É preciso responder à infâmia contra João Cabral de Melo Neto, por Urariano Mota

Ernesto Araújo criticou o escritor e diplomata João Cabral de Melo Neto, escolhido como patrono da turma de formandos do Instituto Rio Branco.

É preciso responder à infâmia contra João Cabral de Melo Neto

por Urariano Mota

Os intelectuais brasileiros têm uma tarefa inadiável, acima de todas as outras. Acima da família, da prática cotidiana, acima das suas religiões, crenças ou credos. Hoje, esta é a mais urgente das mais urgentes tarefas: destruir o governo Bolsonaro.

Não se trata somente de fazê-lo sair logo do Planalto, uma tarefa da maioria do povo, de todos os cidadãos do Brasil.  Não se trata somente de levá-lo aos tribunais brasileiros e internacionais. É além disso. Trata-se de destruir o governo Bolsonaro. É um imperativo, um dever de consciência.

Eis uma das razões. Olhem o que fala a besta do fascismo no Itamaraty, quando participou de uma formatura do Instituto Rio Branco na quinta-feira, e criticou o escritor e diplomata João Cabral de Melo Neto, escolhido como patrono da turma:

“A utopia de João Cabral, esse comunismo brasileiro de que alguns ainda estão falando até hoje, consistia em substituir esse Brasil sofrido, pobre e problemático por um não-Brasil, um Brasil sem patriotismo”

Mas o que era mesmo a utopia de um dos maiores poetas brasieliros? Numa de suas lições isto:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos”.

Mas o excremento fascista no Itamaraty aproveitou a solenidade e cometeu mais este jato:

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“Sim, o Brasil hoje fala de liberdade através do mundo. Se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária, que sejamos esse severino que sonha e essa severina que reza”.

Essa é uma infâmia primeiro à poesia, segundo a João Cabral de Melo Neto, terceiro à inteligência e honra nacional. O Severino universal do poeta é  outro, diferente em tudo das trevas no poder:

“— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
*

— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás….
*

— Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
*

— Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la”

Mas para o fascista no Itamaray o Brasil e Severinos devem ser:

“Na ONU, que teria sido, que foi fundada no princípio da liberdade, mas que a esqueceu. Sim, o Brasil hoje fala de liberdade através do mundo. Se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”

Por isso retornamos: é preciso destruir o governo Bolsonaro. Então esclareço o modo como esse alto e necessário imperativo de consciência pode ser realizado: é preciso destruir a ideologia fascista, é preciso destruir a ordem e moral fascista, é preciso lutar sem tréguas ou quartel, em todas as tribunas, em todas as escolas, jornais, televisão, rádio, conversas íntimas, conversas públicas, nas ruas, em casa, no campo e na cidade. O mal que está no Planalto é um câncer que contamina e se propaga em metástase no seio do povo brasileiro. É preciso destruí-lo como a nossa mais nobre e urgente tarefa. As perguntas que caem sobre nós são estas:

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– És um escritor?
– És um poeta?
– És um professor?
– És um músico, um cineasta, um jornalista, um pintor, um artista de teatro?
Se respondermos “sim”, devemos então responder à pergunta seguinte:
– És um homem?
– Sim.

Então este é o nosso caminho: destruir o governo Bolsonaro. De todas as formas, conteúdos e maneiras. Ou não poderemos sequer olhar a altura da nossa civilização. Ou não seremos dignos destes versos:

“— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina”.

Que o poeta e sua defesa encarnem uma ação contra a infâmia que chamam de Bolsonaro.

*Vermelho https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/e-preciso-responder-a-infamia-contra-joao-cabral-de-melo-neto/

 

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5 comentários

  1. Eu fico a pensar, onde foi que erramos? A gente busca um mundo melhor, para nossa gente e nosso filhos e depara com um mundo de malucos que existiam e a gente não sabia.
    Pobre Brasil.

  2. Este estrume é passageiro. Outro que findo o fascismo vai habitar uma cela.
    Vamos perder tempo com este bostinha já identificado como “ernesto o idiota”?

  3. Senhor Carlos, pela sua nota dá para entender que não deveríamos perder tempo com Ernesto Araújo.
    Tenho minhas dúvidas sobre isso por uma razão simples: em 2014-2015 muitos diziam a mesma coisa sobre a besta que ocupa a presidência atualmente………
    Att LM

  4. Sr. Lauro nao discordo do seu posicionamento, mas considero ernesto “o idiota” ( ou damares, ou sales, ou pontes, ou o ignóbil da fundação palmares, e outros), personagem de menor pesar, a qualquer momento rapidamente substituível por outro tão imbecil quanto, pois o estoque de estrumes deste governo, como eu sempre escrevo, é inesgotavel.
    O que precisamos dedicar tempo é na identificação e no combate a estrutura que alçou e mantém o fascismo.no poder.
    Creio que vale mencionar um ensinamento de a arte da guerra:
    “Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para ser vitorioso você precisa ver o que não está visível”
    E, caro Sr. Lauro, nao creio que estejamos mirando no oculto ao desperdiçar tempo não só com este “idiota” mas tambem com os demais”bonecos de posto”.
    Quanto a bozo em si, que usa bem o recurso diversionista, ao investigar seu entorno (mariele, rachadinhas, gabinete de ódio, milicias, etc) a lei caminhava na direção e sentido corretos pois apesar de toda fumaça espalhada pelo desgoverno me parece que utilizaram um outro ensinamento de Sun Tzu:
    “Diante de uma larga frente de batalha, procure o ponto mais fraco e, ali, ataque com a sua maior força”
    Mas, está tudo parado!
    Sei que tudo parece teórico demais, um jogo de sombras. Contudo, como não lembrar dos engodos utilizados pelos aliados para desviar atenção de hitler e seus nazistas sobre os verdadeiros objetivos do Dia D e que salvaram vidas na carnificina ocorrida na Normandia em 6/6/1944.

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