Dia das mães lado B, por Mariana Nassif

Como faz pra ser bom quando os números estão cheios de sangue?

Aquela mãe desconhecida que teve a individualidade rompida. Violada pelo machismo – possuir os corpos, pois são só corpos – eis que fez filho na mulher que não sabia ser nenhuma. tentou seguir. persisto. Tem alguém com vontade de viver sou eu. Nasço e me torno mulher com privilégios e sortes e dores e machucados cuidados pelo invisível: quem é que vê?

Escrevo sobre aquela que é tantas e que não contam com as oportunidades soltas e seguem sem voz – mudas, nem o choro lhes escutam. As guerreiras doídas, muitas vezes doidas, as mais varridas, que passam a vida a perguntar: quem vai olhar?

Ontem, debrucei meu silêncio, as escritas e meu olhar.

Só no Brasil, são quase 10 milhões mulheres chefes de família, sendo estes lares ocupados por um companheiro em apenas 32% dos casos. As mães solo, que educam as crias sem participação do pai, representam 40% da ala materna. Dados apontam, ainda, alarmantes 6 abortos registrados por dia realizados em meninas entre 10 e 14 anos.

Se estes números não são tocantes no que diz respeito ao corpo, lugar e papel da mulher/mãe nesta sociedade, pode parar de ler, não vamos a lugar algum. Estes fatos surreais – há muito mais número de onde estes vieram, apenas não são contabilizados por acontecerem à beira da criminalidade, marginais distantes de onde o dinheiro circula, “não é pro nosso bico” – falam de uma história que não é só minha.

Assunto espinhoso, vez ou outra me pergunto cadê coragem pra enfrentar e escrever? Outra mãe sopra: “tô aqui”, e venho, borboleta pousada sobre búfalo insano, me posicionar.

Hoje, milhares de mães lamentam o assassinato, o desaparecimento de seus filhos. Jacarézinho deixou 28 dessas esfregando na cara do Brasil como este domingo deveria ter sido de lamento, profunda reflexão e luto, descanso em meio à luta que é viver assim. Como faz, coração pesado de lavar sangue dentro de casa, sem filho, sem vida, como pode deixar passar?

Se isso não te toca, olha… não dá nem pra começar.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora