Inpa recebe “abraço” em ato contra cortes de Bolsonaro e diretora chama a polícia

Mais de 500 manifestantes, entre alunos de mestrado e doutorado, se indignaram com a atitude da direção da instituição de pesquisa

Foto: Izabel Santos/Amazônia Real

da Amazônia Real 

Inpa recebe “abraço” em ato contra cortes de Bolsonaro e diretora chama a polícia

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Manaus (AM) – Estudantes bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), além de pesquisadores, deram um abraço simbólico no lado de fora do prédio do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) nesta quarta-feira (4), em Manaus, em protesto aos recentes cortes de orçamento promovidos pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Mas ao ocuparem a sede do instituto para pedir diálogo, a diretora do Inpa, a bióloga Antônia Maria Franco, chamou a Polícia Militar para conter uma manifestação pacífica.

Surpresos com o aparato policial, mais de 500 manifestantes do ato “Salve o Inpa” questionaram a atitude da diretora. Eles bateram palmas e deram gritos de “eu sou aluno, o Inpa é o meu lugar”, demonstrando indignação com a atitude da direção. Duas viaturas da PM foram acionadas pela diretoria.

Viatura da Polícia Militar ficou parada no estacionamento do Inpa (Foto: Melina Rizzato/Cortesia)

A terceira secretária da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no Amazonas, cientista Vera Val, fez um desabafo: “todas as unidades de pesquisa estão sem dotação orçamentária. Não tem dinheiro para 2020. Quero saber se nessas condições nós não teremos mais autonomia! O que vocês [a direção do Inpa] vão fazer a respeito? Nós da SBPC estamos indo a Câmara Federal, ao Senado”.

Antônia Franco assumiu a direção do Inpa no mês de dezembro passado, quando foi nomeada pelo governo do ex-presidente Michel Temer (2016-18) para dirigir a instituição até 2022. Com os gritos e aplausos dos manifestantes, a diretora mal conseguiu responder às perguntas e se fazer ouvir. “Nós também, Vera”, rebateu a colega, justificando que a gestão também está tomando medidas para minimizar os efeitos dos cortes na instituição. “Pois nós queremos apoiar vocês!”, respondeu a representante da SBPC. Veja o vídeo:

A reportagem procurou a assessoria de imprensa do Inpa para ouvir a diretora Antônia Franco sobre o ato, mas o órgão não respondeu à solicitação da agência Amazônia Real. A nomeação da pesquisadora para direção do Inpa não foi bem recebida pela comunidade científica por dois motivos: ela não participou do processo de escolha interna e teria sido “apadrinhada” pelos generais do Comando Militar da Amazônia (CMA) e do Exército.  

União em favor da Ciência

Alunos bolsistas podem perder anos de pesquisas no Inpa (Foto: Izabel Santos/Amazônia Real)

Neste ano, a Capes, ligada ao Ministério da Educação, teve R$ 819 milhões contingenciados, ou 19% do valor autorizado para o seu orçamento. No último dia 02 a instituição anunciou o corte de 5.613 bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado no Brasil a partir de setembro. Ao todo, deixarão de ser oferecidas para novos pesquisadores mais de 11 mil bolsas, ou 12% das 92.253 bolsas de mestrado e doutorado financiadas no início do ano.

Já o CNPq, ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, pode deixar de pagar 84 mil bolsistas a partir do quinto dia útil deste mês. O CNPq é uma das principais agências de pesquisa científica e tecnológica do país, ofertando bolsas a alunos da educação básica, graduação, pós-graduação, doutores e pesquisadores experientes no país e no exterior.

500 metros de “abraço”

A segunda viatura da PM ficou de guarda na área da diretoria do Inpa (Foto: Melina Rizzato/Cortesia)

A manifestação “Salve o Inpa” aconteceu entre às 9h e 11h desta quarta-feira. Apoiado por estudantes da pós-graduação, pesquisadores e pelo Sindicato dos Servidores Públicos Federais do Amazonas (Sindsep-AM), o protesto ocupou duas esquinas entre as ruas Bem-te-vi e André Araújo, no bairro Aleixo, zona Centro-sul de Manaus.

Os manifestantes penduraram banners de trabalhos científicos, já apresentados em congressos, nos muros do prédio do Inpa. Alguns subiram em um carro de som para fazer discursos. O abraço simbólico começou na portaria da rua Bem-te-vi, passando pela Avenida André Araújo até a portaria da Avenida General Rodrigo Otávio, um percurso de cerca de 500 metros.

Durante o ato, os estudantes falaram sobre os cortes nas bolsas do CNPq e Capes. Uma aluna, que preferiu não se identificar por temer retaliação, disse estar preocupada com o “estado de letargia” dos agentes públicos e representantes do povo. “Ninguém está fazendo nada”, avaliou. A jovem, de 22 anos, disse que veio de uma cidade da região Sul do país para estudar no Inpa. Sem a bolsa, ela disse que precisará retornar à sua cidade natal. “Não tenho como trabalhar e pesquisar”, diz.

O Inpa oferece aos estudantes cursos de mestrado e doutorado. Alunos e pesquisadores mais experientes trabalham em parceria. Eles vão realizar as pesquisas de campo, fazem análises, coletas e escrevem artigos científicos sob a supervisão dos pesquisadores, que também têm a responsabilidade científica de transmitir conhecimento e revisar trabalhos. Isso é feito com o recurso usado para pesquisa, que é captado em agências de fomento, como o CNPq.

“É através da pós-graduação que fazemos pesquisa. Os alunos bolsistas são importantíssimos nessa atividade, pois são a principal força humana envolvida na produção de pesquisa”, disse o pesquisador e botânico Alberto Vicentini.

Para o aluno de doutorado em Ecologia, André Gonçalves, os cortes em Ciência e Tecnologia atingem todo o processo de pesquisa. “As pesquisas são realizadas com transporte, viagens, manutenção de equipamentos e, principalmente, recursos humanos, que basicamente são os bolsistas. O número de servidores do Inpa, hoje, é pequeno, e a mão de obra está estagnada. Toda a Ciência que é feita hoje aqui é por bolsistas de mestrado e doutorado. Isso é alarmante, porque as pessoas não conseguem perceber isso”, explicou ele.

André Gonçalves destacou que a bolsa do aluno de mestrado ou doutorado não é um auxílio, é um salário do pesquisador. “Trabalhamos 8h a 12h por dia, sem garantias ou benefícios, porque é a nossa vocação”, completou.

Prejuízo irreparável

Manifestação “Salve o Inpa”, em Manaus (Foto: Izabel Santos/Amazônia Real)

Já a bióloga mineira Jussara Dairão contou que sem a bolsa que recebe do CNPq não conseguiria dar andamento a pesquisa que faz sobre impacto de hidrelétricas na fauna.

“Eu sou estudante do doutorado em Ecologia. Estou aqui há dois anos, vim e Minas Gerais, porque sou apaixonada pela Amazônia. Todo mundo no Brasil deveria conhecê-la. Minha bolsa é do CNPq, se ela for cortada, vou ter que voltar para casa e encerrar minha pesquisa, que é sobre avaliação de impacto ambiental provocado por hidrelétricas. Esses estudos são muito importantes, pois não temos resultados conclusivos de estudos anteriores sobre novos tipos de hidrelétricas como as do rio Madeira, Jirau e Santo Antônio”, disse Jussara.

“Não consigo pensar só na minha vida, mas na Ciência e a continuidade dela. Minha bolsa está garantida, mas os cortes vão muito além disso e impactam a manutenção de pesquisas, ainda mais em uma região como a Amazônia, onde só se faz pesquisas em campo. As bolsas são os nossos salários”, defende a estudante do mestrado em Engenharia Florestal, Maryane Andrade. No laboratório onde ela estuda, 28 dos 29 alunos dependem de bolsas do CNPq, Fapeam e Capes, esta última responde pela maioria das bolsas.

Líder do grupo de pesquisas sobre primatas e outros mamíferos, o pesquisador Adrian Barnett teme perder os seus oito alunos. “As expedições que são essenciais para nossas pesquisas. Precisamos de dinheiro para colocar os alunos em campo. Além disso, sem as bolsas, corro o risco de perder meus cinco alunos de mestrado e outros três de doutorado”, conta.

Queda no orçamento

Manifestação pacífica reuniu bolsistas da Capes e do CNPq no Inpa (Foto: Melina Rizzato/Cortesia)

O orçamento do Inpa vem caindo desde o ano de 2015. De acordo com o site do Portal da Transparência, naquele ano o valor foi de R$ 14,33 milhões. Em 2016 sofreu uma redução e foi para R$ 13,30 milhões, diminuindo para R$ 14,24 milhões, em 2017. Em 2018 o corte foi o mais grave, o orçamento reduziu para R$ 8,55 milhões. Em 2019, uma nova redução, chegando a R$ 8 milhões.

O recurso é aplicado pelo Inpa na manutenção das instalações físicas da instituição. O salário dos servidores é custeado pelo MCTIC. Já a verba investida em pesquisas vem de agências de fomento como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), CNPq e Capes.

O Inpa tem hoje 11 programas de pós-graduação: Agricultura no Trópico Úmido (mestrado); Biologia de Água Doce e Pesca Interior (mestrado e doutorado); Ecologia (mestrado e doutorado); Botânica (mestrado e doutorado); Ciências de Florestas Tropicais (mestrado e doutorado); Entomologia (mestrado e doutorado); Clima e Ambiente (mestrado e doutorado); Genética, Conservação e Biologia Evolutiva (mestrado e doutorado); Aquicultura (mestrado e doutorado); Gestão de Áreas Protegidas da Amazônia (mestrado profissionalizante); e Biodiversidade e Biotecnologia (doutorado). Todos possuem bolsistas.

Vários pesquisadores se juntaram aos alunos durante a manifestação. Entre eles, a pesquisadora Sônia Alfaia. Ela disse que o ato “Salve o Inpa” é manifestação contra o desmonte das políticas de fomento à Ciência e Tecnologia no Brasil e na Amazônia, que também passa pelo corte de bolsas, tanto do CNPq quanto mais recentemente pela Capes.

“A manifestação atendeu às nossas expectativas. Tivemos o apoio da sociedade. Isso foi um grito de alerta de que o Inpa é uma instituição pública, que gera conhecimento técnico e científico sobre a Amazônia, e capacita mestres e doutores de alto nível. O que pode se esperar de um país que não investe em pesquisa? Esses alunos investiram tempo e energia em pesquisas. Eles não podem parar agora”, afirmou Alfaia.

Em nota enviada nesta quinta-feira (05), a diretora do Inpa, Antonia Maria Franco Pereira, disse que “para garantir o bom andamento da manifestação, prevista inicialmente para área externa ao INPA, as portarias do Instituto foram fechadas e a presença da Polícia solicitada como medida preventiva para resguardar a segurança de todos”. A diretora disse que “conversou com servidores e estudantes, com os quais se mostrou solidária aos problemas enfrentados”.

A nota diz ainda que “a Direção do Inpa, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), informa que continua trabalhando com o orçamento de R$ 35 milhões em 2019, valor semelhante ao dos últimos anos, e um quadro de aproximadamente 540 servidores, dos quais cerca de 40% possuem as condições legais para a aposentadoria”.

Dia da Amazônia, em Belém

Além do Inpa, o Museu Emílio Goeldi, em Belém, receberá um abraço simbólico nesta quinta-feira (5), Dia da Amazônia, no ato “Salve a Amazônia” em apoio e contra os cortes no orçamento. Em outras cidades do Pará também haverá atividade alusiva à data, como Altamira, Itaituba, Cametá e Marabá.

O ato na capital paraense a programação começa no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi, onde haverá o abraço simbólico. Veja a programação interna da instituição, que será aberta ao público.


Esta matéria foi atualizada para acrescentar a nota da diretora do InpaAntonia Maria Franco Pereira.

Manifestação SOS Museu Goeldi, em Belém, em 2017 (Reprodução Facebook)

O que é?

Dia da Amazônia
Data: 5 de setembro

 

Exposição: “Transformações: a Amazônia e o Antropoceno”

9h: Rocinha

Mesa redonda: “Amazônia em chamas. Quais consequências?”

10h: Auditório Alexandre Rodrigues

Local: Parque Zoobotânico – Av. Magalhães Barata, 376, São Braz, Belém (PA)

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2 comentários

    • Olá Vitor, maioria dos bolsistas (que carregam a ciência nas costas) não voltou no “””””mito”””” mais muitos de seus orientadores concursados (professores universitários) votaram sim…

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