do Observatório de Geopolítica
La verguenza de haber sido y el dolor de ya no ser
por Felipe Bueno
BUENOS AIRES – Da antiga “capital europeia” da América Latina, o ato de assistir a um recital no Teatro Colón é uma das poucas lembranças. Mesmo assim, necessita de um grande exercício de imaginação.
Mesmo que do lado de dentro ainda predomine certa pompa e circunstância, artigos caríssimos especialmente a argentinos mais velhos e economicamente estáveis, o respeito à música e aos músicos é constantemente ameaçado pela dependência dos smartphones. Estamos em 2023, não em 1908.
E a referência à saúde financeira faz muito sentido numa Argentina cada vez mais desigual: a entrada mais cara para a apresentação do pianista e compositor austríaco Dejan Lazic no dia 24 de abril custava 58.000 pesos, ou seja, quase 1.500 reais enquanto escrevo estas linhas – certamente um pouco mais no momento em que você as lê.
Depois do encantamento produzido pela música, você sai para caminhar no ainda iluminado centro de Buenos Aires, uma região que tenta convencer a si mesma de que ainda tem a magia de cinquenta ou cem anos atrás.
É claro que ainda é quase uma Roma ou Paris se pensarmos no centro de São Paulo à noite, mas comparações como essa não matam a fome e não fazem passar o frio.
E neste abril que já vai embora, abrindo as portas para o inverno que se aproxima, as vítimas sobreviventes da mais recente de dezenas de crises pelas quais a Argentina passou seguem pedindo ajuda nas calçadas.
E são em cada vez maior número: homens, mulheres e crianças; jovens e idosos.
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Corte brusco: num espaço de poucas horas, no mesmo dia da performance musical, testemunhei o despejo de uma família de um imóvel a menos de cem metros do Obelisco. La Tercera já foi ganha há mais de quatro meses. A Copa do Mundo acabou, a paciência também vai chegando ao fim.
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Ainda que sempre tenha sido singular na sua política interna, o país vive hoje o absurdo de ter um número de pré-candidatos à Presidência da República equivalente ao de “cotados” que preferem ver a disputa de muito longe.
Tive a oportunidade de pisar em Buenos Aires pela primeira vez em 1996. Várias outras se passaram e posso escrever com segurança: Cuesta Abajo é mais que um belíssimo tango.
E se a capital europeia da América Latina jaz assim, o que dizer de suas cidades-irmãs do Sul?
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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