Em coerção, PF reproduz indagações da imprensa à Lula

E, agora, a imprensa reproduz as “não respostas” de Lula ao delegado como representação de inconsistência do ex-presidente
 
 
Jornal GGN – Além da postura de simplicidade do ex-presidente com o delegado da Polícia Federal, durante a condução coercitiva no dia 4 de março, Lula manifestou queixas diante da seletividade das investigações da Lava Jato, dos vazamentos e das condenações antecipadas, motivadas pela imprensa – “a Globo, a Folha, a Veja” foram alguns nominados pelo ex-presidente. Mas o que chamou a atenção dos grandes meios de comunicação, além dos diálogos simples sobre comida e relatos de histórias que já vivenciou, foram as vezes que ele disse “não sei” ao investigador.
 
Apesar de não representarem a maioria das respostas, considerando inclusive que o depoimento durou mais de três horas e boa parte das declarações serem transcritas em parágrafos de 3 chegando a 40 linhas, os trechos que poderiam ser interpretados como incertezas foram o foco dos noticiários.
 
“Em 3h35min de depoimento à Polícia Federal no último dia 4, Luiz Inácio Lula da Silva balançou a cabeça negativamente, respondeu ‘não sei’, ‘faço questão de não saber’ ou variações destas expressões a diversas perguntas”, iniciou a reportagem da Folha desta terça (15).
 
“O alegado desconhecimento do ex-presidente abrange, sobretudo, temas operacionais de sua empresa de palestras, quanto é o faturamento, qual é a despesa ou como são feitos os contratos”, continuou o jornal. 
 
Conforme publicouGGN ontem (14), Lula prestou esclarecimentos sobre o lobista Fernando Soares, a sua relação com o pecuarista José Carlos Bumlai e as dúvidas dos investigadores que suspeitaram da movimentação financeira do Instituto Lula e da empresa de palestras LILS. De acordo com a equipe de delegados e procuradores, as empreiteiras da Lava Jato foram responsáveis pela entrada de R$ 20,7 milhões de um total de R$ 35 milhões contabilizados no Instituto Lula, além de R$ 10 milhões na LILS.
 
A primeira resposta do ex-presidente foi: “[pedir dinheiro e patrocínio a empresas] não faz parte da minha vida política. Desde que eu estava no sindicato eu tomei uma decisão: eu não posso pedir nada a ninguém porque eu ficaria vulnerável diante das pessoas”, disse, também afirmando que não participava das reuniões da diretoria das suas empresas.
 
Neste ponto da coerção, a estratégia do delegado foi de insistir no tema e soltar todas as perguntas referentes a detalhes, desdobramentos e prosseguimentos da primeira questão. A consequência lógica foi uma sequência de “não sei” ou “não tenho conhecimento”. O suficiente para motivar manchetes dos jornais que pressionaram para a interpretação de um “desconhecimento proposital” de Lula, assim descreveu a Folha.
 
Mas o colunista Kennedy Alencar entendeu que a estratégia não foi apenas dos veículos de notícia, mas das próprias perguntas dos investigadores da Lava Jato que “insinuam que as palestras no exterior poderiam ser fachadas de lobby”.
 
Por outro lado, constatou o jornalista, nas mais de 100 páginas de coerção, os delegados “não apresentaram uma evidência nesse sentido”. “Ao contrário de indagações feitas nos vídeos em que delatores foram ouvidos, não houve uma pergunta na seguinte linha: “Fulano acusa o sr. de ter cometido tal crime nessas circunstâncias. O que o sr. tem a dizer a respeito disso?”, escreveu.
 
Atrelando-se apenas no ponto de vista investigativo e judicial, as respostas de Lula não indicam evidências de recebimento de propina. “Lançam suspeitas sobre o repasse de recursos a fornecedores do instituto. Repetem indagações já amplamente divulgadas e comentadas a respeito do sítio de Atibaia e do apartamento no Guarujá”, publica Kennedy. 
 
De forma geral, os questionamentos do delegado da Polícia Federal reproduzem as desgastadas interpretações da imprensa. E a imprensa, agora, reproduz o desgaste registrado nas “não respostas” do ex-presidente, um mecanismo de credibilizar, na voz de autoridades judiciais, a tese midiática. 
 
Mas para além dessas incertezas e negativas, Lula trouxe respostas e posicionamentos. A exemplo de quando questiona por que a offshores supostamente dona do triplex do Guarujá saiu do foco dos investigadores, quando se verificou que ela não era proprietária do apartamento, mas sim da mansão dos Marinhos, das Organizações Globo, em Paraty. 
 
Acompanhe outros esclarecimentos de Lula na reportagem: Lula questiona Ministério Público e seletividade da Lava Jato à PF
 
E leia, a seguir, a íntegra do depoimento de Lula à PF no caso Lava Jato:

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora