Anotações para o aniversário da língua portuguesa, por Urariano Mota

Em 10 de junho, nos países lusófonos se comemora o aniversário do português.  A razão para a festa é que nesse dia faleceu o poeta universal Luiz Vaz de Camões.

Anotações para o aniversário da língua portuguesa

por Urariano Mota

Em 10 de junho, nos países lusófonos se comemora o aniversário do português.  A razão para a festa é que nesse dia faleceu o poeta universal Luiz Vaz de Camões. Daí que aproveito para rascunhar estas linhas em torno da língua portuguesa a seguir.   

Apesar dos cabeças-duras, como assim podem ser chamados os gramáticos que se agarram à norma culta como a um fóssil, a língua portuguesa é democrática…. Democrática? Se por democrática queremos dizer que ela é uma força viva, como uma emergência da natureza alheia a diretriz e vontade exterior, talvez sim. Ela é democrática assim como no mundo natural há finitas e imprevisíveis formas, que não se moldam a um modelo único de existir.

Mais próprio então será dizer que o português é flexível. Ele possui muitas moradas, e nele cabem todas as variações da língua, porque legítimas expressões das várias gentes do mundo. Do Brasil a São Tomé e Príncipe, passando por Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Timor-Leste, Macau, Cabo Verde e Portugal, todos são falas da língua. Uma unidade no mundo diverso poderia ser dito,  se leviano nos deixássemos levar pelo gosto encantatório da frase. Mas não nos enganemos. Essa unidade se fez e se conquistou a sangue. A ferro e fogo sobre os povos colonizados, como de resto tem sido a expansão de línguas e culturas no mundo.

José Saramago observou uma vez com propriedade: “Há línguas portuguesas e não uma só língua portuguesa. Essas línguas são, ao mesmo tempo, iguais e diferentes”.  No caso brasileiro, as contribuições africana e indígena sob as condições mais cruéis se fizeram não só no léxico, mas na fala e no ritmo da fala. Hoje, se a gente olhar bem, a fala brasileira do português é um outro português. Aquilo que Noel Rosa expressou com tanto gênio no samba Não Tem Tradução: “Tudo aquilo que o malandro pronuncia / Com voz macia é brasileiro, já passou de português”. Vale a pena acompanhar ouvir João Nogueira. 

Aos ouvidos, o brasileiro muito se afasta da prosódia portuguesa que existe até hoje nos falantes africanos da língua. Para os brasileiros, a fala de um moçambicano, um angolano, um cabo-verdiano, soa à semelhança de Lisboa, tanto pelo vocabulário quanto pela pronúncia. É claro, a semelhança vem apenas para os nossos ouvidos. Escutem, por exemplo, a bela interpretação de Pérola.

 É claro, é bem distinto de Mariza a cantar Quem me Dera.

Mas para um brasileiro, os seus cantos se assemelham na prosódia,  são um outro português.

Quando tento ficar estranho a nosso próprio falar, reconheço que a língua portuguesa no Brasil é tão renovada e clássica, que mais de um estudioso já afirmou que a métrica dos versos de Camões sobrevive melhor na fala brasileira. Isto é, a métrica do maior poeta português funciona à maravilha com a pronúncia brasileira. Dizem que os versos camonianos se quebram na fala da Lisboa nova cidade. E vem até uma explicação: em nosso português do Brasil falamos vogais que não se comem. No brasileiro, as vogais se pronunciam abertas, e assim as sílabas também se falam plenas. A esta altura, desconfio que bem caberia um novo burguês fidalgo, à semelhança do personagem de Molière: “Então estamos a falar à Camões e não o sabemos?”.     

Por isso é mais sensato não me aventurar em terreno dos Lusíadas por ouvir dizer. Será mais seguro se trouxer o português para o terreno onde sou menos ignorante. E caminho ligeiro para a literatura. Nela, a língua encontra a sua mais fecunda realização. Nela, os brasileiros, africanos, asiáticos e portugueses somos ao mesmo tempo distintos e unos. Distintos não só a partir dos temas, da paisagem, das gentes narradas.  Distintos no modo novo de ver a realidade humana em novas culturas e feições.

Machado de Assis já nos esclarecia no ensaio Instinto de Nacionalidade, em 1873:

“Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas literárias do pensamento buscam vestir-se com as cores do país, e não há de negar que semelhante preocupação é sintoma de vitalidade e abono de futuro”.

Assim, posso lembrar de passagem o mais perto: Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, que influenciaram toda moderna literatura dos escritores de Angola e Moçambique. Uma literatura distinta, de modo mais claro, pela autonomia e independência também na grande e imensa poesia brasileira. De Manuel Bandeira a Carlos Drummond e João Cabral, para mencionar os que me vêm à memória primeiro, temos uma poesia tão natural, tão única do Brasil como se fosse o cajueiro. Até parece, mas grande é o engano. Esse cajueiro tem raízes que não são autóctones.

Isso porque esta é uma língua una, autônoma na diferença, mas nessa mesma autonomia e originalidade guarda um sabor que se nutre dos clássicos do português de origem, do Padre Vieira, de Camões e até mesmo de Eça de Queiroz, por exemplo. Talvez os portugueses não saibam da repercussão de Eça para os brasileiros. Esse romancista chegou a gerar uma revolta em Pernambuco. No livro de Paulo Cavalcanti, “Eça de Queiroz, agitador no Brasil”, conta-se que dos artigos de Eça nas Farpas de 1872, onde a viagem de Dom Pedro II a Portugal em 1871 foi tratada com sarcasmo, fez-se um incêndio. Utilizado pela propaganda republicana, o texto gerou grandes discussões jornalísticas e sérios conflitos de rua, opondo populares e monarquistas a comerciantes portugueses e republicanos. É claro, essa repercussão de Eça de Queiroz no mundo prático de Pernambuco foi nada fraterna. Mas é sinal da sua intensa leitura, que entraria na formação de  muitos escritores brasileiros.   

Esta é uma língua em permanente construção. E um dos passos inescapáveis será a mudança nos dicionários, para que se abram à fala popular, que incorporem o mundo das gentes que fazem a vida do povo, à margem dos lexicógrafos. Chegam a confundir Beiju com Tapioca. Ambos vêm da mandioca, mas param por aí na semelhança. Os dicionários, como desconhecem palavras e cultura do povo (porque os definem mal) fazem a confusão. De modo precário, pelo sabor, digo que beiju é mais duro, seco, e se come depois de assado. Já tapioca é macia, de grãos mais finos, um pozinho úmido de mandioca, que na sua melhor expressão recebe um recheio de coco ralado.

A razão desse erro vem de que o mundo popular não está dicionarizado. Os miseráveis e excluídos de toda sorte estão aquém do mundo dos livros, ainda que possuam uma vida plena e robusta de arrebentar veias de sentidos. Há todo um mundo de palavras que não estão nas páginas dos melhores dicionários. Não se trata nem de gíria, feito amor de carnaval que dá e passa, às vezes. Trata-se de palavras seculares, seladas pela tradição oral, mas que se falam como se não fossem bom português, como se fossem uma transgressão de bárbaros.

E agora volto ao princípio. Lembro que em documento que circulou clandestino em 1972, o dirigente comunista Diógenes de Arruda Câmara, antes de contar as torturas pelas quais passou, escreveu no alto do texto mimeografado estes belíssimos versos de Camões:

“Metida tenho a mão na consciência,
E não falo senão verdades puras
Que me ensinou a viva experiência”.

Os versos vinham como epígrafe da narração das dores, antes do torturado contar  as duas paradas cardíacas que sofreu, a perda de um dos pulmões, de uma das vistas e  relatar os dedos quebrados. Estava no alto: “Metida tenho a mão na consciência”. Isso muito me impressionou. A mais cruel descrição, o dirigente comunista antecedia por versos magistrais. Ali ficou mais clara para mim a relação entre socialismo e humanidade. Entre a clandestina militância e o destino da literatura. Então viver a poesia não era passear por um jardim, aprendi.

Penso, enfim, que o Camões lírico, tão bom ou melhor que o épico, bem merecia a mais ampla divulgação e memória. Transforma-se o amador na coisa amada. Busque o amor novas artes, novo engenho. Erros meus, má fortuna, amor ardente. Julga-me a gente toda por perdido. O Tempo acaba o ano, o mês e a hora. E este petardo de reflexão e dialética do sentimento:  

“Amor é fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é solitário andar por entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Em um soneto assim jamais caberá qualquer comentário ou legenda. Melhor findar  o rascunho com esta recriação e mistura ao Coríntios que lhe fez Renato Russo:

https://www.youtube.com/watch?v=NQ-K8QSStOo

*Vermelho http://www.vermelho.org.br/noticia/321106-1

 

1 comentário

  1. Sergio Moro, e sua conge ,Rosângela, são os mais indicados , para falar da língua portuguesa , pois tem autoridade para tal, apesar das rugas que tem no rosto , pois usam muto hidratante para disfarça-las

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