21 de maio de 2026

A Cidade Depois do Áureo Ontem, por Henrique Morrone

A cidade deixou de ser cenário e tornou-se ativo. Espaços públicos rarearam — por decisão ou por desenho. Espigões dominaram a geografia.
Porto Alegre - Reprodução

Porto Alegre mudou: casas e pátios deram lugar a prédios, grades altas e espaços públicos rareados.
Bairros nobres perderam comércio local, ruas viraram passagem e espaços de convivência foram cercados.
A cidade tornou-se isolada e organizada, com esvaziamento social e paisagem urbana dominada por espigões.

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A Cidade Depois do Áureo Ontem

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por Henrique Morrone

Nasci em Porto Alegre quando casas ainda respiravam. Não eram mansões. Eram pátios, árvores e conversas atravessando cercas baixas. O sotaque já era curioso; a cidade ainda era porosa.

Cresci em bairro nobre por acidente histórico: migração dos meus e valorização imobiliária canibalesca. Nos anos 80, casas dominavam. Depois vieram os prédios — não como vizinhos, mas como método. Engoliram fachadas. Comprimiram quintais. As remanescentes ergueram grades. Grades altas. Grades afiadas.

A verticalização chegou como promessa. Hipermercados substituíram pequenos negócios. O bairro deixou de ser lugar e virou destino. A rua deixou de ser encontro e virou passagem.

Os espaços de skate encolheram. Jovens foram enxotados. De casa para escola, da escola para o clube. Tudo fechado. Tudo asséptico.

Bebedouros secaram.
Viraram ornamento arquitetônico de uma época áurea.

E eram públicos!

Banheiros sumiram das praças.
Restaram os das quadras cercadas.

Andarilho de outra época. Observo.

A cidade deixou de ser cenário e tornou-se ativo. Espaços públicos rarearam — por decisão ou por desenho. Espigões dominaram a geografia. O macro substituiu o micro. O meso virou tráfego.

Porto Alegre não estava sozinha.

Graças a algumas famílias — e aos seus Porsche — que dominam a construção civil, as ruas avançam num processo acelerado de copacabanização. Raios de sol tornam-se topázios no seio urbano.

Farmácias engoliram botecos.
Os cinemas de rua evaporaram.
Reapareceram cercados em castelos de pedra.

A paisagem clareou — não de luz, mas de repetição. Cabeças brancas passaram a definir territórios.
A vitalidade foi transferida. Redistribuída.

Porto Alegre já foi mais vibrante. Não porque o passado fosse apenas áureo, mas porque a cidade ainda não havia aprendido a se fechar como projeto.

Hoje parece organizada, em partes.
Plena.
Mesmo quando esvaziada.
Dual por natureza.
Empobrecida no isolamento.

Hoje dá desgosto de ver.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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