As conversas em mesas de bar, nas quais mudávamos o mundo

As conversas em mesas de bar, em que mudávamos o mundo

É certo, ficamos velhos e, nesse caminho, ao invés de agregarmos, perdemos muito de nossa humanidade, mas, nem todos os monstros ficaram para trás, pode ter chegado o tempo de novamente voltarmos aos parques, de termos novamente voz ativa, proporcionarmos sorrisos a quem as circunstâncias impõem perdas… ,é esta vida latente, que reclama em todo nosso ser, em nosso sangue, em nosso suor e em nossa angustia e que, talvez, baste apenas um convite para trazê-la novamente para sentar em nossas cadeiras, e aí, com certeza, ela pegará a nossa mão e nos levará aos cantos mais insuspeitos da cidade, e veremos novamente as pessoas, sentiremos de outra forma o calor, ouviremos com outros ouvidos os sons, compartilharemos os infortúnios e, nossas mentes e corações irão bater num compasso diferente, enlouquecidamente humano.

As diferenças entre as atuais conversas de bar e as conversas que muitos de nós, das gerações pretéritas – anos setenta e oitenta -, entretínhamos, são enormes.

Mudanças que ocorreram em um mundo em franca ebulição, em que se mostra relevante o impacto da idade e a mudança de hábitos e modo de vida moderno.

Uma breve contextualização. A vida moderna.

Hoje, comumente,  a  conversa de bar, quando se dá  entre homens mais velhos, meia idade (40 – 50 e poucos), versa,  quase que exclusivamente, em relação as mulheres conhecidas ou, nem tanto, divide-se  entre, as que comeram, as que atualmente comem, ou as que estão em seu imaginário, para comer (algo estilo filme b – comédia – e a aí comeu??)… a conversa se repete com variações nos mais diversos ambientes e gêneros,  agora as mulheres também comem com naturalidade, e repetem o mantra, recheado de fantasias sobre academias e detalhes da nova forma de encarar a vida, antes reprimida…

E nada muda, mesmo em ditos lugares diferenciados tematicamente,  ou mesmo com pessoas com interesses diversos dos acima… aí muitas vezes piora…  porque surge a autoridade da informação rasa (internet jornais revistas) em contraste com a evidente falta de cultura que sustente ou possa sustentar uma opinião – não digo válida, porque todas as opiniões são válidas, até as mais disparatadas – mas uma opinião que tenha alguma substancia, que agregue algo útil ao debate em si mesmo, e que não seja útil apenas no campo de estudo pato sociológico do referido participante do diálogo.

E segue a repetição no ambiente de trabalho, com pessoas acomodadas e pacatas, solidificadas famílias ou nem tanto, muda apenas o lugar comum, o tema alcançado pelas conversas.

…ou é o cotidiano dos filhos, empregada, babá, colégio, doenças e médicos e, neste círculo vicioso, não sobra tempo para mais nada e, neste caso,  a ópera-vida  é apenas a isto – sem resumo.

…ou é a apoteose, tipo ostentação, para onde vou (primeira pessoa) neste feriado- férias, para onde minha amiga, amigo, parente foi, teatro em  Nova Iorque (Os Miseráveis), Paris,  Itália…pausa, retifico, agora a moda são países exóticos, fulana foi para a República Tcheca, com a devida ênfase para que os incautos não confundam com a antiga Tchecoslováquia, caso em que sobraria um sorriso de canto de boca e a explicação de que faz muito tempo que houve a cisão deste país, etc…

As superficialidades são muitas, mas nesta vida baseada em consumo, variam apenas na forma, o conteúdo personalista resta sempre presente.  

E aí, você que gostava de conversar no bar, e tinha a musica “conversando no bar” (interpretada pela Elis Regina) como representativa da multiplicidade da vida acontecendo neste lugar – dali se via o mundo e este mundo era passado a limpo e descortinado em suas facetas humanas, as mais diversas –  e isso a cada encontro, apenas em poucas  horas de cerveja, discussões e risos, isso sem se descuidar das necessárias festas, paixões e viagens.

Ainda lembro, e quase  escuto a melodia e a letra….e o motorneiro parava a orquestra um minuto para me contar casos da campanha da Itália e de um tiro que ele não levou, levei um susto imenso…,  e lá ia o menino, com as histórias de vidas passadas ….e ali ficava também parte da minha… que no fundo do quintal morreu, morria a cada dia, dos dias que vivi…

Neste passo, resta apenas a parte final, …cerveja que tomo hoje é, apenas em memória… destes tempos.

Tempos em que a vida efervescia de vida, e os rumos do mundo estavam ali a nossa frente, e a cultura vinha dos livros, serena e criteriosamente escolhidos, bem como das noticias dos jornais, das quais se perscrutava a lógica, pois a técnica de transformar meias verdades em mentiras inteiras, sempre foi a essência da manipulação deste jornalismo,  que desde remotas eras é pago a preço de ouro e tem inesgotáveis trinta dinheiros eternamente guardados…lugar onde muitos são os Pilatos e poucos os arrependidos.

Mas este novo caminho – a continuar nessa rota –  não há de nos levar a salvação, não digo da alma, que é algo que pode ser subjetivo para muitos, tanto na forma de alcançá-la, como na substancia (etérea),  mas da nossa existência como homens, no simples traçado dos caminhos que ainda nos restam de vida… vida pulsante.

Pergunto, aonde estão as crianças pelas quais lutávamos …e a fome no mundo que nos atingia como um soco… e a barbárie, que era sentida como algo presente, de forma profunda e depressiva …mas que também gerava reações e resistência,  e mudava… a nós e ao mundo.

Podemos apenas vislumbrar agora, o novo mundo criado pela internet  e pelas novas formas de comunicação, abriram-se novas janelas, para todos,  mas, banalizou-se a vida, baratearam-se os sentimentos, não há choque – não há realidade palpável – as imagens que valem muito,  em face do excesso, e pela repetição, já não impactam da mesma forma de antes, aonde havia o homem  e o humano atrás da foto.

Agora, o impacto nas nossas experiência efetivamente  humanas, somente ocorre quando a realidade bate a nossa porta, e aí a perplexidade, não sabemos mais lidar com isso, não sabemos como fazer este resgate, ficamos prisioneiros dos aparatos eletrônicos e sua desumanidade.

Realmente, tanto se falou na desumanização, e escreveram-se tratados e teses, e ela chegou e nem percebemos – algo assim – como a grande sacada de marketing de poucos anos atrás – “e quando menos esperávamos o Natal chegou”… e chegou, e chegou novamente, e ninguém viu ele/ela  chegar.

Se houve algum mérito desta massiva e exclusiva exposição, sem contraindicações e sem freios, um deles, sem dúvida, foi  a retirada do nosso imaginário de um certo temor medieval, medo de monstros e sombras e escuro.

Hoje, até as crianças riem dos nossos antigos filmes  de terror, que nos angustiavam, mas,  em contrapartida, nada sentem no massacre, no cortar cabeças, membros, em se infligir sofrimento e dor.

Há apenas ficção, montagens técnicas e um roteiro saturado do bem contra o mal, do mal contra o mal, isso desde que o lado certo, escolhido sem critério, mas adornado com os devidos adereços e apelos que hora o caracterizam como o erigido como vencedor, isso  não importando o massacre ou a tortura, apenas a vitória, e ai há mortes em profusão… algo comum.

E, nestes epitáfios e mortes, aos poucos,  incluo no obituário parte da ingênua crença na bondade humana, na repartição, na solidariedade.

Realmente,  estes filmes, agora, são reais demais, a realidade é virtual, não é de carne e osso e  alma, e ela é bruta e depende de som,  de vozes fortes ou meigas, de reações instintivas e de emoções fortes, de álcool e de fumo, e de estimulantes.

A aceleração da vida atual se impregnou em nossos sentidos e emoções e atos, e a morte e a condenação da morte, e a justificação dos métodos e dos escolhidos, passou ser um lugar comum e incerto.

 …uma pausa…

Os bares repetem a vida.

É certo, ficamos velhos e nesse caminho ao invés de agregarmos, perdemos muito de nossa humanidade, nem todos os monstros ficaram para trás, pode ter chegado o tempo de novamente voltarmos aos parques, de termos novamente voz ativa, proporcionarmos sorrisos a quem as circunstâncias impõem perdas, em suma, reunir forças para buscar sonhos, não no sentido piegas e pasteurizado da palavra, mas na concretude da vida de todos, simples sonhos… sonhos de nossa juventude nas conversas em mesas de bar, em que mudávamos o mundo.

É justamente isto, é esta vida latente que reclama em todo nosso ser, em nosso sangue, em nosso suor e em nossa angustia e que, talvez, baste apenas um convite para trazê-la novamente para sentar em nossas cadeiras, e aí, com certeza, ela pegará a nossa mão e nos levará aos cantos mais insuspeitos da cidade, e veremos novamente as pessoas, sentiremos de outra forma o calor, ouviremos com outros ouvidos os sons, compartilharemos os infortúnios e nossas mentes e corações irão bater num compasso diferente, enlouquecidamente humano.

 

 

 

 

 

8 Comentários

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  1. Lembro que eu tinha 16 anos

    Lembro que eu tinha 16 anos 1999.nossas conversas envolta de uma mesa  com 1 litro de vinho e um carteado de truco.

    se passava entorno da privatização da Vale,eu sempre fui have metal,não entendia os amigos punks que não citava nada sobre a ditaura e os crimes de tortura.os quais eu tive um pequeno deslumbre atraves da mini biblioteca do meu Pai Malufista no livro Tortura! peço até uma ajuda do Motta pois não tenho mais o livro e não lembro da bibliografia ,quando o li a 1 vez eu tinha 12 anos.

    Estavamos em plena campanha contra a fome no nordeste o desemprego altissimo e entoavamos Teatro do Vampiros Lergião Urbana.

  2. embriagado de humanidade

    Me vejo desnorteado com a tal de “humanidade”. Amor, paixões, desejos ardentes Mas não seriam igualmente humanas a ciência, a tecnologia ,as máquinas ? Todas estas décadas acumuladas me trouxeram apenas a aflição de assistir os sentidos entorpecidos, incapazes de encantamentos da juventude; tudo é humanidade. 

  3. belo texto.
    tempo das

    belo texto.

    tempo das utopias, dos ídolos a quem podíamoss admirar,

    que faziam parte de nossas vidas impregnadas de lutas contra a ditadura.

    hoje parece que hegemonia é dos distópicos.

    mas nas reuniões de choro ainda há uim clima de

    confraternização pelo menos para curitr uma boa música.

  4. Esse texto me fez rememorar

    Esse texto me fez rememorar Nietzsche:

     

    “Eu, andarilho entre homens como entre fragmentos do futuro: daquele futuro que eu contemplo.

    E isso é todo o meu pensamento e todo o meu interesse, que eu junte e una tudo aquilo que é fragmento e enigma e acaso terrível. E como eu suportaria ser homem não fosse também poeta e adivinhão de enigmas e redentor do destino?

    Redimir o passado e transformar tudo aquilo que “era uma vez” em “era assim que eu o queria!” – apenas isso seria a redenção para mim.

    (Citação de Zaratustra, parte II)

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  5. Falta de viver “ao vivo”

    Fala-se aqui de uma época em que vivíamos a vida “ao vivo”, expondo nossas idéias e fragilidades, nos expondo ao vivo aos sucessos e fracassos, econômicos, políticos ou até românticos, diretamente, perante gente como nós.

    Hoje existem elementos tecnológicos e políticos, todos os dois direcionados pela economia de consumo que, nesse afã de atomizar o mercado e multiplicar as vendas (venda de qualquer coisa), terminou tirando o povo da vida comunitária e nos colocando como meros entes consumidores e individualistas.

    Do lado tecnológico, obviamente a TV primeiro, logo a internet e hoje segue com os celulares de todo tipo, onde as pessoas criam redes e amigos virtuais, onde se escondem atrás de um “perfil” e fazem amizade com o “perfil” de outros. No lado político, a Lei de Silencio, a Lei Seca e outras legislações para “minorias”, que não conformados com o “bom senso” norteando nossos relacionamentos sociais, tentam legislar também sobre o nosso dia-a-dia, e que aproveitam de satisfazer poucos direitos individuais, de gente egoísta (porém individualizada e com título de eleitor), mas sacrificando milhões de direitos coletivos, porém anônimos, gerando a ditadura da minoria esperta.

    Brasil é uma panela de pressão, com três dias de carnaval e com a emoção de um gol no final de semana, evitando que o país exploda no restante do tempo. O resto é artificial e pasteurizado, sair a trabalhar, pagar as contas, ir ao shopping ou ficar em casa pedindo comida por Delivery, como vivendo numa MATRIX.

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