Ana Rosa Kucinski e o Diabo, 1942 – ?, por Rui Daher

Ana Rosa Kucinski e o Diabo, 1942 – ?, por Rui Daher

Tenho um hábito comum a muitos, talvez. Diante da dor, fazê-la maior e assim ter a impressão de diminuí-la.

Diabético há 42 anos, doem-me as panturrilhas. Pressiono-as fortemente com o dedão até que a dor se torne insuportável. O mesmo com os pés, quando deito para dormir ou, em viagens, muito tempo sentado. Aperto-os como bruta massagem. Dores de cabeça, dentes, pescoço, nuca, ombros, juntas, defendo-me da mesma forma.

No momento brasileiro, o que mais dói é a alma. Se ela não existe na forma como a querem as religiões, fatalmente, existe em nossas emoções, sensações, amores e dores. Ainda que para rimar.

Penso. Desde que nasci, vivi em país de ricos em que poucos se importam com os pobres. Creem divisão e aquiescência naturais, milenares, “da vida”, “sempre foi assim”. Algo a ver com meritocracia, de tantas injunções e fatores subjetivos, ou Lei Divina.

O que mais me tortura é após ter-me conformado com esse destino para o Brasil e demais países das Américas do Sul e Central, África, sem qualquer ilusão de mudança (não transformação, em que nunca acreditei), ver a ilusão de 2003 indo-se embora, entre erros, golpes e, desculpem-me o termo, surubas políticas e econômicas.

Na Sexta-Feira Santa, galhofeiro, propus que em vez de nos manifestarmos em pequenas notas nas redes digitais nos dedicássemos à leitura da Odisseia, de Homero. Para acompanhar, um bife suculento seria permitido por Bergoglio, argentino que entende do riscado.

Não cheguei a tanto, mas fiz doer minha alma como faço com minhas dores corporais. Com algum atraso, li dois livros, emprestados pelo amigo Eduardo Testa: “K, relato de uma busca” (Companhia das Letras, 2011-2016) e “Os Visitantes” (Companhia das Letras, 2016), ambos escritos por Bernardo Kucinski.

Sem Homero, relembrei com detalhes da odisseia de Ana Rosa Kucinski, irmã do autor, na tortuosa procura de seu pai para saber o paradeiro da filha, professora-doutora de Química, na USP.

Impossível não ter este descendente de árabes cruzado com a descendente de judeus no CRUSP, nas assembleias das UEE e UNE, na Maria Antônia, contemporâneos que fomos. Na Wikipedia, assim aparecem as datas de seus nascimento e morte: * 12 de janeiro de 1942; ɫ? de ? 1974.

Envergonhei-me de ainda não ter uma interrogação de morte em meu nome. Serviu-me a leitura para apertar a dor do Brasil de hoje até o não mais resistir. Se eles fizeram aquilo no passado por que, mais sem-vergonhas e tão cruéis, não o repetiriam hoje, como fizeram com Vladimir, Ana Rosa e tantos mais?

Assustam os meus delírios. Conversas noturnas com Darcy Ribeiro, o pesadelo escrito nesta semana (sem “subir”), que vaticina Sérgio Moro e Doriana Júnior no Poder Executivo, a destruição da pequena e média agricultura – meu trabalho -, a Globo inatacável.

Diferente da leitura audiovisual, em que as faces estão estabelecidas, a impressa nos faz criar cenários, rostos, corpos, situações.

Foi o que senti, hoje, lendo os livros acima citados. Em Ana Rosa, vi uma amiga, também professora de Química, agressiva, combativa e bonita. Em K, vi outro amigo, advogado, que felizmente não teve que passar por tal procura, mas dispõe, até hoje, do mesmo ideário de K.

Quanto a mim, sinto-me cada vez mais perto da porta de saída. Escrever assim para nada mais serve.

 

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