20 de junho de 2026

A razão da teimosia de algumas grandes mulheres

Dona Tereza nasceu em 1926; casou-se em 1949, aos 23 anos, seu Oscar aos 33.

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Depois de morta, tive acesso à correspondência de noivado entre ambos.

Apaixonada, mais assertiva, dona Tereza dizia que queria enfrentar os desafios ao lado do meu pai, não como dona de casa ou madame. Reagia contra os convites das tias Marta e Rosita, para que passasse a frequentar o Country Club e as aulas de tênis de uma cidade eminentemente mineira, mas que se deixava seduzir pelo glamour do turismo carioca.

Não conseguiu ser a parceira de todos os momentos. De um lado pelo reumatismo infeccioso contraído na infância e pelo hipercolesterol genético que a deixou com problemas cardíacos que a levaram aos 63 anos. De outro, pelos obstáculos de tempos anacrônicos.

Tinha um encanto especial pela política e uma vontade intensa de participar, herança combinada do relacionamento com dois homens públicos excepcionais, seu Oscar e seu (dela) pai Issa Sarraf,

Mas jamais conseguiu entrar na farmácia Central como parceira e conselheira, mesmo tendo uma visão de futuro muito mais adiantada que a do seu Oscar.

Seu Oscar era um farmacêutico no estilo clássico, agente de saúde. A maior parte da área da farmácia era espaço interno, dedicada ao laboratório de manipulação e à sala de injeção. A parte da frente era tomada por um enorme balcão do lado esquerdo, no qual diariamente debruçavam-se amigos para conversar; e um sofá do lado direito, também para receber os amigos. Sobrava pouco espaço para quem vinha comprar.

Quando sobreveio a grande crise pessoal de papai, dona Tereza tentou de todos os modos aconselhá-lo. Orientou-me a buscar a rádio Cultura para divulgar jingles da farmácia, como era quando se casou. Pediu-me que aconselhasse papai a tirar os móveis que atulhavam a farmácia e abrisse espaço para prateleiras, por onde os fregueses pudessem andar e escolher os produtos. Nem ela nem eu, com 17 anos, tínhamos ascendência sobre o velho.

Isso em 1967, quando nem a Drogasil de Poços tinha aderido ainda ao novo modelo de farmácia.

Exerceu sua vocação pública na educação dos filhos. Não foi pouco, mas não foi tudo o que poderia ter sido. Desde cedo orientou minhas irmãs a terem independência econômica e emocional em relação aos futuros maridos. E serem companheiras, sempre, e não competidoras de uma olimpíada doméstica destrutiva.

Fossem outros tempos, fossem outras condições do casamento ou da saúde, dona Tereza teria sido mais que a normalista que jamais lecionou, ou a dona de casa que se dedicou integralmente à educação dos filhos.

Esses percalços, essa dissintonia entre mentes femininas modernas esbarrando nos limites de tempos anacrônicos, mataram muitas vocações públicas, esmagadas pelo machismo mais truculento ou mais sub-reptício. E subsistem até hoje, entranhados e corrosivos como o pecado original.

Dia desses conversei longamente com uma mulher notável. Ela me falou de seu trabalho. Surpreendi-me com a extensão. Perguntei se sabia que estava ajudando a melhorar o país, mudando a vida de dezenas de milhares de pessoas. Olhou-me surpresa, quase assustada: não tinha se dado conta disso. Em casa, o ex-marido gostava de suas aparições públicas mas minimizava, ou não entendia, a extensão do seu trabalho para não perder a prerrogativa de soberano do lar.

Não se pense em um caso isolado.

Conheci grandes mulheres, intelectualmente brilhantes, e emocionalmente dependentes ou de verdadeiros trogloditas com quem se casaram, ou de maridos atenciosos, mas trazendo a carga de desprezo atávico pela condição feminina.

Usam para as esposas o mesmo tom benevolente utilizado para negros ou empregados ou outros alvos de preconceito disfarçado: compreensão total, desde que conheça o seu lugar.

Esse tipo de comportamento não respeita nem a mulher de sucesso, pelo contrário. É como se dissessem: lá fora você poder brilhar; mas aqui em casa, mando eu. Não escaparam dessa sina nem as guerreiras que queimaram sutiãs, que celebraram a pílula e que se lambuzaram no caos supostamente libertador de Woodstock.

Por aí pode-se entender porque algumas mulheres brilhantes, bem intencionadas, mesmo as que passaram por todas as provações da vida, fecham-se em uma teimosia agressiva, tornam-se  impermeáveis a qualquer conselho e recorrem a um voluntarismo exacerbado: venceram na vida mas não venceram os traumas carregados ao longo de décadas. E passando por essas provações com uma sensibilidade, uma capacidade de emoção que só as mulheres e os artistas têm e que a maioria dos homens está longe sequer de supor.

Sempre que posso passo informações para minhas meninas sobre essa maldição cultural. Mostro casos de grandes mulheres subordinadas a pequenos maridos e aconselho-as a não aceitar de forma alguma serem minimizadas por futuros namorados ou maridos.

Acho que conseguirão. Os novos tempos espantarão para os armários da história os séculos de submissão feminina.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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21 Comentários
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  1. Maria Luisa

    11 de maio de 2014 5:25 pm

    Teimosia

    Eh, eu ando teimando aqui com esse blog. Je peste contra o que não me parece fazer sentido. E isso aprendi com meu pai: insistir, teimar, persistir, perseverar (ser chata tambem) sempre até obter uma resposta, ainda quando as coisas pareçam evidentes. Mas não são. 

    1. luisnassif

      11 de maio de 2014 6:40 pm

      Qual a pergunta, Maria Luisa?

      Qual a pergunta, Maria Luisa?

      1. Ivan de Union

        11 de maio de 2014 7:13 pm

        (Nassif, ta parecendo

        (Nassif, ta parecendo comentario na pagina errada!)

      2. Maria Luisa

        12 de maio de 2014 7:39 am

        Esse comentario é uma

        Esse comentario é uma referência a minha demanda sobre os comentarios do Argolo que aprova as decisões de JB e que ganharam ultimamente 5 estrelas (de minha parte acho que ele não foi rebatido corretamente, então fica a sensação de que ele esta certo).

        Então, peguei carona nesse texto bonito que escreveu para sua mãe e as mulheres em geral, para dizer que se estou sendo chata, até inconveniente com essa historia menor, é porque aprendi a persisitir, o que não esta muito distante de uma certa teimosia. Mas sei reconhecer quando erro ou estou mal informada. 

        Saudação.

  2. Gisele Camara

    11 de maio de 2014 5:59 pm

    Sensibilidade Empatia

    Um  texto que celebra  o dia da mães decifrando com sensibidade, empatia e amor a condição feminina.

  3. ana maria naccache

    11 de maio de 2014 8:33 pm

    Déjà vu

    Pai árabe não é Nassif?
    Impressionante as semelhanças.
    Como você disse até mesmo os dóceis e meigos tinham esse tipo de comportamento.
    Uma pena pois sua mãe teria salvo a farmácia do seu pai como a minha teria salvo a indústria do meu.

    abs

  4. Morvan

    11 de maio de 2014 10:20 pm

    Belíssima crônica. Homenagem justíssima.

    Boa noite.

    Nassif homenageia Dona Tereza e, por extensão, a todas as mulheres e mães. Que esta belíssima homenagem encoraje a todas as que têm desejo de ser tais qual D. Tereza; querem protagonizar, e não  simplesmente se tornar as “convenientes” Amélias. Vivam todas as D. Terezas. À luta. Emancipação sempre.
     

  5. Morvan

    11 de maio de 2014 10:24 pm

    A Farmácia do “Seo” Oscar Tinha Remédio!

    Já, Cantareira…

  6. Fatima lima

    12 de maio de 2014 1:47 am

    A razão da teimosia

    Brilhante como sempre. Obrigada e parabéns pelo texto. Dona Teteza

    deixou um multiplicador de sua fortaleza.

  7. Gi

    12 de maio de 2014 2:19 am

    Nassif:
    Lindo texto.
    Me vejo

    Nassif:

    Lindo texto.

    Me vejo nele. Nas lutas que tive que enfrentar e na desvalorização que sempre senti que o mundo masculino quis me impor, mas que eu teimosamente sempre recusei para hoje ser dona da minha vida. Infelizmente apenas aos 57 anos. Mas antes assim que nunca.

  8. Gi

    12 de maio de 2014 2:19 am

    Nassif:
    Lindo texto.
    Me vejo

    Nassif:

    Lindo texto.

    Me vejo nele. Nas lutas que tive que enfrentar e na desvalorização que sempre senti que o mundo masculino quis me impor, mas que eu teimosamente sempre recusei para hoje ser dona da minha vida. Infelizmente apenas aos 57 anos. Mas antes assim que nunca.

  9. Juliano Santos

    12 de maio de 2014 3:06 am

    Captei vossa mensagem,

    Captei vossa mensagem, prezado mestre. Também concordo com esse perfil psicológico da nossa atual mandatária. Acho que é por aí mesmo

  10. Andyara Cagnani

    12 de maio de 2014 9:07 am

    Parabéns Luis pela homenagem justa e a sensibilidade para com as

     

    Parabéns Luis, pela homenagem justa e brilhante para sua senhora mãe e a sensibilidade para com todas

    nós mulheres. Coisa rara hoje em dia !

    Um grande abraço e sucesso sempre.

     

    Andyara Cagnani 

     

  11. Andyara Cagnani

    12 de maio de 2014 9:13 am

    Parabéns Luis pela homenagem justa e a sensibilidade para com as

     

    Parabéns Luis, pela homenagem justa e brilhante para sua senhora mãe e a sensibilidade para com todas

    nós mulheres. Coisa rara hoje em dia !

    Um grande abraço e sucesso sempre.

     

    Andyara Cagnani 

     

  12. Sílvia shgg

    12 de maio de 2014 11:32 am

    Sensibilidade pura

    Foi isso que senti ao ler seu texto. Pensei que só as mulheres conseguissem perceber isso. Parabéns e obrigada!

  13. DARCI BORGES

    12 de maio de 2014 11:48 am

    Grande Nassif, seu texto é

    Grande Nassif, seu texto é belíssimo, homenagem a sua mãe mas que pode ter uma abrangência muito maior e extrapolar seu universo familiar e homenagear a todas as mulheres do mundo! Parabéns a você e às homenageadas do dia, as Mães!

  14. Joana Sá

    12 de maio de 2014 11:50 am

    Poxa Nassif, gosto de você
    Poxa Nassif, gosto de você demais. Deste texto então. Uma vez quase fui demitida por reproduzir um texto seu via e-mail. Um abraço.

  15. Dani Vereda

    12 de maio de 2014 1:32 pm

       Então, precisamos mesmo

       Então, precisamos mesmo avançar nas relações dos gêneros, nas relações afetivas! Sempre converso com mulheres de diferentes gerações e condições sociais diferentes: profissionais, estudantes, pós-graduadas, diaristas, donas-de-casa… Todas nós com o desejo de companheiros que sejam NOVOS HOMENS, que sejam REALMENTE MAIS COMPANHEIROS em lutas diárias com o trabalho externo, o trabalho doméstico, com os estudos,os cuidados com as crianças, um relacionamento melhor…

  16. Dani Vereda

    12 de maio de 2014 1:36 pm

       Então, precisamos mesmo

       Então, precisamos mesmo avançar nas relações dos gêneros, nas relações afetivas! Sempre converso com mulheres de diferentes gerações e condições sociais diferentes: profissionais, estudantes, pós-graduadas, diaristas, donas-de-casa… Todas nós com o desejo de companheiros que sejam NOVOS HOMENS, que sejam REALMENTE MAIS COMPANHEIROS em lutas diárias com o trabalho externo, o trabalho doméstico, com os estudos,os cuidados com as crianças, um relacionamento melhor…

  17. Raí

    12 de maio de 2014 2:26 pm

    Por tráz de um grande homem…

    Nassif, estávamos sentindo falta de suas antigas e bem contadas(como esta)crônicas, e sobre a Dona Tereza, a frase centenária, de que “por tráz de um grande homem, sempre há uma grande mulher” pode não parecer, mas a maneira dedicada da sua falecida mãe, ao criar e educar os filhos, mesmo tendo contra a esquecida vida social e participativa na sociedade da época, por conta do respeito ao anacronismo, do Seu Oscar, não impediu-a de ser uma excelente formadora de pessoas, que ao contrário dela, “explodiram” na vida e na participação na sociedade aonde vivem e atuam.

    Que suas filhas e neta, sigam seus conselhos relacionados a esta independencia e participação ativa, assim com ocorreu com suas duas irmãs, Lourdes e Maria Inês.

  18. Virgínia Lobato

    12 de maio de 2014 2:52 pm

    Minha avó farmacêutica

    Oi, Nassif.

     

    Reconheço bem o contexto de farmácias no interior de Minas. Muito sutil e perceptivo o seu texto. Bela homenagem a todas as mulheres e a sua mãe especialmente. 

    Minha avó era casada com um famacêutico, moravam em uma vila no interior de Minas. Mas meu avô faleceu cedo, ataque do coração fulminante. Deixou minha avó viúva aos 28 anos, com quatro filhos pequenos para criar e uma farmácia para gerenciar. Graças a argúcia, inteligência e tino comercial de minha avó, a farmácia prosperou. Porque ela sabia “traduzir” o dialeto mineiro para o vocabulário médico e dos remédios. As pessoas vinham de outros povoados para comprar “sarta pra cima do bicho”, que só tinha na farmácia da minha avó. Você imagina o que era? Era Salsa Parrilha de Bristol! 

    A visão de futuro e o espírito empreendedor de minha avó desencadeou o salto social da família inteira. A irmã de minha avó permaneceu analfabeta. Minha avó teve a oportunidade e quis aprender a ler (era facultativo para as meninas e mulheres, naquela época). Ela sempre valorizou a educação. Nunca deixou de se interessar pelo aprendizado. 

    Após a morte de meu avô, mandou educar seus quatro filhos em um internato distante. Era difícil mantê-los lá, era caro também. Mas valeu a pena. Todos se formaram. Meu tio mais velho, farmacêutico; o do meio, médico; minha tia, advogada (ainda que tenha casado e nunca exercido a profissão); minha mãe, professora (na época, era boa profissão). 

    Acredito que nosso país pode dar um salto de civilização também, se as crianças tiverem mais acesso a educação de qualidade. E se houver mais igualdade e respeito às mulheres, em geral. Às vezes, tenho a esperança de que isso já está começando a acontecer. E esse processo não pode parar. 

    Abraço

     

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