Latino-americanistas protestam contra o golpe no Brasil

Latino-americanistas contra o golpe no Brasil

Alexandre Fortes (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e Amy Chazkel (City University of New York), especial para o GGN

O recente simpósio que celebrou o cinquentenário da Latin American Studies Association (LASA), ocorrido em Nova Iorque entre 27 e 30 de maio de 2016, foi marcado por protestos de centenas de pesquisadores contra o golpe de Estado atualmente em curso no Brasil.

Diversas iniciativas convergiram para isso. Com o processo de impeachment sendo desencadeado em meados de março, um grupo internacional de pesquisadores começou a pensar como ativar suas redes de contatos e colaboração intelectual em defesa da democracia no Brasil. Conversamos sobre como aproveitar o congresso da LASA para somar os nossos esforços às inúmeras iniciativas de acadêmicos, sindicalistas, juristas, artistas, e outros cidadãos já em andamento no Brasil e em outras partes do mundo.  Em abril, Mariana Kalil, doutoranda em Relações Internacionais da UnB, reuniu 162 assinaturas de membros da associação (e 337 de outros acadêmicos) em um abaixo-assinado que solicitava a exclusão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de uma sessão intitulada “Diálogos sobre a democracia na América Latina”, alegando que ele e seu partido “não hesitam em ameaçar a paz doméstica e os mecanismos democráticos mais básicos, tais como a Constituição”. A direção da LASA respondeu justificando o convite a FHC com base na sua contribuição à produção intelectual da região, e a temática do congresso, que celebrava o cinquentenário da associação. Depois, num reconhecimento tácito da pertinência das críticas, alterou o nome no painel que ele dividiria com o ex-presidente chileno Ricardo Lagos para “50 Anos de Vida Pública na América Latina”. Simultaneamente, a presidência da associação autorizou a criação de um painel extraordinário denominado “Diálogos sobre a crise política brasileira”, cuja organização ficou sob nossa responsabilidade.

Uma proposta de “resolução emergencial” denunciando o caráter antidemocrático, casuístico e arbitrário do impeachment e os perigosos precedentes que ele estabelece para toda a região foi aprovada na véspera do início do simpósio pelo Comitê Executivo. Paralelamente, o CLACSO (Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales) publicou uma nota criticando o convite a FHC e conclamando os membros da LASA a denunciar o Golpe no Brasil, além de anunciar um calendário de protestos contra o golpe ao longo do evento. Na semana anterior ao evento, João Feres Júnior publicara um importante artigo, que teve ampla circulação nas redes sociais, chamando a atenção para o papel das manifestações públicas de Cardoso desde 2014 na produção de uma narrativa visando legitimar o processo de impeachment a despeito da inexistência de embasamento jurídico adequado.

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Foi nesse contexto que FHC anunciou o cancelamento de sua participação no evento. Em carta aberta, ao mesmo tempo em que recorre à repressão que sofreu sob a Ditadura Militar brasileira para reafirmar sua credencial de democrata, desqualifica os críticos ao seu posicionamento político, classificando-os como “mentes radicais” que confundem ciência com ativismo. Ao mesmo tempo, busca justificar seu posicionamento pró-impeachment com uma hipócrita diatribe “anticorrupção” digna de um colunista da revista Veja, sem uma única referência aos motivos alegados na denúncia que levou ao afastamento da presidenta Dilma.

Essa confissão de inaptidão para o enfrentamento do contraditório por parte do “democrata” FHC consolidou, entre os cerca de cinco mil estudiosos da realidade latino-americana reunidos em Nova Iorque, a percepção de que o Brasil enfrenta um golpe de Estado. Tornou-se também evidente que o conjunto de atividades programadas para a estada de Cardoso nos EUA, que incluíam um jantar de fundraising para a própria LASA no restaurante da ONU e a concessão de um título honoris causa em Harvard, tinham como objetivo utilizar seu prestígio acadêmico para tentar reverter o crescente questionamento da comunidade internacional sobre a legitimidade do governo provisório de Michel Temer.

Na cerimônia de abertura do congresso na noite da sexta-feira, o presidente da Associação, Gil Joseph, um professor da Yale University especialista em história do México, subiu ao palco segurando uma camista com a inscrição “não ao Golpe” em português, espanhol e inglês,  que ele pendurou na tribuna de frente para o público antes de começar a falar. Ainda que o discurso para abrir o congresso costume ser apenas uma formalidade de boas-vindas, o presidente dedicou os primeiros seis minutos à situação no Brasil, denunciando o que classificou explicitamente como um golpe. Ao longo dos quatro dias do simpósio da LASA, as manifestações prosseguiram. As centenas de camisetas com a inscrição “não ao Golpe” de um lado e “Brasil – La Democracia de Luto” de outro, distribuídas pela CLACSO, se somaram às faixas e cartazes do grupo Defend Democracy in Brazil. A Mídia Ninja e as câmaras dos participantes do evento registraram as palavras de ordem, as canções de protesto e a declamação do texto da resolução aprovada pela Executiva, puxada pelo professor James Green.

Na segunda-feira, ocorreu o esperado e concorrido painel sobre a crise política brasileira. Luiz Carlos Bresser-Pereira, fundador do PSDB e ex-ministro de FHC analisou as dimensões econômicas da crise e concluiu taxativo: o que ocorre é um golpe parlamentar, gerado pela decisão dos setores rentistas de encerrar o recente ciclo social-desenvolvimentista da história brasileira. Adalberto Cardoso, do IESP-UERJ, alertou para o fato de que o golpe não visa apenas destruir o PT, mas também os direitos sociais estabelecidos na Constituição de 1988, o que acarretará ampla resistência e uma consequente escalada repressiva. Helcimara Telles, da UFMG, chocou os latino-americanistas de várias partes do mundo ao demonstrar o papel da misoginia no fomento ao ódio político, exemplificado pelos adesivos fixados a automóveis de modo que seu abastecimento simule o estupro da presidenta Dilma.

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A combinação entre ativismo e ciência sempre desagradou aos defensores do status quo. Há que se recordar, porém, que o termo intelectual entrou para o vocabulário contemporâneo quando Émile Zola, diante das revelações sobre o antissemitismo que marcaram o caso Dreyfus teve a coragem moral de dirigir-se ao presidente da França num artigo intitulado: “Eu acuso…!”. Do mesmo modo, nós, pesquisadores dedicados ao estudo da realidade latino-americana, acusamos: há um golpe de Estado em curso no Brasil. E ninguém calará nossas consciências diante do imperativo ético de denunciá-lo.

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