Publicado em 14.03.2004 na Folha
Conheci a face escura do desemprego quando meu pai vendeu sua Farmácia Central, Salva Sempre, e se mudou para São Paulo sem ter emprego fixo. O velho tinha história na farmácia. Chegou ao Conselho Federal de Farmácia, acho que como suplente, era do Conselho Estadual de Minas, presidente do Conselho de Farmácia do Sul de Minas.
O desemprego é feroz. Não respeita história, competência, seriedade, humilha, liquida com a auto-estima. Seu Oscar veio para São Paulo machucado, mas guerreiro. Foi de porta em porta, ofereceu-se como farmacêutico para seus pares, distribuiu currículo, chegou a escrever algumas crônicas em sua velha Remington, na esperança de que sua segunda profissão, jornalista amador, pudesse ser uma saída.
Não parou de lutar por nenhum minuto, até conseguir emprego de vendedor da Coleção Nobel. Foi para Poços e procurou um a um amigos e antigos desafetos para vender livros. E continuou lutando, tentando, até conseguir emprego de farmacêutico, fazendo manipulação de fórmulas em uma clínica de emagrecimento na zona leste. Depois, alugou uma casa e conseguimos reunir de novo os cinco filhos, espalhados por casas de parentes.
No sábado, eu costumava chegar de manhãzinha do fechamento da “Veja”. Ele pedia carona até o laboratório. Nem ligava, porque sabia que que ele queria companhia. E o levava satisfeito, embora bêbado como um pescador insone.
Pouco a pouco seu Oscar foi se refazendo. Foi juntando seu dinheirinho, economizando, até o dia em que conseguiu comprar uma linha telefônica. Foi a primeira vitória de um longuíssimo período em que se limitou a vender, um a um, todos os seus bens.
Durou pouco a sensação de vitória. Poucos dias depois, cheguei em casa à noite, me preparando para viajar para Poços no dia seguinte. Era 1974. Ele me pegou na sala afobado, com as pupilas dilatadas, bem do modo dos Nassif, depois de certa idade, daquele jeito do seu primo Armando Bogus no final da vida. O Conselho Regional de Farmácia de São Paulo estava recusando seu registro, porque o nome no diploma era Sckhair, e no documento de identidade era o Oscar que assumira com a naturalização, em 1967.
Ele, o mais mineiros dos poços-caldenses -na opinião do amigo Lindolfo Carvalho Dias-, chegou a Poços com dez anos de idade, vindo da Argentina. Quando conseguiu a naturalização, muitas décadas depois, fez a maior festa que nossa casa presenciou. Juntou todos os amigos, exibindo um sorriso esfuziante, devidamente registrado em várias fotos que guardo no álbum de família.
A praga da burocracia vinha atormentá-lo, logo agora que a longa corrida de obstáculos parecia estar chegando ao fim, depois de anos tentando vender a farmácia, depois do momento duro da venda da casa, da chegada a São Paulo, do aluguel da nova casa, da reunificação dos filhos debaixo do mesmo teto, do emprego duramente conquistado.
Viajei no dia seguinte para Poços carregado de pressentimentos. Cheguei lá e soube que os políticos da Arena tinham comprado o jornalzinho que eu havia ajudado a fundar. Briguei com meus ex-sócios, perdi a cabeça e fui esfriar de noite, em uma rodada de música na represa Saturnino de Brito.
Coube ao Sérgio Manucci, com quem eu brigara à tarde, ir até lá para me avisar que meu pai tinha sido derrubado por um derrame. Sobreviveu com seqüelas, mas sua luta terminara ali. Separei um resto de salário, comprei a “Farmacopéia” e o presenteei, mas ele já tinha desistido.
Por isso, cada vez que vejo esses economistas e políticos com suas formulações absurdas, com a insensibilidade dos que destroem países sem se incomodar com os efeitos sobre famílias e pessoas, quando vejo o desemprego se espalhando, me recordo do velho e o vejo, como a milhares de pessoas, na música de Gonzaguinha: “Um homem se humilha / se castram seus sonhos / Seu sonho é sua vida / e vida é trabalho / E sem o seu trabalho / o homem não tem honra / E sem a sua honra / se morre, se mata”…
Iurutaí Puertas
26 de maio de 2024 7:55 amGrande Nassif. O descolamento da realidade, sustentáculo do neoliberalismo hoje imperante,constrói-se a partir da reificação, da desumanização do humano. Neste processo as vítimas contam-se aos milhões pelo mundo; vítimas como o seu pai, o meu e tantos outros filhos, avôs,netos…
Parabéns pelo texto o qual tem vinte anos, mas precisaria ser escrito hoje, por milhares de “jornalistas econômicos”.
Marcone Augusto Araújo Borges
26 de maio de 2024 8:42 amQue texto excelente. Esse é o Nassif. Sua história e sua sensibilidade. Jornalista brilhante, ser humano grandioso. Textos assim, digamos, com esse caráter humano, são impresndiveis. Aprendemos muito com eles, creio que nossos melhores sentimentos são despertados e enxergamos mais profundamente uma realidade, que pode ser muito dura, porém somos instigados a lutar bravamente, como fez o Oscar e tantos outros guerreiros.
José de Almeida Bispo
26 de maio de 2024 9:12 amTenho na minha relação de amigos, três deles suicidados: todos três excelentes ex-bancários… até que fdps burocratas empoderados, para satisfazer suas estupidezes puxassem de suas gavetas as “fórmulas mágicas” de redução de “gastos”, e sem maiores preocupações reduzissem suas vidas a meros números da estatística.
DOUGLAS BARRETO DA MATA
26 de maio de 2024 9:20 amNinguém ousa dizer as palavras do escriba.
Não é possível escrutinar todos os sentidos das palavras, e os sentidos atrás dos sentidos…
Mas Pierre Bourdieu ensina: as palavras são de quem ouve(ou lê) e não de quem escreve.
Sendo assim, eu arrisco:
Nassif entendeu duas coisas:
O capitalismo não permite que o governem.
Não há remédio para um modo de produção que tem na desigualdade a sua essência (uns têm os meios de produção e outros o trabalho).
O sonho classe média se resume a tentar ficar de pé sobre as cabeças de uma multidão de pessoas ainda mais pobres.
E governo Lula sequer tentou ou tentará diminuir esse fosso social.
Faltam duas condições básicas:
Contingente histórico e coragem para criar esse contingente.
Belo texto Nassif, tocante, mas…
Anônimo
26 de maio de 2024 10:16 amSensibilizada, leio esses fatos e sei que são vividos por personagens brasileiros cotidianamente. Triste. E muito.
Pedro Jesus Sampaio
26 de maio de 2024 11:44 amA denuncia pessoal sempre emociona, é nescessária,somos gente não números,a economia só faz sentido se o objetivo for o bem comum.
WILLIAM ROBERTO PORTO
26 de maio de 2024 12:28 pmSó agora pelo que comentou Iurutaí Puertas, percebi que o texto tem VINTE ANOS. Poderia ter sido escrito hoje, sem nenhuma mudança.
conrado.paulino
26 de maio de 2024 12:34 pmCaramba, que texto tocante, sensível.Estranha combinação de triste e bonito. Fazendo um esforço para ignorar o relato real e humano, me encantou a fluência do texto, que me fez lê-lo com avidez. E, claro, a medida que ia lendo, imediatamente veio à minha mente a lembrança da canção do saudoso Gonzaguinha. Grande abraço e bom domingo para todos 👊👊👊🙂👍
Etevaldo Dias
26 de maio de 2024 12:48 pmPuxa Nassif, história comovente. Texto escrito com o coração ❤️
evandro condé
26 de maio de 2024 12:53 pmNassif, me fez lembrar uma palavra que foi moda durante algum tempo: REENGENHARIA. Muita gente dançou na história com os CEOs fazendo resultado rápido enxugando as empresas.
Edson Monteiro
26 de maio de 2024 1:31 pmRealmente meu caro Nassif! Esses políticos sem compromisso com o povo e os economistas que só pensam em conceitos acadêmicos do neoliberalismo só nos trazem decepções!
Os tempos mudam, o mundo muda, as pessoas mudam! A natureza, reclama, reage, a ciência alerta, mas as técnicas aplicadas às economias continuam sendo extrativistas, com maior produtividade para explorar cada vez mais os recursos naturais, sem avaliar as consequências e impactos para a qualidade de vida dos seres humanos!
Waldemir de Araújo Filho
26 de maio de 2024 2:06 pmPura verdade, Nassif. Você honra seu pai com essas memórias e lembrança do valor do trabalho em uma sociedade. E honra o jornalismo, que não se rebaixa ao poder profundo dos poderosos e insensíveis aos mais frágeis socialmente.
ROSANIA MARIA DE CARVALHO ABRANTES
26 de maio de 2024 2:08 pmQue linda crônica, família e luta sempre presente dos Nassif. Sigo amando fazer parte deste destino de amor e esperança de um país melhor para todos
Albertino Ribeiro
26 de maio de 2024 5:11 pmLindo artigo. Genial o mix de sensibilidade, política e economia.
Naldo
26 de maio de 2024 5:20 pmE essas reformas canalhas também, fazem o trabalhador trabalhar oito dez anos a mais pra economizar o que eles não fazem questão de economizar em suas patifarias….. é a nossa vida que passa…..e o STF cancelando as canalhice sem nenhum pudor..
Cláudio Melo
26 de maio de 2024 6:13 pmUns oito anos antes desse texto, em 1996, o governo federal lançou, através da MP 1530, o Programa de Desligamento Voluntário do Servidor Público Federal- PDV, regulamentado pelo Decreto 2.076/1996, publicados na mesma edição do DOU. Nesse mesmo dia, o servidor recebia, no seu local de trabalho, uma Cartilha de informações sobre o Programa.
O PDV, como se sabe, é a troca de incentivos pelo direito de se exonerar o servidor. Ocorre que o incentivo social Apoio Para a Retomada da Vida Profissional previsto no artigo 8° da MP, no artigo 14 do Decreto e descrito nas páginas 16 e 17 da Cartilha nunca foi implementado, sequer criado no âmbito do Ministério do Trabalho como descrito na Cartilha.
Aquele governo fez de forma sorrateira o que o governo Collor fez sem subterfúgios: demitiu servidores.
O Programa foi precursor da Fakenews – fraude como se conhece sem rodeios -, da desinformação e da lei construida como arma – conhecida hoje como Lawfare. A intenção era defenestrar os servidores e o Programa, bem apresentado, era apenas uma falsificação de propósitos. Um ardil, uma trapaça institucionalizada.
AMBAR
26 de maio de 2024 8:50 pmFHC, o estadista de Haia, se vangloriava de sua verve e cultura enquanto 50 milhões de brasileiros sobreviviam abaixo da linha da pobreza. Tudo discretamente. Ele era fino, educado e sabia usar talheres. O funcionalismo foi muito bem tratado com ele. Sem a franqueza insensível do Paulo Guedes, FHC colocou a bomba no bolso dos servidores públicos e detonou-a. 11 anos sem qualquer reajuste, desmonte de todos os setores e ao final desse período, 1% de generoso reajuste para todas as categorias, que é pra ninguém ficar reclamando. O PDV iludiu alguns, que já estavam descontentes com o serviço público e pretendiam se estabelecer na iniciativa privada. (nunca dá certo)FHC é um exemplo da fina flor da malandragem neoliberal.
AMBAR
26 de maio de 2024 8:41 pmFeliz o homem que tem um pai amoroso e mãe dedicada para admirar. Passei a madrugada vendo, por acaso, a autobiografia do Silvester Stalone em um documentário que ele fez porque se sente no fim da vida. Um balanço notável sobre pais, filhos, desemprego, oportunidades, luta e dor.” SLY” é o nome do documentário. Quem quiser ver de graça é aqui : https://megafilmeshd50.site/filmes/sly/
Carioca
27 de maio de 2024 12:32 amSÓ quem sabe o que é compartilhar o desemprego dentro de uma casa é que pode entender, o que faz, a falta de um emprego para um ser humano. Nem se fale do experimentar, por decorrência, a falta do que comer. Mas não se iludam. Esse país está, a passos largos e altaneiros, a caminho do fundo do posso.
Tomara que ainda exista o poço.
adriano.martins
1 de junho de 2024 7:03 pmBelo texto Nassif, como sempre nos brindando com excelentes reflexões! A referida música do Gonzaguinha se fez presente num tempo de minha vida, quando eu era bem jovem, na casa dos 20, e um grande amigo amargava anos de desemprego. Cheguei a emprestar dinheiro para ele, dizendo que esquecesse que eu tinha emprestado. COm perseverança ele venceu a dura fase.