Feliz Aniversário, Rui Daher

por Rui Daher

Em minhas Andanças Agro Capitais ouço muito a expressão “há males que vêm para o bem”. No geral de gente simples, nunca de almofadinhas que só têm certezas. Se é mal é mal; se é bem é bem. Também ouço que não se deve cutucar a onça com vara curta e é isso que vejo almofadinhas estarem a fazer com o Brasil, o que me traz teimosa fé de que o golpe sobre a democracia, que hoje repetimos, depois de um intervalo democrático de apenas 30 anos, nos trará bons frutos, pelo menos os relativos à cultura.

Não foi assim depois do golpe civil-militar de 1964? As respostas vieram das juventudes católicas de base e libertação, do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, do Cinema Novo, da Bossa Nova, dos compositores e poetas que desciam dos morros cariocas, dos teatros Oficina, Arena e Tablado, do Cinema Novo, da poética de João do Vale e João Cabral, de Ênio Silveira e sua Editora Civilização Brasileira, da literatura de Plínio Marcos e Antônio Callado, da ousadia de “O Pasquim”, “Opinião”, “Movimento”, e seus requebros para driblar censores.

Se parece certo que o acordo secular de elites foi restabelecido e que os intelectuais de direita preferem tomar chá, fotografar os Alpes, visitar museus na Europa, não ver esperança no verde de nossas matas, mas sim “nos gramados campos de lá”, e almofadar minuetos ao invés de chorinhos, então, a cultura será de novo a nossa forma de resistência.

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Sim, porque o impeachment já está decidido, o #DentroTemer também, Serra entregando soberania e patrimônio nacionais, Mendes cassando um partido, Moro com as algemas de Lula penduradas em seus finos lábios, Meirelles tocando a mesa derivativa, Ilan na roleta cambial, direitos de trabalhadores ajustando a produtividade, juros altos no controle da inflação, também.

O que vocês queriam mais? A cultura acomodada esperando Wesley Safadão, ou Fernando e Piracicaba “afinal o que são cem quilômetros de distância”?  

À luta cultural precisaremos voltar recorrendo às inovações oferecidas em meio século de avanço tecnológico. A direita é burra e os melhores estão ao nosso lado. A própria direita se inferioriza e levanta estandartes da TFP, Tradição, Família e Propriedade, recorrendo a Fernando Henrique Cardoso, Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino. Querem alvos mais fáceis para nossas AK-47 gozadoras e festivas?

Bastará repetir o que muitos de nós fizemos para, depois de 21 anos, retomarmos a democracia num país miserável da América Latina: usar a burrice deles e sua pretensão almofadinha.

Isso não tem cura. É milenar. Assim como não abandonam o acordo secular de elites e se garantem com o poder institucional que os privilegia, também não percebem nossa sutileza cultural, política e, principalmente, humorística.

Voltemos a ser felizes, insidiosos, irônicos, sarcásticos, criativos. A isso eles não resistem, sabem que são inferiores. Sim, é lamentável ridicularizar quem está destruindo o País. Sei lá por quanto tempo, mas isso depende de vocês, molecada que percebo esperta e desperta.

Beijos, que hoje completo 71 anos de idade. Pusessem o número um na frente, eu seria de direita.

12 comentários

  1. O post anuncia a fe que o

    O post anuncia a fe que o golpe atual trara, como o de 64, “bons frutos, pelo menos os relativos à cultura”.

    Para fundamentar tal crença cita o surgimento da Bossa Nova, do cinema novo, dos teatros de Arena, Oficina e tablado, alem de outros acontecimentos importantes ocorridos na decada de 60.

    Usando a expressão popular de que “ha males que vem para o bem”, o texto sugere  que a cultura floresce com golpes.

    Ha um grave equivoco na analise.

    Esquece que todas essas manifestações culturais destacadas nasceram  antes do golpe militar e cresceram incentivadas por politicas serias dos governos anteriores, de Juscelino, Jango e mesmo Getulio.

    Como não se  para um trem em velocidade com um dedo, os militares em 64 , apesar das prisões, cassações e torturas, não conseguiram imobilizar o forte movimento cultural que acontecia.

    Durante anos, como simples comentarista deste blog, afirmei que os governos petistas erravam perigosamente ao não implantarem uma politica seria para a cultura, como os governos populares anteriores.

    Escolheram para ministro uma pessoa boa de samba, mas não preparada para tarefa tão complexa,

    Resultado: nunca se viu um apagão tão serio naquele setor da vida social.

    Chegamos a tal ponto que pessoas insignificantes como lobão, roger, frota e outros começaram a ganhar destaque e falar em nome das artes.

    O que acontece no momento é apenas o surgimento de manifestações politicas de alguns artistas, que devido suas projeções publicas conseguem furar o bloqueio da midia..

    Não acredito que da lama que assistimos hoje nascerão flores, pois a terra não foi preparada.

    • Antônio,

      “Esquece que todas essas manifestações culturais destacadas nasceram  antes do golpe militar e cresceram incentivadas por politicas serias dos governos anteriores, de Juscelino, Jango e mesmo Getulio”.

      Não acredito que haja uma cronologia exata para marcar etapas da cultura na história. Pelo menos, com a precisão que você sugere. Sim, muitas assimetrias aos anos de chumbo se originaram antes do golpe de 1964. Teremos que voltar a 1922? Ou a João do Rio? O certo é que recrudesceram e assim se tornaram mais criativas a partir da década de 1960. E não só no Brasil, mas em todo o planeta. Especificamente, no Brasil como resposta à censura e à sisudez hierárquico-militar.

      O estado deplorável da cultura no Brasil, atualmente, chegou a tal ponto de acomodação, um fundo do poço, que caberá aos moços fazerem-na renascer.

       

  2. feliz…

    71? Tá um garoto!!! Mais 71 para ver se seu Santos chega no 633 do meu São Paulo. e o Tiete limpo descendo as corredeiras em Salto revelando o Brasil aos bandeirantes, de ontem e de sempre. Parabéns. 

  3. Parabéns, querido amigo

    Parabéns, querido amigo Rui!

    Muita saúde, alegria, felicidades na sua vida!

    Obrigada por nos brindar sempre com seus causos com muita sensibilidade social e muito humor sobre nossas mazelas.

    Um grande beijo.

     

     

  4. + comentários

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