Neofascismo é parceiro ideológico do neoliberalismo financeiro, por André Araújo

O atual projeto é o primeiro, desde 1822, que tem como objetivo declarado tornar o País um vagão de terceira classe puxado pelos EUA

Foto: Alan Santos/PR
Neofascismo e neoliberalismo, uma combinação explosiva

Por Andre Motta Araújo

QUAL NEOLIBERALISMO?

Estamos hoje no Brasil com o neoliberalismo financeira dominando a política econômica. Trata-se de um tipo específico de neoliberalismo, que não se confunde com a doutrina neoliberal em sentido mais amplo, aquela que propõe uma ideologia onde o mercado prevalece sobe o Estado, e isso inclui comércio e produção, aonde nestas categorias se propõe o progresso através da economia produtiva privada, gerando empregos e prosperidade.

Já o neoliberalismo financeiro não se preocupa com produção e empregos, apenas com finanças como negócio. Não está no seu radar nada além do orçamento e da dívida pública, cotações de ações na bolsa, atração do mítico investidor global, cliente principal desse tipo de neoliberalismo, desligado do País, da população mais carente, do futuro das novas gerações, é um neoliberalismo da especulação.

O neoliberalismo produtivo é parceiro do Estado, foram as grandes estatais, como Petrobras e Eletrobras, que alavancaram o capitalismo produtivo da indústria de bens de capital, tornando o Brasil grande fabricante de hidro-geradores, motores, compressores, excitatrizes navais, trocadores de calor, ventiladores, tubos de aço com e sem costura, torres de resfriamento, disjuntores e quadros de controle.

As estatais foram as primeiras e maiores compradoras da indústria nacional de bens de capital, portanto o neoliberalismo produtivo não é privatizante, ele precisa do Estado como alavanca através de encomendas, do crédito, da proteção aduaneira, armas que todos os grandes países usam para garantir sua indústria e seus empregos. A defesa de indústria e emprego é regra dos grandes Estados, em qualquer tipo de regime.

Já o neoliberalismo financeiro precisa das privatizações para gerar negócios, avaliações, comissões, emissão de ações, é o mundo que interessa a esse capitalismo, especialmente se o investidor for estrangeiro, porque ai ele precisa mais ser guiado pelos bancos de investimentos locais que conhecem o caminho das pedras, é o mundo do Ministro Paulo Guedes.

O neoliberalismo financeiro precisa de privatizações como começo, meio e fim de sua proposta de existência, não interessa para quê ou com que finalidade privatizar, onde serão investidos os recursos de privatização, o que o neoliberalismo quer é apenas controlar o processo de privatização, não como parte da economia como um todo. Não é privatizar para investir em educação, é para usar os recursos na dívida publica, é finança com finança, um relação híbrida fechada e estéril.

DEPOIS DA PRIVATIZAÇÃO

Privatizadas as estatais, é quase certo que os novos controladores serão estrangeiros. Isso  não é bom para o País, mas não incomoda minimamente o neoliberalismo financeiro. Enquanto as estatais compravam seus bens de capital no País – essa parte do projeto de país, no qual elas estavam inseridas desde os anos 50, até o começo dos anos 90 -, os novos controladores estrangeiros da Petrobras, inteira ou em pedaços, e da Eletrobras farão suas encomendas nos seus países de origem dos controladores.

Em todos eles existem bancos de exportação, como a ECGD no Reino Unido, os EXIMBANKs dos EUA, Japão e Coreia do Sul, a COFACE francesa, o KfG alemão, o EFC do Canadá, para garantir que as compras de bens de capital de suas empresas no exterior seja feita nos países-matriz para gerar empregos, objetivo de todos os governos racionais do planeta, menos o Governo do Brasil.
O atual governo prefere comprar bilhões de dólares de navios sondas da Petrobras na China e não no Brasil, embora pudessem ser construídos no Brasil, gerando dezenas de milhares de empregos. É a preferencia pela compra lá fora, como política de governo, e a desculpa é que aqui pode haver corrupção, como se não existisse corrupção em compras feitas do exterior, uma desculpa que nenhum País inteligente usa.
Mais um agravante, há grande probabilidade de que parte das grandes estatais sejam compradas por estatais estrangeiras, o que já aconteceu com Eletropaulo e CPFL, as duas maiores distribuidoras de energia do País, a primeira pela estatal ENEL da Itália e a segunda pela estatal STATE GRID chinesa.
Quer dizer, estamos transferindo grandes sistemas nacionais de energia para o controle de governos estrangeiros dentro do Brasil, sem que isso incomode o neoliberalismo financeiro, porque este não opera com o conceito de soberania, valor para ele igual a zero, é uma ideologia sem pátria.

O neoliberalismo financeiro é destrutivo da economia do País, desindustrializa. Agora, a equipe econômica propõe abolir unilateralmente tarifas de importação, sem pedir reciprocidade, eles querem esvaziar as reservas internacionais, que já estão caindo, para  deixar o Brasil mais vulnerável e assim precisar privatizar mais rápido e mais barato. Abrir a importação vai atingir em cheio a maioria dos setores industriais e gerar mais desemprego.

Para esse projeto, é preciso forças de repressão do populacho, que pode se revoltar. Então, o neoliberalismo financeiro precisa de um conjunto de instrumentos neofascistas, como controle de imprensa e forças de repressão imunes a limites constitucionais, com poder de fogo ilimitado, sem o qual poderá haver revolta popular, como no Chile. Portanto, o neofascismo é parceiro ideológico do neoliberalismo financeiro, são parte de um conjunto.

O FALSO DIAGNOSTICO “NÃO TEMOS CAPITAL”

A base ideológica do neoliberalismo financeiro, comprada pela grande imprensa, pelo Congresso, por camadas da burguesia e da elite empresarial, é que o Brasil não tem capital. Isso é completamente falso. O Brasil cresceu a taxas espetaculares entre 1950 e 1980, sem reservas internacionais, com três crises cambiais de “moratória” de fato, com alta inflação, exportando só café e algodão, a explosão da soja veio depois, como então tinha capital?

Tinha capital feito dentro País e que era muito menor que hoje, o Brasil hoje tem capital interno de sobra, é uma questão de conceito e projeto, de manejo de fundos e finanças públicas, de política monetária. Agora, o Ministro Paulo Guedes achou R$ 220 bilhões parado em Fundos Federais de destinação específica, sem uso, porque o Governo não teve projetos para usar o dinheiro. E ele propõe usar esse dinheiro para pagar a dívida pública, o que não gera um único emprego. É o neoliberalismo financeiro puro.

O capital do País é a capacidade ociosa de 30 a 40% na indústria, que pode ser mobilizada por emissão de dívida pública comprada pelo Banco Central que está explodindo de liquidez, sem uso, e liquidez adicional pode ser por ele criada até o limite da capacidade ociosa física do País. Os bancos centrais dos EUA, Europa e Japão geram liquidez todo mês para energizar a economia de seus países, trata-se de algo perfeitamente normal, só aqui não se faz.

Como o Brasil tinha capital nos governos JK, nas gestões Delfim Neto e Mario Simonsen, construí-se um imenso parque hidroelétrico, uma grande indústria de bens de capital, a quinta indústria automobilística do mundo, um sólido parque siderúrgico, a EMBRAER, a EMBRATEL, a EMBRAPA, 13 refinarias de petróleo, 11 aeroportos internacionais, seis metrôs, tudo isso foi feito com capital basicamente gerado dentro do País CAPITAL. E o capital estrangeiro veio porque o País estava crescendo, não se precisou vender o país, como se quer fazer agora, entregando a soberania a qualquer preço.

A VIABILIDADE POLÍTICA DO PROJETO NEOLIBERAL FINANCEIRO NO BRASIL

O terreno é de inteira viabilidade porque as instituições não demonstraram articulação de resistência.

O Plano Paulo Guedes é de uma clareza absoluta, nada está sendo encoberto, escondido ou escamoteado. A sinceridade e a clareza são completas, medidas para abrir a importação sem reciprocidade, abolir vistos sem reciprocidade, legislação para apressar as privatizações já está sendo preparadas, legislação para permitir depósitos em dólar, o que facilitará a compra de imóveis em dólar no Brasil por brasileiros, como hoje ocorre na Argentina, é um projeto completo de desmonte da ideia de um grande Brasil, operando como um Estado de grande peso geopolítico, por sua dimensão e recursos.
O projeto desse grupo é transformar o Brasil em plataforma de negócios financeiros e nada mais, ponto, essa ideologia tem profundo desprezo pelo povão do Brasil, veem o Brasil como um território onde se ganha dinheiro para gastar em Miami, cidade ideal porque eles não tem cultura para morar no Vale do Loire ou na Escócia.
A grande elite financeira já mora fora do País há tempo, a segunda camada mora aqui mas sonha em morar fora, o País está sem projeto e sem futuro, esse é o quadro de hoje, com os elementos que se pode aferir nas condições atuais.
Um grupo de aventureiros controlando os ativos físicos de um dos cinco maiores países do mundo, para dilapidar e vender no espaço de tempo mais curto possível, vender a quem quer que seja, não importa, sem qualquer projeto geopolítico para um dos cinco maiores países do mundo. Não há mais que cinco, EUA, Russia, China, Índia e Brasil, sendo o Brasil o único que não opera hoje como potência geopolítica, embora tenha os maiores recursos ecológicos do planeta.

Nas principais instituições, não se vê qualquer resistência ao Plano Paulo Guedes, ao contrário, é elogiado no Congresso, no Judiciário e especialmente na grande mídia, tendo como carro chefe a Globo, que mesmo criticando o presidente, poupa o Ministro a quem cobrem de elogios, sem se dar conta de que o Plano que ele propõe significa o fim de um grande Estado criado por eventos históricos em 1822 e mantido por grandes estadistas como Dom Pedro II, Vargas e Juscelino.

Mesmo os presidentes militares tinham um Projeto de País geopoliticamente importante, o atual projeto é o primeiro, desde 1822, que tem como objetivo declarado tornar o País um vagão de terceira classe puxado pelos EUA. Algo que nem países bananeiros dos anos 20, 30 e 40, pensaram sobre si mesmos, havia orgulho nacional neles mesmo com governos ruins.

A situação do Brasil sob controle do neoliberalismo financeiro é um caso raro no mundo atual. Um País que optou por se desfazer de seu peso histórico, um dos grandes Estados do mundo, que foi Império, que foi um dos oito Aliados da Segunda Guerra e criador pioneiro da ONU. Hoje, propondo-se a ser um paraíso fiscal de terceira categoria, onde se entra sem visto e qualquer dinheiro é bem recebido para comprar o País.

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