Bethânia: pajelanças de cura e orações de esperança, por Antonio Hélio Junqueira

Tenho Maria Bethânia na mais alta conta e categoria de verdadeira artista. Ela fala, desde sempre, essencialmente da alma do Brasil, no Brasil e para nós, tão tristes e desesperançados brasileiros.

Bethânia: pajelanças de cura e orações de esperança

por Antonio Hélio Junqueira[1]

Feliz é o povo que tem artistas que cuidam de sua alma!

O verdadeiro artista torna-se, ele próprio, com o tempo e a maturidade dos dias vividos, espelho a refletir a alma dos seus conterrâneos em suas mais profundas dores, angústias, esperanças, alegrias e festejares. Mas este sequer é o lado mais relevante do fenômeno e da vida artística. De modo muito mais importante do que na produção passiva dos reflexos, os artistas são entidades de refração alterada das imagens e dos imaginários que fluem de sua terra e de sua gente. Assim, ao imprimirem deslocamentos de eixos para as projeções das almas, acabam por conduzir os seus a lugares de mais luz, a outras perspectivas possíveis para o existir, a novas potências de amor, de vida e de plenitude dos sentires, das experimentações e da criação de outros futuros, sempre e sempre possíveis.

Tenho Maria Bethânia na mais alta conta e categoria de verdadeira artista. Ela fala, desde sempre, essencialmente da alma do Brasil, no Brasil e para nós, tão tristes e desesperançados brasileiros. Mas, mesmo nesse momento de catástrofes, pandemia e desolação ela não nos entrega e não nos enterra…. Ela nos acalanta, nos nutre, nos passa as mãos no cabelo e nos segura docemente as mãos para nos levar para muito mais além da saudade, do choro forte, da revolta no peito e do silêncio imposto aos lábios.

Tudo isso vem a propósito da recente live levada ao ar pela artista no último 13 de fevereiro, sábado de sem-Carnaval, pela plataforma GloboPlay com transmissão online democraticamente aberta também para não assinantes.

Resistente às lives até o último momento, Bethânia acabou cedendo e veio a dividir sua tristeza, seus anseios e suas esperanças no seio deste Brasil pandêmico e desgovernado com suas tribos de fãs e perpétuos seguidores.

Bethânia sempre soube muito bem o que estava fazendo ao não abraçar de pronto as novas formas de exibição da vida online que nos restou. Ela se reconhece como artista de palco e plateia, que se embebe e se nutre do calor e do carinho de seu público, que teatraliza e dramatiza tudo. Mas, no fim – e para nosso deleite – ela veio, finalmente, até nós.

A apresentação de Bethânia foi tudo…tudo menos simplesmente um show ou uma mera apresentação de uma artista amada e renomada, tecnicamente irretocável. Bethânia foi manifesto político. Bethânia foi pajelança sobre nossas dores e dilacerações da alma. Bethânia foi rezadeira de preces e cantos de esperanças, por mais apagadas e improváveis. Bethânia falou de saudades e de voltas (voltas de amores, voltas de marinheiros, voltas por cima…) e, suprema como só as musas e as deusas podem fazê-lo, prometeu, suavemente maldosa, revezes e corretivos aos que se regozijam nos malefícios que engendram e que espalham pelo mundo.

Acompanhada de um enxuto e ferocíssimo quarteto de músicos, Bethânia preferiu dar à sua apresentação um roteiro pautado por suas memórias, o que era mesmo de se esperar, haja visto que comemorava, na data, os 56 anos de sua estreia na vida artística e musical do Brasil, no show Opinião, de 1965. E foi justamente esse um dos pontos mais fortes de seus muitos acertos. Afinal, memórias, nesses tempos pandêmicos, são o que mais nos resta. Memórias, nesses tempos obscuros e obtusos são tudo o que mais nos sustenta, na esperança da superação  inspirada nos tempos idos de resistência, resiliência, persistência e luta.

Perfeita, ao abrir sua live, Bethânia foi logo dando nome aos bois, ou seja, conferindo voz (e que voz!) aos desejos mais pujantes e urgentes de seus fãs e de todos os brasileiros de boa-fé, como que libertando a garganta de um engasgamento infinito: “Eu quero vacina, respeito, verdade e misericórdia”, disse ela. Queremos todos, vibramos, oramos, pedimos, militamos por isso…. Que bom que você disse isso e que (melhor ainda) todos podemos somar a esta sua mais justa e oportuna demanda. Obrigado, rainha!

Não queremos nos calar. Queremos falar, exigir o que é nosso por conquista e por direito…. Por isso: “Pai, afasta de mim/de nós esse cale-se (cálice) ”. Talvez no que veio a ser o ápice da noite, Bethânia renovou sua interpretação dessa música – não por acaso trazida à tona – de Chico Buarque e Gilberto Gil, de 1973, gravada por Chico e Milton Nascimento em 1978, tornada verdadeiro hino popular contra a ditadura militar do País daquelas décadas sombrias.

Bethânia declama e, ao declamar, fala de crenças e de esperanças. Faz parte do seu feitiço, assim como faz parte dos seus encantamentos juntar pedaços de canções, fundir trechos de poemas com músicas, que nunca mais ninguém consegue separar. É para sempre!

Na tessitura de sua apresentação, a cantora foi explícita quando precisou ser, ao tratar, por exemplo de racismo, de gente preta e da morte do menino Miguel, caído feito anjo do céu, em prédio do Recife (em “Dois de junho”, de Adriana Calcanhoto). Outras vezes, disse nas entrelinhas, deixou entrever, sublinhou, assinalou, sugeriu… e (milagre dos milagres) todos nós entendemos tim-tim por tim-tim o seu recado.

Bethânia nos deu uma grande noite ao nos mostrar que, mesmo nos momentos mais sombrios, mais graves, mais tristes…podemos e devemos “sonhar mais um sonho impossível” até ver uma flor brotar no chão da vida que construímos com nossas mãos, sangue, suor e cervejas.

Ela também lamentou…lamentou a falta do calor do seu público (será que foi por isso que ela se aconchegou o tempo todo nas golas largas do seu casaquinho branco?), lamentou a falta de Santo Amaro, a falta de Carnaval, a falta de Salvador e de Recife e a falta até mesmo de fevereiro, uma vez que “fevereiro assim não presta”. Mas também vaticinou em troca: “ ano que vem…brincaremos dobrado! ” Tá prometido! Tá combinado!

Eu pretendo fazer meu Carnaval particular assim que tomar minha vacina e ele será dobrado se coincidir com aquilo que você sabe daquele que não se diz o nome. Mas assim, por melhor que seja, não vai contar. Só vai contar mesmo quando estivermos de novo todos juntos, abraçados, colados, amontoados, irmanados, sem medo, sem trapaça, sem desafetos, sem preconceito, sem desrespeito e com muita misericórdia. A gente chega lá!

Todo povo deve, por certo, amar seus artistas, posto que todo verdadeiro artista é ele próprio a alma do seu povo. Um povo que não ama seus artistas é um povo sem alma, um povo sem esperança, um povo sem nada!

 Amamos você, Bethânia!


[1] Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Pós-graduado em Desenvolvimento Rural e Abastecimento Alimentar Urbano (FAO/PNUD/CEPAL/IPARDES) e em Organização Popular do Abastecimento Alimentar Urbano (FEA/USP). Pesquisador e consultor de empresas em Inteligência de Mercado, Estudos do Consumo, Tendências de Mercado e Marketing. Sócio-proprietário da Junqueira e Peetz Consultoria e Inteligência de Mercado.

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