11 de junho de 2026

Crônica Satírica: O Sofrimento do Rentista Sensível, por Fernando Nogueira da Costa

Narrativa satírica em forma de crônica sobre a lamúria ressentida de um economista-chefe de tesouraria de um pequeno banco, ou uma banqueta.
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Crônica Satírica: O Sofrimento do Rentista Sensível

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por Fernando Nogueira da Costa

Apresento uma narrativa satírica em forma de crônica sobre a lamúria ressentida de um economista-chefe de tesouraria de um pequeno banco, ou seja, uma banqueta. Reclama diante do colapso moral de um país onde… tudo parece estar melhorando — menos o pretexto para manter os juros nas alturas.

Crônica Satírica: “O Sofrimento do Rentista Sensível”

Ou como é difícil multiplicar o patrimônio quando o país insiste em dar certo.

Acordou cedo, como todo homem sério de O Mercado. Tomou seu café com leite tipo A, abriu o Valor como quem abre a Bíblia e leu com pavor as manchetes do dia.

“IPCA sobe abaixo do previsto”.

“Queda na taxa de desocupação e na informalidade do trabalho para menor nível da série histórica.”

“Pobreza cai pelo quarto ano seguido no Brasil”.

“Queda da desigualdade de renda em 2024”.

“Brasil melhora em IDH – Índice de Desenvolvimento Humano”.

Ele quase derrubou o croissant na mesa da varanda com vista para o Ibirapuera.

— Isso é um desastre! — exclamou, passando as mãos no cabelo engomado. — Como vou justificar 14,75% de juros com esse nível de estabilidade miserável?

Subiu o edifício na Faria Lima como se fosse máquina

Ergueu no escritório quatro argumentos sólidos

Palavra com palavra num desenho mágico

Seus olhos embotados de cifrões e lágrima

Era dura a dor de não poder subir os juros sem motivo.

Seu banco, modesto, administrava sua riqueza pessoal de R$ 150 bilhões — quantia suficiente para comprar algumas Ilhas Cayman… e dois ou três senadores. O plano era simples: manter os juros em dois dígitos e assistir ao patrimônio multiplicar-se com a graciosidade de uma planilha bem-feita.

A calculadora financeira estimava: 12 n 1,15 i 150.000.000.000 VP =>  VF 172.000.000.000. Renda passiva de 22 bilhões de reais em um ano! Só.

Mas aí veio o problema: a economia, contra toda a lógica e todas as previsões da turma da Faria Lima, começou a melhorar durante o novo governo Lula. Culpa do PT!

O salário dos pobres, esses ingratos, subiu acima da inflação dos alimentos. A fome, essa aliada invisível da estabilidade fiscal, despencou.

Pior: a desigualdade caiu.

— Onde vamos parar? — suspirou ele, angustiado. — Daqui a pouco vão querer baixar os juros só porque o país melhorou! Isso é populismo de esquerda!

Sem ter o que fazer com tanta boa notícia, ele resolveu agir. Pegou o telefone e ligou para seu colunista preferido no jornal Valor (poderia ser para os de O Globo, Estadão ou Folha de São Paulo):

— Publica aí: “O Mercado está preocupado”.

— Preocupado com o quê?

— Com o estado de confiança.

— Confiança no governo?

— Pelo contrário, desconfiança diante o risco fiscal virar risco cambial.

— Mas, dotô, o dólar tá despencando em todo o mundo…

— Aqui é diferente, se o juro não se mantiver disparatado, não atrairá capital mesmo perante o risco soberano de não haver calote em títulos em moeda nacional emitidos pelo Tesouro Nacional.

E assim saiu mais uma série de editoriais no pautado jornalismo econômico brasileiro:

“A inflação está baixa, mas o risco fiscal permanece.”

“A renda está subindo, mas o país ainda inspira desconfiança.”

“O desemprego caiu, mas o risco moral da prosperidade pode corroer o mercado.”

Era a arte do lamento performático: fingir medo enquanto o lucro (e a barriga) engorda.

O grande sonho do “nosso herói” não era salvar a economia. Era elevar a carteira do banco de R$ 150 bi para R$ 172 bi. E não por crédito produtivo para alavancagem financeira da produtividade e da inovação tecnológica. Não. Isso dá trabalho. Apreciava mais a renda passiva.

Renda passiva é um fluxo de receita gerada por ativos financeiros ou imobiliários sem exigir trabalho ou esforço contínuo por parte do proprietário para continuar a gerar dinheiro. Em vez de o indivíduo trabalhar diretamente para gerar essa receita, os seus ativos, como investimentos financeiros ou propriedades imobiliárias, produzem a renda.

Ele queria crescer com juros altos e liquidez estéril, conjunto capaz de fazer os títulos de dívida pública brasileira parecerem frutos de milagre.

— A renda do pobre subiu, mas e o meu CDI, quem protege senão eu?!

E chorou, discretamente, ao ver a manchete de mais um mês com inflação se aproximando do teto da meta irrealista, implantada pelo lobby de gente como ele. Malditos dados. Sempre atrapalhando a narrativa.

Epílogo: A comédia do rentismo sem causa

Nos bastidores, enquanto o PIB surpreendia positivamente pela quinta vez, enquanto a Bolsa batia recorde, enquanto os lucros empresariais explodiam, ele se preparava para mais uma entrevista.

No camarim da emissora pró-mercado, olhou-se no espelho e ensaiou com convicção:

— O Brasil inspira cautela. A confiança do investidor precisa ser reconquistada. O Banco Central deve agir com responsabilidade…

Respirou fundo e entrou no estúdio, pronto para lamentar mais uma vez o apocalipse econômico imaginário – e transplantado para as manchetes do jornalismo descolado da realidade.

Moral da história?

Nada deixa um banqueiro de negócios mais nervoso senão um país capaz de dar certo sem ele ganhar mais dinheiro ainda.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “

Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. AMBAR

    18 de junho de 2025 1:32 pm

    Legal! (kkk)
    Por outro lado, não podemos ignorar o sofrimento do herói rentista dessa crônica. Sincera e real, a dor da perda, tanto quanto a dor do menos ganho, deve ser respeitada, todos sabemos que do Jardim Robru ao Ibirapuera, passando pela Faria Lima, quem não aprecia uma renda passiva?

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