E uma conversa de vizinhas confinadas jamais será manchete de jornal, por Maíra Vasconcelos

As preocupações caseiras do confinamento de cada um não interessam aos jornais.

Arte Vik Muniz

E uma conversa de vizinhas confinadas jamais será manchete de jornal

por Maíra Vasconcelos

*para escutar leitura do texto: 110909_005

Hoje, ao ler os jornais, percebi que deveria falar dos poucos passos que vejo transitar na calçada e na rua onde moro. Isso que é o mesmo que falar de um olhar sobre. Não porque aqui tenha ocorrido algo grave ou belo demais. Mas apenas porque os jornais não existem para tratar miríades de intimidades. Afinal, jornais não contam o que acontece em uma casa, mas aquilo que pode afetar muitas casas.

Por exemplo, hoje, os jornais diziam que a extrema lentidão do movimento urbano é resultado da clausura de cada um. Mas qual é a sua clausura? Oi, Elizabeth, como está a clausura da senhora? Daqui de casa, quase não vejo vivalma. A casa da senhora está mais arrumada do que antes? Aproveita, sim, joga essa papelada toda fora. Tem feito muito café? Vixe do céu, mas as plantas não podem morrer! Aqui está uma loucura, os meninos gritando o dia inteirinho. A rua, essa calmaria de dar dó. Você sabe, aqui é agitado demais, né? Mas fico de preguicinha também, muito esquisito tudo isso.  

E essa conversa de vizinhas jamais sairá nos jornais. Afinal, jornais trabalham exclusivamente para o que é de interesse público. As preocupações caseiras do confinamento de cada um não interessam aos jornais. Em clausura, plantas de Elizabeth morrem por falta de ar. Logo, isso jamais será manchete de jornal. Elizabeth, a senhora tem tomado mais de três cafés, por dia, estando confinada? Isso também jamais será uma pergunta de jornal.

Ora, jornais não contam o particular passo de ninguém. Esse passo, hoje, sempre da sala ao quarto, da cozinha ao quintal, e nem sobre a nossa relação afetiva com cada objeto da casa. O jornal é a fala do bem comum ou não é nada. Ah. Mas será sempre bom olhar para fora dos jornais, lembrar que os objetos da cozinha esperam por nossas carícias matinais, ou que Elizabeth não pode mais de tanto tomar café. Isso que também pode ser um pouco de todos nós, ou de alguns de nós, mesmo durante as catástrofes que vive a humanidade.  

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