
Jornal GGN – Eleonora de Lucena, em artigo na Folha, coloca tudo muito claro: depois que o Brasil começou a se perceber como país, orgulhoso de seu povo e surfando nas conquistas, os Estados Unidos resolvem rearticular o pedaço como sendo seu quintal. Ela aponta que o grande vizinho resolveu detonar a relação dos sulamericanos com os chineses, melar o Mercosul e, de quebra, levar o troco em empresas altamente rentáveis que posam de insolventes.
Ela aponta que o que está em jogo é muito mais do que a troca de poder, é um amontoado de ações desfavoráveis ao país cobertos por uma verborragia de direita que busca desqualificar a grita dos que pretendem proteger nossas conquistas. Um tal de retorno aos braços do século XIX em tomada de direitos e substituição por exploração do trabalhador de forma desumana. Quem viver verá, aposta a colunista, da mesma forma que vaticina: o Senado vai enfrentar o julgamento da história.
na Folha
por Eleonora de Lucena
O Brasil entrou no centro da disputa geopolítica mundial. Tem riquezas naturais, mercado interno, posição estratégica. Construiu economia diversificada e complexa, terreno para grandes empresas nacionais e ambiente potencial para desenvolvimento de tecnologias de ponta.
Os Estados Unidos, acostumados a nadar de braçada no continente, começaram a ver o avanço chinês no que consideram seu quintal. Investimentos, comércio, parcerias com os orientais cresceram de forma exponencial.
Não parece ser coincidência a intenção norte-americana de voltar a ter bases militares na América do Sul (na sempre sensível tríplice fronteira e na Patagônia, que vigia o estreito de Magalhães, curva entre dois mundos). Nem parece ser ao acaso a escolha dos alvos do momento: a Petrobras, as grandes empresas e até o programa nuclear.
Nos últimos anos, o país mostrou zelar por sua autonomia e buscou alianças fora da influência dos EUA. Com China, Rússia, Índia e África do Sul, o Brasil ergueu os Brics e um banco de desenvolvimento inovador.
Aqui, reforçou o Mercosul -alvo imediato de ataque feroz do interino, afoito em mostrar serviço para o Norte e ressuscitar relações subalternas.
Esse contexto maior escapa da verborragia conservadora, ansiosa em reduzir a crise atual a um confronto raso entre supostos corruptos e hipotéticos éticos. Bastaram poucas semanas para deixar evidente a trama hipócrita e podre do bando que tenta abocanhar o poder.
O que está em jogo é muito mais do que uma simples troca de governo. É a própria ideia de país.
Falar de luta de classes e de projeto nacional deixou alguns leitores ouriçados. Mas, apesar da operação de marketing em curso, os objetivos do atropelo à Constituição são claros: concentrar riqueza, liberar mercados, desnacionalizar a economia, desmantelar o Estado.
O discurso dos sem-voto que se aboletaram no Planalto tenta editar um macarthismo tosco, elegendo um inimigo interno. Agridem os de vermelho (sempre eles!), citados como os culpados de todo o mal, numa manobra conhecida dos movimentos fascistas desde o início do século 20.
Quem se atreve a discordar do rolo compressor elitista é logo tachado de “maluco” pelos replicantes da direita raivosa. Dizem que os que apontam as contradições atuais são saudosos do século 19.
Viúvos do século 19 são os que querem agora surrupiar direitos e restabelecer condições de exploração do trabalho daqueles tempos. Com a retórica de uma suposta modernidade, atacam conquistas sociais e pregam o desmonte da corajosa Constituição de 1988.
Alegam que a matemática não permite que o Estado cumpra suas funções perante os cidadãos. Para eles, a matemática deve servir apenas aos mais ricos e a seus juros maravilhosos. Num giro chinfrim, mandam às favas o tal controle do deficit público: gastam tudo para atender corporações, amigos e ganhar votos.
Com uma cortina de fumaça, arriscam confundir esquerda com autoritarismo. Projetam, assim, no adversário, os seus desejos ocultos. Afinal, o programa dos não eleitos só poderá ser implantado integralmente num regime de força, que censure e elimine a voz dos mais fracos.
As exibições de truculência absurda nos estádios da Olimpíada, proibindo manifestações de “Fora, Temer!” e rasgando os direitos constitucionais de livre manifestação e opinião, parecem ser uma terrível amostra de tempos sombrios pela frente.
O Senado vai enfrentar o julgamento da história.
ELEONORA DE LUCENA, 58, jornalista, é repórter especial da Folha. Editora-executiva do jornal de 2000 a 2010, escreve livro sobre Carlos Lamarca
Maria Luisa
22 de agosto de 2016 9:04 pmTruculências
Nada do que escreve Eleonora Lucena é novo para quem acompanha os blogs independentes. O que “causa espécie” é saber que esse artigo foi publicado na Folha… Depois que vi Otavio Frias Filho defender o impeachment como sendo de Direito, fica a questão do que esta mudando ? Em todo caso, esta ai um texto audacioso, que diz muito sobre o que esta acontecendo atualmente na América do Sul e do qual a maioria absoluta nem sonha.
Fernando J.
22 de agosto de 2016 10:33 pmEscracho, artigo de 26.07.2016
Escracho
Eleonora de Lucena*, na Folha
A elite brasileira está dando um tiro no pé. Embarca na canoa do retrocesso social, dá as mãos a grupos fossilizados de oligarquias regionais, submete-se a interesses externos, abandona qualquer esboço de projeto para o país. Não é a primeira vez. No século 19, ficou atolada na escravidão, adiando avanços. No século 20, tentou uma contrarrevolução, em 1932, para deter Getúlio Vargas. Derrotada, percebeu mais tarde que havia ganho com as políticas nacionais que impulsionaram a industrialização.
Mesmo assim, articulou golpes. Embalada pela Guerra Fria, aliou-se a estrangeiros, parcelas de militares e a uma classe média mergulhada no obscurantismo. Curtiu o desenvolvimentismo dos militares. Depois, quando o modelo ruiu, entendeu que democracia e inclusão social geram lucros.
Em vários momentos, conseguiu vislumbrar as vantagens de atuar num país com dinamismo e mercado interno vigoroso. Roberto Simonsen foi o expoente de uma era em que a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) não se apequenava.
Os últimos anos de crescimento e ascensão social mostraram ser possível ganhar quando os pobres entram em cena e o país flerta com o desenvolvimento. Foram tempos de grande rentabilidade. A política de juros altos, excrescência mundial, manteve as benesses do rentismo.
Quando, em 2012, foi feito um ensaio tímido para mexer nisso, houve gritaria. O grupo dos beneficiários da bolsa juros partiu para o ataque. O Planalto recuou e se rendeu à lógica do mercado financeiro.
Foi a senha para os defensores do neoliberalismo, aqui e lá fora, reorganizarem forças para preparar a reocupação do território. Encontraram a esquerda dividida, acomodada e na defensiva por causa dos escândalos. Apesar disso, a direita perdeu de novo no voto.
Conseguiu, todavia, atrair o centro, catalisando o medo que a recessão espalhou pela sociedade. Quando a maré virou, pelos erros do governo e pela persistência de oito anos da crise capitalista, os empresários pularam do barco governista, que os acolhera com subsídios, incentivos, desonerações. Os que poderiam ficar foram alvos da sanha curitibana. Acuada, nenhuma voz burguesa defendeu o governo.
O impeachment trouxe a galope e sem filtro a velha pauta ultraconservadora e entreguista, perseguida nos anos FHC e derrotada nas últimas quatro eleições. Privatizações, cortes profundos em educação e saúde, desmanche de conquistas trabalhistas, ataque a direitos.
O objetivo é elevar a extração de mais valia, esmagar os pobres, derrubar empresas nacionais, extinguir ideias de independência. Em suma, transferir riqueza da sociedade para poucos, numa regressão fulminante. Previdência, Petrobras, SUS, tudo é implodido com a conversa de que não há dinheiro. Para os juros, contudo, sempre há.
Com instituições esfarrapadas, o Brasil está à beira do abismo. O empresariado parece não perceber que a destruição do país é prejudicial a ele mesmo. Sem líderes, deixa-se levar pela miragem da lógica mundial financista e imediatista, que detesta a democracia.
Amargando uma derrota histórica, a esquerda precisa se reinventar, superar divisões, construir um projeto nacional e encontrar liderança à altura do momento.
A novidade vem da energia das ruas, das ocupações, dos gritos de “Fora, Temer!”. Não vai ser um passeio a retirada de direitos e de perspectiva de futuro. Milhões saborearam um naco de vida melhor. Nem a “teologia da prosperidade” talvez segure o rojão. A velha luta de classes está escrachada nas esquinas.
*Eleonora de Lucena é repórter especial da Folha e foi Editora-executiva do jornal de 2000 a 2010
Gabriel Moreno
22 de agosto de 2016 11:52 pmCom o golpe já consumado, é
Com o golpe já consumado, é hora de fingir isenção. Daqui uns 30 anos, quando todos ficarem indignados com o golpe de 2016 e recuperarem a memória de Dilma Rousseff (como fizeram com o Jango recentemente), a Folha mostra os recortes de jornal e dizem que foram isentos o tempo todo.
Franbeze
22 de agosto de 2016 9:11 pmNenhuma novidade
Eu e muitos aqui já falamos isso e muito mais há um bom tempo. Quanto ao julgamento da historia, é tudo balela. Os historiadores tem a mania de dizer que a historia irá julgar. Balela. Tivemos o golpe de 64 e o Jango foi assassinado e o que temos hoje é a historia se repetindo.
vitorlara31
22 de agosto de 2016 9:22 pmEu tava falando uma coisa
Eu tava falando uma coisa parecida esses dias, mas ao contrario. To cansado dessa conversa de que a história vai punir gravemente os golpistas, não sou historiador e vivo o dia de hoje, não o de amanhã. O castigo rede globo e da folha é pra ontem
EP
22 de agosto de 2016 9:38 pmExcelente post, GGN!
Muito
Excelente post, GGN!
Muito pertinente e oportuno.
João Sabóia Jr.
22 de agosto de 2016 9:42 pmBrazil x Brasil
O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil
O Brazil não merece o Brasil
O Brazil ta matando o Brasil
Do Brasil, SoS ao Brasil
Do Brasil, SoS ao Brasil
Do Brasil, SoS ao Brasil
Marília-MG
22 de agosto de 2016 9:43 pmA folha deve estar no
A folha deve estar no vermelho, por isso quer se mostrar isenta.
Só esse ano já recebi meia dúzia de telefonemas desse jornal para vender assinatura onde oferecem o envio do jornal de graça por 3 meses. Respondo sempre que não quero a assinatura nem se me pagassem, isso depois de dizer que ela é tendenciosa, de direita, manipuladora e golpista.
Acho que já estão no desespero.
Junior Sertanejo
22 de agosto de 2016 9:51 pmRecebo o artigo da jornalista
Recebo o artigo da jornalista Eleonora de Lucena,apesar de estarrecedor,de forma natural.Em comentario que fiz na semana passada,disse textualmente que a Operacao Lava a Jato,era diabolica e nao poderia ser operada por um Juiz de provincia como Sergio Moro.A entensao e os objetivos encravados no seio dela,foram detalhados de forma apavorante pela jornalista Eleonora de Lucena.Nassif em seu artigo de hoje da pistas irrefutaveis do que esta em curso.Acople o artigo dele com o da jornalista,que encontraremos explicacoes para muita coisa.De fato,o que esta em jogo e o Pais.Isso foi arquitetado de fora para dentro,com a coptacao inequivoca de todas as Intituicoes do Pais.Como vamos reagir a isso,nao tenho a menor ideia.Quem sabe pela primeira vez na sua historia,o Pais encontre uma chance para encontrar-se consigo mesmo.
Carla Antonia
22 de agosto de 2016 9:53 pmMala tempora currunt
Se a Folha publica um artigo desses, sabe que seus leitores não vão mudar de ideia. Mas o Otavinho pode continuar dizendo que seu jornal dá espaço a todas as opiniões, enquanto inunda a primeira página com titulões pró-golpistas e anti-petistas, pro povo ver quando passa na frente das bancas.
Dilma Coelho
22 de agosto de 2016 10:32 pmSenado vai enfrentar o julgamento da história,
QUEREMOS A ANULAÇÃO DO PROCESSO DE IMPEACHMENT DA PRESIDENTE DILMA ROUSSEFF
Melissa de Paula Rio Grande, Brasil
Pedimos a anulação do processo de impeachment da Presidente da República Dilma Rousseff, por não haver crime de Responsabilidade e por conter vícios claros no processo, além da manipulação já descrita pelo STF por parte do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, nas deliberações e votações.
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CB
22 de agosto de 2016 10:53 pmOs golpistas não estão nem aí
Os golpistas não estão nem aí com esta conversa de “julgamento da história” porque eles sabem que a história é escrita pelos vencedores. Além disso, já estão com as vidas feitas e encaminharão os herdeiros a continuarem na política.
“Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.” Simples assim.
Zarastro
22 de agosto de 2016 11:50 pmNem precisa tanta filosofia
Além do que você falou aí em cima, eles apostam no esquecimento das pessoas. Daqui a pouco estarão aí, pedindo mais votos para continuarem seus serviços “em prol da nação”. E serão eleitos.
jose adailton v ribeiro
22 de agosto de 2016 11:31 pmNão dói
Vamos elogiar a Folha, ele merece. Sou leitor do jornal há mais de 40 anos e vou continuar admirando este grade representante da imprensa brasileira. A Folha erra , vocês erram, nós erramos. O artigo de Eleonora de Lucena é um diferencial se comparada com a nova mídia, onde há o partido azul e o partido vermelho se degladiando e desinformando o leitor .Isto quando se tornam simpatizantes político partidários. A FSP é um negócio que busca vender seu produto , não importa a quem.É o toma lá , dá cá do capitalismo.
André élebê
23 de agosto de 2016 3:58 pmKKKKKKKK!!!!
Elogie
KKKKKKKK!!!!
Elogie você. Até o relógio quebrado acerta duas vezes a cada dia.
Numa coisa concordo com você: a Folha é grande representante da mídia brasileira, em toda sua canalhice.
Milton Murilo
23 de agosto de 2016 1:51 amO Senado, os senadores e o julgamento da história.
O Senado, por óbvio, é formado por senadores . . .
Um está arrumando as malas para Paris.
Outro recebeu uma diretoria de . . . . . . Furnas ! Alguma lembrança ?
Outro . . . .
Outro . . . .
Quantos “outros” serão necessários ?
Desculpe Eleonora, mas acho que eles estão “preocupadíssimos” com o julgamento da história . . .
Luiz Bruno
23 de agosto de 2016 4:06 amInfelizmente, os senadores
Infelizmente, os senadores não estão dando amínima para a história.
maria rodrigues
23 de agosto de 2016 11:06 amO que se ouve na CBN é que
O que se ouve na CBN é que Temer quer, precisa urgentemente ver os resultados desse julgamento, pois já agendou as viagens que fará ao mundo para esclarecer o que se passa no Brasil, aumentando a autoestima do povo brasileiro, e mais outras sandices.
A rádio fala por Temer como se fossem dois em um.
E se o homem for vaiado nos diversos países por onde pretende passar?
Depois do julgamento, e principalmente depois da fala de Dilma, é que saberemos, de fato, o que pensa a imprensa estrangeira sobre o golpe. Da nossa imprensa, sabemos todos como se comportará.
vitorlara31
23 de agosto de 2016 8:04 pmEstava pensando mais uma vez
Estava pensando mais uma vez nesse artigo e nessa historia de julgamento da historia… dizem que os golpistas serao julgados pela historia. Sera mesmo? Os golpistas de 64 foram julgados? Por quem? O STF, a grande midia, os militares, os politicos comprados pelos americanos, os mesmissimos atores tanto em 1964 quanto em 2016… e a pergunta, cade a puniçao deles? Cade a puniçao da globo? Essa ai nao sofreu puniçao nenhuma, so se deu bem desde 1964 ate os dias de hoje, onde ainda mantem o controle da informaçao no pais.
Fiquei pensando se isso nao eh conversa fiada pra dar uma esfriada nos animos da populaçao que efetivamente sofreu os golpes. A gente apanha, apanha, mas fica pensando, “ah, pelo menos a historia vai punir os golpistas!”, serve mais como auto consolo. Coincidentemente mais uma vez isso aparece da grande midia, no caso a folha que tenta posar de imparcial. Eu acho que nao, eles precisam de um castigo concreto e nao uma puniçao abstrata da “historia”.
Jose de Almeida Bispo
24 de agosto de 2016 11:03 amNosso momento Cartago 146
Nosso momento Cartago 146 a.C. chegou! Tomara que não venha com aquela intensidade.
P. S. A maior derrota que se sofre não é a perda de algo; é a constatação de que de fato nunca o teve.