A Cidade Depois do Áureo Ontem
por Henrique Morrone
Nasci em Porto Alegre quando casas ainda respiravam. Não eram mansões. Eram pátios, árvores e conversas atravessando cercas baixas. O sotaque já era curioso; a cidade ainda era porosa.
Cresci em bairro nobre por acidente histórico: migração dos meus e valorização imobiliária canibalesca. Nos anos 80, casas dominavam. Depois vieram os prédios — não como vizinhos, mas como método. Engoliram fachadas. Comprimiram quintais. As remanescentes ergueram grades. Grades altas. Grades afiadas.
A verticalização chegou como promessa. Hipermercados substituíram pequenos negócios. O bairro deixou de ser lugar e virou destino. A rua deixou de ser encontro e virou passagem.
Os espaços de skate encolheram. Jovens foram enxotados. De casa para escola, da escola para o clube. Tudo fechado. Tudo asséptico.
Bebedouros secaram.
Viraram ornamento arquitetônico de uma época áurea.
E eram públicos!
Banheiros sumiram das praças.
Restaram os das quadras cercadas.
Andarilho de outra época. Observo.
A cidade deixou de ser cenário e tornou-se ativo. Espaços públicos rarearam — por decisão ou por desenho. Espigões dominaram a geografia. O macro substituiu o micro. O meso virou tráfego.
Porto Alegre não estava sozinha.
Graças a algumas famílias — e aos seus Porsche — que dominam a construção civil, as ruas avançam num processo acelerado de copacabanização. Raios de sol tornam-se topázios no seio urbano.
Farmácias engoliram botecos.
Os cinemas de rua evaporaram.
Reapareceram cercados em castelos de pedra.
A paisagem clareou — não de luz, mas de repetição. Cabeças brancas passaram a definir territórios.
A vitalidade foi transferida. Redistribuída.
Porto Alegre já foi mais vibrante. Não porque o passado fosse apenas áureo, mas porque a cidade ainda não havia aprendido a se fechar como projeto.
Hoje parece organizada, em partes.
Plena.
Mesmo quando esvaziada.
Dual por natureza.
Empobrecida no isolamento.
Hoje dá desgosto de ver.
Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.
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