais países,uma vez que estes tiveram seus produtos encarecidos em função do falsa barateamento da moeda deles.

    Outra artimanha usada pelos golpistas do norte foi a união espúria com seus colegas árabes para diminuir artificialmente o preço do petróleo e,em consequência disso,sufocar economias como a da Venezuela,Irã e,sobretudo do ponto de vista da macro geopolítica,o Brasil,que era o grande elo de ligação das economias do BRICS e do Sul-Norte.

    Economista que sequer cita estes fatos,que são históricos,não serve sequer para orientar guardador de carros nas ruas.

  4. pelo que me consta

    A desindustrializaçao só nao foi pior justamente por conta destas medidas contra-ciclicas. Na epoca fui contra as desoneraçoes do ipi e outras porque sem os impostos nao seria possivel honrar os compromissos sociais.  Na verdade, a ideia de uma ativaçao do setor industrial depende de uma serie de fatores que nao foram considerados pelos economistas da epoca que tinham influencia sobre as decisoes. Mas de maneira geral, acho que este texto carrega nas tintas, sem considerar a opçao finaceirista dos empresarios, que preferiram aplicar os recursos com que foram beneficiados e deveriam ser usados como estimulo para aumentar a produçao, desviando para engordar suas fortunas pessoais.

  5. Complementando…ou

    Muito bom o texto. Mas vejo necessário ressaltar, que nesta referida crise de 2008, o EUA, detentor do exercito mais poderoso e da máquina de imprimir dólar, quando se vou na crise, uma das ações foi começar a imprimir dólar descontroladamente, para cobrir os trilhões virtuais  de que sumiram das telas dos computadores. E isso começou a expandir a crisempelomglobo, afetando Grécia, Portugal, Espanha, Itália, e a Alemanha, que não e nada boba, comecou a chiar e ameacou” Se a crise chegar aqui vai ter guerra”. Foi quando as “máquinas de imprimir dólar” reduziram o ritm, e os alemães botam medo, pois com seu parque tecnológica e indústrial, tem condições de um dia pra noite transformar uma fábrica de pregos e fabrica de armas.

  6. A operação lava jato levou a

    A operação lava jato levou a uma queda no investimento em setores como a industria naval e a construção civil. Isso causou a crise e seu aprofundamento.

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